O preço político de uma tornozeleira rompida.
- Walber Guimarães Junior

- há 3 dias
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Por Walber Guimarães Junior, engenheiro e comunicador.
Também não acredito que a vigília convocada por Flávio Bolsonaro fizesse parte de um plano de fuga, embora desconfie da estratégia assumida, mas estou certo de que a tentativa de romper a tornozeleira terá um preço elevado para Jair Bolsonaro, não importa qual justificativa seja a correta. Curiosidade, vergonha ou alucinação não são explicações que sejam facilmente aceitas pelo cidadão comum, embora sejam um prato repleto de oportunidades para memes e piadas, complicando ainda mais o prestígio do ex-presidente.

Ajustando a sensibilidade do meu achômetro, ainda que remotamente sustentado pela leitura das últimas pesquisas, acredito que o desgaste da família Bolsonaro siga evoluindo, muito por conta das presepadas que seus filhos, e dele próprio, que se especializaram em cometê-las neste ano. Eduardo Bolsonaro, com todo o direito que um filho tem de lutar pelo pai, cometeu excessos que, para além de prejudicar Jair, alavancou Lula que agora o escala como camisa dez de seu time. Em seguida, entra em cena o filho Flavio também errando também no tom de suas declarações e, se não bastasse, Jair Bolsonaro resolve usar um ferro solda para romper a tornozeleira eletrônica, ainda que tenha afirmado que tem curso técnico de uso deste equipamento.
Todavia, continuo afirmando que a direita segue majoritária, basta que você aguce os ouvidos e ouça a pérola mais comum dos seus fiéis eleitores; “não tenho político de estimação, não sou apaixonado pelo Bolsonaro”, como Pedro também renegam seu líder e provavelmente por mais de três vezes, mas seguem firmes sem sua opção ideológica pela direita. Ainda que os números atuais sustentem a liderança de Lula, isto tem muito a ver com a indefinição de seus adversários. Em algum momento, até abril próximo, a direita terá definida seu nome para a sucessão e, se fruto da construção de unidade, os números reestabeleceram o equilíbrio histórico.
A grande incógnita é a postura da família Bolsonaro, cuja leitura política aponta para a necessidade de alguém do clã estar na disputa para sustentar o espólio eleitoral da família, neste momento o nome seria o de Flávio, limitando as possibilidades de candidatura única no campo da direita porque os sinais de rejeição emanam, cada vez com mais força, da direita e, principalmente, do centrão. Sem unidade, o nome mais forte, do governador paulista, Tarcísio de Freitas, não entra em campo na sucessão nacional, preferindo a disputa doméstica.
Ronaldo Caiado nem disfarça, inclusive porque a idade não lhe concede alternativas, e parece disposto a disputar ainda que, sem respaldo do União, opte por uma sigla menor. Romeu Zema, a bordo do Novo, segue apostando que o esvaziamento do quadro aumenta suas chances, porém os demais candidatos, principalmente o paranaense Ratinho Junior assume uma estratégia inteligente; reconhece a supremacia de Tarcísio e, observando as dificuldades na caminhada do paulista, promove um recuo tático que, talvez, no caso de desistência de Tarcísio, o credencie para ser o principal nome da direita. Além de muitos nomes, são também muitas siglas e isto compromete a construção da unidade, considerando que estes profissionais da política sabem que, a qualquer momento, podem pegar carona do trem do poder mesmo que precisem visitar a estação 13.
Talvez seja uma leitura quase consensual; unida a direita é favorita, embora Lula tenha inteligência política e instrumentos de poder para reagir e buscar alternativas. Contra três ou quatro nomes, o petista pode consolidar um favoritismo, sujeito a chuvas e trovoadas porque ninguém sabe de onde vem o próximo escândalo ou mesmo até onde o INSS e o Master podem promover estragos.
Outra análise consistente, nos informa que com Bolsonaro sem participação efetiva na campanha, com seus filhos e esposa focados em suas próprias disputas, o espólio de Jair não deve convergir para um único nome, exigindo que a estratégia da campanha se volte, muito provavelmente, ao combate das limitações da gestão petista, com muito mais apelo eleitoral que a insistência absurda na anistia ou na beatificação política de Jair que, após tantos desgastes recentes, não produz a mesma comoção.
Lula tem ainda algumas balas na agulha, sendo a mais potente a vaga de vice, tradicionalmente utilizada para a aproximação com o centro e a direita, movimento efetuado com José de Alencar e com Geraldo Alckmin, e que pode ser repetido agora com Gilberto Kassab, a opção mais agregadora porque além de deixar Ratinho em casa, inibe Tarcísio e tira uma das mais importantes siglas do condomínio da direita.
Lula mostra uma vitalidade inimaginável no primeiro semestre, estimulado pelo bom desempenho, até agora, na batalha das tarifas, onde levou nítida e surpreendente vantagem contra o presidente americano Donald Trump e ganhou de goleada do trapalhão Eduardo Bolsonaro.
Ainda tem muitos capítulos para a sucessão, mas o final feliz da direita parece condicionado à construção da unidade e Lula depende de administrar seus conflitos administrativos e limitar a dimensão dos atuais escândalos, impedindo novos episódios, algo sempre difícil no Brasil contemporâneo.
Quase duas laudas de sucessão! Só nomes, nenhum plano, projeto, ideia, rumo ou algo que nos conceda esperança, além da eterna e infrutífera espera por um salvador da pátria.
E vamos continuar brigando pelo nosso malvado preferido!














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