O TEATRO DA INCLUSÃO
- Ana Floripes

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Artigo de: NAYARA DE ALMEIDA FERNANDES
O mercado de trabalho encena diariamente um espetáculo de aparências. Empresas celebram a “diversidade” no discurso, enquanto tratam a inclusão como obrigação burocrática. A lei é clara: organizações com mais de 100 funcionários devem reservar de 2% a 5% das vagas para pessoas com deficiência. Mas, entre o direito e o crachá, existe um abismo sustentado pela falta de humanidade.

A vaga de cota frequentemente vira contratação de fachada. Na maioria dos casos, pessoas com deficiência são alocadas em funções de baixa complexidade, sem perspectiva de crescimento e sem adaptações adequadas, sob uma gestão que confunde incluir com apenas não demitir. Cumpre-se o número, negligencia-se o ambiente. Espera-se que o trabalhador “se vire” para caber em um padrão que nunca foi feito para ser justo.
No caso do autismo, a situação é ainda mais contraditória. Quando a pessoa consegue se camuflar socialmente, perde acesso a adaptações; quando não consegue, vira alvo de estigma. Para muitos autistas, inclusive aqueles com altas habilidades, o ambiente corporativo se transforma em armadilha. A deficiência invisível é tratada como inexistente. Surge a invalidação clássica: “você é capaz, então não precisa de apoio”. O resultado costuma ser exaustão, sobrecarga e conflito. Exigir que pessoas autistas “se adaptem melhor” geralmente significa mascarar até adoecer. Inclusão real envolve adaptação do trabalho, respeito às diferenças e responsabilização de condutas abusivas. Sem isso, a cota é apenas vitrine.
Esse cenário também aumenta a vulnerabilidade a violências. Evidências mostram que há prevalência de bullying em 47% e vitimização sexual em 40% entre indivíduos autistas, além de 84% de polivitimização (múltiplas formas de violência). Meta-análises indicam que pessoas com deficiência têm risco significativamente maior de sofrer violência sexual em comparação à população sem deficiência. Isso não significa que “ser PcD é ser vítima”, significa que há um ambiente social que deixa essa população mais exposta e menos protegida. Esses números deixam claro que o risco de abuso é maior quando o ambiente é permissivo e a rede de proteção é fraca. O rótulo funciona como uma arma de defesa dos exploradores, pois desloca o foco da conduta do ambiente para o suposto “defeito” do indivíduo.
É perceptível que a vulnerabilidade das pessoas com TEA é um imã de predadores. E aí chegamos à parte mais incômoda. A pergunta não é “por que pessoas com TEA são mais vulneráveis?”, a pergunta certa é “por que os ambientes institucionais permitem que essa vulnerabilidade seja explorada?”.
O abuso e a manipulação raramente chega gritando. Ele chega sorrindo. O abusador não precisa de força, precisa de cenário, usando o poder para ferir e controlar a narrativa. Primeiro, ele mede o terreno com microdoses: faz uma “brincadeira” ambígua, joga uma indireta, testa um limite pequeno, como quem regula a temperatura da água para não assustar a vítima. Se a vítima aceita calada, se a reação é ridicularizada ou ninguém reage, ele entende como permissão e intensifica.
Depois, ele constrói uma narrativa negativa sobre a pessoa. Essa narrativa é uma arma porque prepara o grupo para desacreditá-la antes mesmo de ela falar. Em seguida, quando a vítima entra em sobrecarga ou trava, o abusador apresenta o colapso como prova de incapacidade dela. Por fim, quando confrontado, ele inverte os papéis: nega o que fez, ataca a credibilidade da vítima e posa como prejudicado.
Esse ciclo prospera especialmente com pessoas autistas porque muitas tendem a operar por boa-fé, literalidade, coerência e por fugirem do “roteiro social”. E o abusador opera pelo oposto: ambiguidade, subtexto e controle. É aqui que a invalidação das altas habilidades se mistura ao abuso e expõe fragilidades que chefias inseguras escondem. Então, o talento vira “problema de comportamento”. No fim, muitas organizações preferem perder a vítima a ter de responsabilizar o agressor. O mercado adora chamar isso de gestão. Pessoas honestas chamam pelo nome certo.

Pessoas com deficiência tendem a ficar mais expostas a abuso porque o abuso ama três coisas: isolamento, dependência e descrédito social. Quando a sociedade já trata PcD como “menos capaz” ou “um problema a ser administrado”, fica mais fácil explorar, controlar e depois dizer que foi “mal-entendido”, “drama” ou “exagero”. O talento é tolerado enquanto for útil e obediente; quando ele expõe as falhas da gestão, começa a guerra fria.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem chamado atenção justamente para isso: mulheres com deficiência enfrentam risco maior de abuso e, pior, esse risco muitas vezes fica invisível nos dados e nas políticas. No caso de pessoas autistas, a coisa fica ainda mais perversa. A tendência a demorar mais para identificar intenção maliciosa cria brechas para que manipuladores explorem sem remorso. Então entra o gaslighting: é apenas uma “falha de comunicação”, nunca conduta do abusador. É por isso que a Organização Mundial da Saúde (ONU) coloca como obrigação dos Estados proteger pessoas com deficiência de exploração, violência e abuso.
O que atravessa todas essas situações é o capacitismo, essa visão social que decide previamente quem é “capaz” e quem é “defeituoso”, como se pessoas com deficiência fossem um bloco homogêneo, sem singularidade, sem talentos, sem complexidade. Nessa visão, o autismo é tratado ora como desculpa para rebaixar, ora como algo a ser negado quando convém. Se a pessoa apresenta altas habilidades, o diagnóstico é questionado, o suporte é retirado e o discurso se limita a: “você dá conta sozinho”.
Se surgem necessidades reais, o mesmo gestor que explorava o desempenho passa a usar o rótulo para desqualificar. Eleva quando quer produtividade, rebaixa quando precisa justificar a exclusão. A deficiência é usada como ferramenta de controle. Quando deixa de servir, a pessoa vira problema. Portanto, não é a condição que limita a trajetória da pessoa com TEA, é o preconceito de quem enxerga deficiência como sinônimo de incapacidade permanente.
Esse mecanismo se conecta diretamente ao que a psicologia chama de profecia autorrealizável. Quando a pessoa autista é vista, desde o início, como menos capaz, menos estável ou “difícil de lidar”, ela passa a receber menos oportunidades, menos desafios qualificados e menos investimento. Não é treinada, não é promovida, não participa de decisões. Fica restrita a funções simplificadas, sem crescimento. Depois de um tempo, a gestão olha para essa trajetória artificialmente limitada e conclui: “está vendo? Não evoluiu”. O fracasso que apontam como prova de incapacidade foi, na verdade, produzido pelo próprio ambiente que negou suporte. O rótulo antecede a experiência e molda o resultado.
No caso de pessoas autistas com altas habilidades, quando o desempenho cai, usam isso como confirmação do estigma inicial. Não é falta de competência, é sabotagem disfarçada. Assim, a exclusão se retroalimenta: primeiro negam a chance, depois culpam a pessoa por não ter ido aonde nunca a deixaram chegar.
O golpe final costuma ser uma armadilha: sobrecarga contínua até a exaustão sensorial, a falha inevitável aparece, e pronto, usam isso como “prova” de que tudo é culpa do autismo. Sempre há o truque de invalidar a percepção da vítima.
Quando o mundo decide não acreditar na vítima, o agressor ganha duas vezes: primeiro no ato, depois no silêncio.
Para saber mais:

NAYARA DE ALMEIDA FERNANDES
Escritora com Transtorno do Espectro Autista e Altas Habilidades (dupla excepcionalidade)
REFERÊNCIAS
Trundle, G., Jones, K. A., Ropar, D., & Egan, V. (2023). Prevalence of Victimisation in Autistic Individuals: A Systematic Review and Meta-Analysis. Trauma, violence & abuse, 24(4), 2282–2296. https://doi.org/10.1177/15248380221093689
Mailhot Amborski, A., Bussières, E. L., Vaillancourt-Morel, M. P., & Joyal, C. C. (2022). Sexual Violence Against Persons With Disabilities: A Meta-Analysis. Trauma, violence & abuse, 23(4), 1330–1343. https://doi.org/10.1177/1524838021995975
World Health Organization. (2024, March 27). WHO calls for greater attention to violence against women with disabilities and older women. https://www.who.int/news/item/27-03-2024-who-calls-for-greater-attention-to-violence-against-women-with-disabilities-and-older-women
United Nations. (2006). Convention on the Rights of Persons with Disabilities: Article 16 – Freedom from exploitation, violence and abuse. https://www.un.org/development/desa/disabilities/convention-on-the-rights-of-persons-with-disabilities/article-16-freedom-from-exploitation-violence-and-abuse.html












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