Vaca não dá leite!
- Kaio Feroldi Motta

- 22 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Por: Kaio Feroldi Motta.
Administrador; Especialista em Gestão Hospitalar; Mestre em Organizações & Empreendedorismo, com foco em Inovação & Mercado.
Talvez você acompanhe e invista alguns minutos do seu tempo para ler as matérias trazidas nesta coluna ou, talvez, tenha achado inusitado o título e pensado “oxe, do que esse cara tá falando?”, vindo até aqui e... cá estamos, você lendo o que há pouco escrevi, em uma coluna que trata de assuntos voltados à administração empresarial e gestão de negócios. Nos últimos dias, essa frase me veio à mente, frase que certa vez foi dita em uma palestra de Mario Sergio Cortella (Professor, Escritor e Filósofo). Para quem já assistiu a palestra onde Cortella diz essa frase (ou ao menos o trecho, disponível no youtube) já sabe do que estou falando; caso você nunca tenha ouvido que ‘vaca não dá leite’ ou esteja pensando ‘mas é óbvio que dá’, saiba que não: vaca definitivamente não dá leite e, apesar de, ao final deste texto, você entender o que quero dizer com isso, saiba que não falaremos de agropecuária, agronegócio e muito menos de vaca (ou de leite). A frase análoga encaixa no título com o objetivo de explanar a você, leitor, que não há ganho sem esforço. Salvo na infância (e olhe lá), o que buscamos, precisamos ou queremos em nossas vidas só acontece com luta, suor, esforço e trabalho. Por isso a frase ‘vaca não dá leite’ é um fato (afinal, a vaca não chega para o leiteiro e entrega o leite; é preciso retirá-lo). Da mesma forma, assim o é no mercado de trabalho.
Antigamente, um diploma universitário era como um título de nobreza: uma vez conquistado, servia para o resto da vida e garantia um lugar ao sol até a aposentadoria. Estudávamos quatro anos, guardávamos os livros no fundo do baú e passávamos as três décadas seguintes repetindo as mesmas fórmulas e teorias com segurança. Hoje, se você fizer isso, será impossível conseguir evoluir profissionalmente (isso se você conseguir se manter trabalhando). No mundo atual, ainda que um diploma seja requisito minimamente necessário, o conhecimento adquirido ao longo dos anos de estudo na faculdade tem prazo de validade mais curto que iogurte fora da geladeira, e quem não entende isso acaba tentando consertar foguete com chave de fenda de madeira (em resumo: se você acha que só uma faculdade e uma pós são o suficiente, eu recomendo a você que reveja seus conceitos).

Não estou falando apenas do conhecimento que se adquire nas universidades (o que se aprende no dia a dia da vida também é importante); contudo, a grande armadilha para o administrador de negócios de hoje é acreditar que a experiência acumulada ou os certificados de conclusão de curso são um porto seguro. Importantes? Sim. Só isso basta? Não. O mundo corporativo não é estático, e a experiência ou o conhecimento, muitas vezes, é apenas uma parte do todo (parte esta que se desatualiza velozmente). Com a tecnologia mudando as regras do jogo constantemente, o papel do gestor não é mais o de saber todas as respostas, mas o de ter a humildade de admitir que precisa aprender novas perguntas. Um profissional que para de aprender ou acredita que já saiba o suficiente não apenas perde mercado, perde também o poder de acerto e de resultado; a gestão virou um ciclo infinito onde o ‘saber’ é apenas uma estação de passagem para o ‘aprender de novo’.
Do outro lado da mesa, o colaborador também não pode sentar em cima do currículo e esperar que a empresa o carregue no colo. A responsabilidade pela empregabilidade é individual e intransferível (e se você é empregado de uma organização que facilita a realização de – ou até mesmo oferta – cursos, treinamentos e capacitações, aproveite ao máximo essa oportunidade!). Aquele funcionário que diz ‘sempre fizemos assim e deu certo’ ou que torce o nariz toda vez que algo novo surge é o candidato número um à lista de cortes na próxima reestruturação. A busca pelo aprendizado contínuo não é um favor que se faz ao patrão, mas um compromisso que deve ser feito consigo mesmo. É seguro de vida profissional. Em uma era de inteligência artificial e automação, a única coisa que uma máquina ainda não consegue copiar é a capacidade humana de se reinventar propositadamente.
Essa corrida pelo saber, porém, vai muito além de dominar novos softwares ou técnicas de marketing digital. O impacto mais profundo se dá nas relações profissionais dentro do escritório. Quando o gestor e a equipe estão sintonizados na frequência do aprendizado, o ambiente de trabalho deixa de ser um tribunal de cobranças para se tornar um laboratório de soluções. A arrogância do ‘eu já sei’ é o que destrói o clima organizacional; por outro lado, a curiosidade compartilhada é o que une gerações, permitindo que o veterano de cabelos brancos e o estagiário falem a mesma língua e sigam na mesma direção. É preciso entender que a obsolescência do conhecimento não é uma ameaça, mas uma condição de sobrevivência. O administrador que incentiva o estudo e o colaborador que se mantém curioso criam um ecossistema onde o erro é visto como etapa de processo, e não como falha de caráter. Se o conhecimento de ontem já não resolve os problemas de hoje, é a disposição para aprender no agora que garantirá os resultados de amanhã. Manter-se relevante exige suor, sacrifício e um ato constante de sair da zona de conforto, mas garanto que abrir um livro, assistir uma aula ou fazer um curso dói demasiadamente menos do que o choque de descobrir que o mercado seguiu em frente e deixou de te avisar.
Seja você patrão ou empregado, o mundo dos negócios há muito tempo deixou de ser uma maratona com linha de chegada para se tornar uma corrida que nunca tem fim. O diploma é o ingresso que te dá o direito de entrar no jogo, mas é a sua capacidade de se manter um eterno aprendiz que determinará por quanto tempo você permanecerá em campo. No final das contas, o sucesso não pertence aos que mais sabem, mas encontra-se mais próximo daqueles que têm humildade de reconhecer que nem tudo sabem e agilidade para desaprender o que é inútil e abraçar as novidades. No mundo corporativo de hoje, quem se julga ‘pronto’ está, na verdade, pronto para ser substituído.













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