Quando os Impérios se Movem e Deus Não Sai do Trono
- Christina Faggion Vinholo

- há 7 dias
- 2 min de leitura
Christina Faggion Vinholo, teóloga
Especialista em AT e NT.
As notícias que chegam da Venezuela são intensas, duras e carregadas de significados. A prisão de líderes que por anos concentraram poder, a intervenção estrangeira, o colapso de um regime — nada disso acontece em um vácuo moral ou espiritual. Não sejamos ingênuos: toda ação humana é atravessada por interesses, disputas e projetos de poder. A política, em suas múltiplas formas, é inevitável em um mundo caído.

A Escritura nunca romantiza os reinos deste mundo. Pelo contrário, ela os expõe. Desde Babel, aprendemos que quando o ser humano busca autonomia absoluta, o resultado é confusão, opressão e violência. Os profetas denunciaram reis injustos; Jesus confrontou estruturas religiosas e políticas; os apóstolos proclamaram um Reino que não se sustenta pela força, mas pela verdade.
A teologia reformada nos ensina a olhar a história com realismo e esperança. Realismo, porque reconhecemos a profundidade do pecado — inclusive nos sistemas, nas ideologias e nas nações. Esperança, porque cremos na soberania de Deus sobre governantes, exércitos e impérios. “Ele remove reis e estabelece reis” (Dn 2.21). Nada foge ao seu governo, ainda que muitas coisas escapem à nossa compreensão.
Isso não significa que toda mudança política seja pura, nem que toda intervenção seja isenta de interesses. A Bíblia não nos autoriza a batizar projetos humanos como se fossem automaticamente a vontade de Deus. Mas também não nos permite ignorar o clamor dos pobres, dos famintos, dos que perderam tudo. O povo venezuelano já vivia uma realidade de extrema precariedade: escassez, medo, exílio forçado, famílias dilaceradas. Qualquer transformação que reduza a opressão, devolva dignidade e abra caminhos de reconstrução deve ser recebida com sobriedade, vigilância e oração.
Deus se importa com os povos, não apenas com os palácios. Ele ouve o gemido dos que sofrem (Êx 3.7). A queda de tiranos não é o fim da história, mas pode ser um sinal — frágil e provisório — de que a injustiça não tem a última palavra. Ainda assim, sabemos: não é uma nação estrangeira que salva outra nação. A salvação não vem do Norte nem do Sul, vem do Senhor.
Por isso, como igreja, nossa resposta não é o aplauso cego nem o cinismo amargo. É a intercessão responsável. Oramos para que o caos não gere ainda mais sofrimento. Para que a transição não seja marcada por vingança, mas por justiça. Para que novas lideranças não repitam velhos pecados. Para que o povo tenha pão, trabalho, paz e futuro.
Oramos, sobretudo, para que em meio às ruínas políticas, o Reino de Deus se manifeste — não com tanques, mas com graça; não com dominação, mas com restauração. Porque os reinos deste mundo passam, mas o Reino de Cristo permanece.
Oremos pelos venezuelanos.
Senhor Deus, justo e misericordioso, colocamos diante de Ti a Venezuela e seu povo tão ferido. Tu conheces cada lágrima, cada noite de medo, cada mesa vazia. Dá sabedoria aos que agora governam, freia a violência, protege os inocentes e sustenta os cansados. Que a justiça floresça onde houve opressão e que a esperança renasça onde houve desespero. Ensina-nos a não confiar em poderes humanos, mas a descansar em Ti, o único Rei eterno.
Em nome de Jesus, amém.
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E-mail: chrisvinholo@gmail.com













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