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Diplomacia, Direito Internacional e a Escalada no Oriente Médio

Por Renata Bueno, ex-parlamentar italiana e advogada internacional


A escalada de tensões no Oriente Médio, com o envolvimento direto dos Estados Unidos, Israel e Irã, configura um dos momentos mais delicados da geopolítica contemporânea. O cenário atual levanta preocupações profundas não apenas sobre a estabilidade regional, mas também sobre a preservação das normas que sustentam o sistema internacional.



Como ex-deputada do Parlamento Italiano, advogada especializada em direito internacional e cidadã com raízes profundas tanto no Brasil quanto na Itália, acompanho com grande apreensão o desenrolar desses acontecimentos. O conflito que se desenha ultrapassa disputas regionais: ele coloca em debate os próprios limites do uso da força entre Estados e o respeito às regras que regem a convivência internacional.


Nesse contexto, a posição adotada pela Itália merece atenção. Sob a liderança da primeira-ministra Giorgia Meloni, o governo italiano tem procurado manter uma postura prudente e equilibrada diante da escalada militar. Após os ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, Roma manifestou solidariedade à população civil iraniana, ressaltando a necessidade de proteger vidas inocentes em meio ao agravamento do conflito.


Esse gesto não é apenas simbólico. Ele representa um princípio fundamental do direito humanitário: a distinção entre responsabilidades políticas e a proteção da população civil. Famílias, crianças e idosos não podem ser reduzidos a meros “danos colaterais” de operações militares.


Além disso, autoridades italianas expressaram preocupações jurídicas relevantes. O ministro da Defesa, Guido Crosetto, destacou que determinadas ações militares levantam questionamentos importantes quanto à sua compatibilidade com o direito internacional. A própria primeira-ministra reiterou que a Itália não participa do conflito nem pretende fazê-lo, reforçando que qualquer presença militar italiana no Golfo tem caráter estritamente defensivo, voltado à proteção de cidadãos italianos e de aliados na região.


A posição italiana se diferencia de posturas mais alinhadas automaticamente às estratégias militares de aliados ocidentais. Roma tem buscado preservar uma abordagem baseada em quatro pilares fundamentais:

* recusa em permitir o uso de bases militares italianas para operações ofensivas contra o Irã;

* prioridade à diplomacia e ao diálogo com atores regionais;

* reforço de sistemas de defesa com finalidade exclusivamente protetiva;

* cautela para evitar que a Europa seja arrastada para um conflito mais amplo.


Sob a perspectiva do direito internacional, essa postura dialoga diretamente com os princípios estabelecidos pela Carta das Nações Unidas, em especial a proibição do uso da força, salvo em casos de legítima defesa ou mediante autorização do Conselho de Segurança da ONU.


Infelizmente, o ciclo atual de retaliações, ataques militares seguidos de respostas com mísseis e drones, apenas aprofunda a instabilidade e multiplica o sofrimento humano. A população civil, seja no Irã, em Israel ou nos países vizinhos, continua sendo a principal vítima dessa espiral de violência.


A solidariedade italiana ao povo iraniano também carrega um significado político importante: reconhecer que governos e regimes não podem ser confundidos com seus povos. Em momentos de crise internacional, preservar essa distinção é essencial para evitar a desumanização do outro e para manter aberta a possibilidade de diálogo.


Durante meu mandato, representando a circunscrição exterior e milhões de italianos que vivem fora da Itália, muitos deles no Brasil, sempre defendi que o país deve exercer um papel de ponte entre culturas, interesses e regiões do mundo. A Itália possui tradição diplomática, posição estratégica no Mediterrâneo e credibilidade para atuar como mediadora em cenários de alta tensão.


Hoje, mais do que nunca, a comunidade internacional precisa de lideranças que priorizem a desescalada, a proteção humanitária e o respeito ao direito internacional.


A paz não é uma abstração idealista. É uma escolha política urgente e uma responsabilidade coletiva.

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