Democracia ou, feliz o povo que pode vaiar seu presidente.
- Célio Juvenal Costa

- há 2 horas
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Durante seu governo, de 1956 a 1961, Juscelino Kubitschek foi a uma reunião da UNE (União Nacional dos Estudantes), apesar de que parece não haver registro, a reunião teria acontecido em 1956. O auditório estava cheio e, quando o presidente entrou, os estudantes começaram a vaiá-lo até que ele se sentasse à mesa onde a diretoria da entidade já se encontrava. Ao pegar o microfone, Juscelino teria dito: “Feliz o povo que pode vaiar seu presidente”. Esta cena foi imortalizada na minissérie “JK”, da Globo, de 2006, que teve o inesquecível José Wilker no papel de JK.

Vivemos uma época em que presenciamos regimes ditos republicanos, mas que não sabem, ou não querem, conviver com as críticas. As oposições nesses governos são sistematicamente desacreditadas e, em alguns casos, seus líderes são presos e até mortos. Vimos acontecer isso na Venezuela, com o presidente Maduro, por exemplo; vimos acontecer na Rússia, com Putin; mas estamos vendo acontecer nos Estados Unidos, governado por Trump. Qualquer governo eleito democraticamente, que sabe e preza as regras de democracia, que objetiva manter e consolidar um estado republicano, sabe que terá oposição, pois o partido, ou partidos, derrotado(s) nas eleições lhe fará(ão) oposição, pois sempre haverá uma disputa, mais amena ou mais acirrada a depender do contexto, pelo poder, pelo governo de um país.
Aqueles governos que reprimem as oposições geralmente usam as forças policiais para interesses próprios e não do Estado, como deveria ser. O caso do policial, agente da imigração, que simplesmente matou uma cidadã americana porque ela protestava contra a prisão de pessoas, é um exemplo do uso das forças armadas a serviço de um governo e não do Estado, pois o seu presidente declarou que apoiava o agente e que ele tinha feito aquilo em legítima defesa, apesar de os vídeos comprovarem o contrário. Governos eleitos democraticamente, mas que ambicionam se tornarem ditaduras (e alguns se tornaram) no fundo irão fazer de tudo para que as regras democráticas passem a favorece-los. Quando os chamados “pesos e contrapesos” do regime republicano-democrático seguram as ambições dos governos autocráticos eles são sistematicamente desacreditados ou relativizados. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt escreveram, em 2018, Como as democracias morrem, um livro interessante e profundo que mostra que os pesos e contrapesos (eleições, equidade dos poderes, imprensa livre etc.) são esgarçados no tecido social o que permite que pessoas e grupos eleitos democraticamente atentem contra a própria democracia.
O que ocorreu nos Estados Unidos, na invasão do Capitólio no dia 06 de janeiro de 2021, e no Brasil, na depredação dos prédios do Executivo, do Legislativo e do Judiciário federais, em 08 de janeiro de 2022, são exemplos de governos que não aceitaram as respectivas derrotas, que tentaram desacreditar os processos eleitorais e insuflaram seus seguidores a dar golpe de Estado. A democracia talvez seja o mais frágil dos regimes políticos de governo, exatamente por sua característica fundamental, a liberdade, e a permanente disputa pelo poder com mecanismos claros e populares. No entanto, também por sua característica fundamental, é o mais rico de todos, pois, por meio dela, podemos nos expressar livremente, e até vaiar publicamente nosso presidente.
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