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Ilusões

Somos seres iludidos, ou, pelo menos, somos seres propensos a criar e acreditar em ilusões. No dicionário vemos que ilusão é “erro de percepção ou de entendimento; engano dos sentidos ou da mente; interpretação errônea”. Portanto, vivemos errando, nos enganando e interpretando de forma equivocada. Nos iludimos em relacionamentos, no nosso trabalho, na escolha de nossas profissões, na nossa capacidade de fazer coisas, no controle que julgamos ter sobre nossa vida. Algumas das ilusões que temos são produto de uma ideologia que naturaliza as relações sociais e econômicas, mas outras partem de nós mesmos.

 


 Talvez motivados por alguma crença religiosa, ou quem sabe por uma arrogância típica do ser humano, ou ainda por se acreditar numa bondade inerente à natureza humana, o fato é que costumamos apostar nossas fichas em coisas, pessoas e situações que, muitas vezes, acabam por nos decepcionar, ou melhor dizendo, acabam por não corresponder às nossas ilusões. E aí que está, na minha opinião, o que seria importante refletir: o problema talvez não seja alimentarmos ilusões, mas nos frustrarmos porque elas não foram correspondidas. As ilusões me parecem como os sonhos, que sempre dizem respeito à pessoa que sonhou; assim as ilusões, que partem da pessoa que as produziu e não da pessoa ou situação a que elas se relacionam.

 

Muitas vezes as ilusões cumprem uma espécie de papel apaziguador em nossa existência. Elas são criadas para servir como um preenchimento de vazios que temos em nossa vida, vazios muitas vezes travestidos por necessidades, carências, apegos, idealizações, expectativas. São esses vazios que gostaríamos que deixassem de existir por meio de situações e pessoas, as quais assumem uma dimensão idealizada pela importância crucial que nelas depositamos. Sentimos como se com essas situações ou pessoas pudéssemos ser diferentes do que somos, pudéssemos ser melhores do achamos que somos e, portanto, também idealizamos nossa própria capacidade de resolver nossos problemas. As ilusões que criamos com tal propósito raramente atendem ao que gostaríamos e as decepções são quase inevitáveis; no entanto, como de certa forma atribuímos uma responsabilidade de reciprocidade nas situações ou pessoas em nossas ilusões, acabamos geralmente por culpa-las pelas decepções e nos isentamos das responsabilidades, e assim, continuamos nos iludindo.

 

Mas, temos outras formas de ilusão. Uma delas é que as pessoas com as quais nos relacionamos vão mudar, irão deixar de ser ranzinzas, chatas, egoístas, violentas, e, com ajuda da religião, de algum livro de autoajuda, ou mesmo de aconselhamentos externos, criamos a ilusão da mudança. A pessoa pode até mudar, mas a ilusão, neste caso, pode ter um efeito paralisante sobre o iludido, o qual pode permanecer numa situação indesejável. O personagem icônico House, um médico que dava seu nome à série de muito sucesso entre 2004 e 2012, sempre dizia que “pessoas não mudam”, elas são o que são, por mais que possam aparentar algum tipo de mudança. Muitas mulheres, que vivem em relacionamentos abusivos e violentos, talvez sofram de uma ilusão que seus parceiros deixarão de ser violentos, pois eles, em algum momento aparentam a mudança, mas, no final, uma das consequências é o que, infelizmente, vemos no noticiário quase que cotidianamente.

 

Temos também ilusões coletivas. Trago dois exemplos. O primeiro diz respeito à época em que estamos vivendo, pois é muito comum esperarmos (nos iludirmos) que no Natal as pessoas se tornem melhores, mais bondosas, mais solidárias, mais compreensíveis e que esse espírito natalino se estenda para todo ano. Outro exemplo é de algo que passamos, coletivamente, há pouco tempo: na época mais grave da pandemia da Covid19 era muito comum ouvirmos as pessoas dizerem que, apesar de tudo, aquela situação poderia fazer com que as pessoas se tornassem mais solidárias, mais preocupadas com o meio ambiente, mais preocupadas com os necessitados, enfim, se tornassem pessoas melhores para reconstruirmos juntos a nossa sociedade machucada. Quando eu ouvia isso sempre me lembrava que no começo do século XX, entre 1918 e 1920 tivemos a pandemia da Gripe Espanhola, que atingiu cerca de 500 milhões de pessoas no mundo todo e com estimativa de que entre 50 a 100 milhões tenham morrido. E, apesar disso, quase vinte anos depois o mundo assistiu o início da Segunda Guerra Mundial.

 

Somos seres que vivemos de ilusões, a maioria individuais, mas algumas coletivas. Acho mesmo que necessitamos delas para nossa existência. No entanto, creio que seria saudável se conseguíssemos distinguir as ilusões que nos paralisam, as ilusões que são nossas, mas atribuímos a responsabilidade por sua concretização a outras pessoas, daquelas que temos de forma um tanto inofensiva, ou seja, as ilusões de que temos consciência delas e sabemos que dificilmente se realizarão, como ficar milionário ganhando na mega sena da virada, por exemplo. Aliás, estamos chegando bem perto de um momento rico de ilusões, que é a passagem de ano, em que prometemos ser e fazer coisas que no decorrer de um ano inteiro não fomos e não fizemos. Talvez este seja um momento propício para criarmos nossas ilusões, pois sabemos que a maioria delas não passa do dia 02 de janeiro...

 

Por fim, deixo aqui a indicação de um livro, Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac, publicado pela primeira vez em 1837. Considerado um dos melhores livros do escritor francês, este romance mostra a distância entre as ilusões e a realidade. Particularmente, eu o considero entre os cinco melhores livros de literatura de todos os que eu li até hoje.

 

 

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

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