Energia que falha, conta que sobe: Senado pressiona Copel e Aneel por explicações sobre apagões no Paraná
- Marcio Nolasco

- há 2 dias
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Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
Fotos: Cláudio Gerber/ Divulgação
Por trás de cada oscilação de energia que apaga uma granja, paralisa uma linha de produção ou deixa bairros inteiros às escuras, existe uma disputa silenciosa entre números oficiais e a realidade vivida pelos consumidores. Nesta terça-feira (5), essa tensão chegou ao centro do poder em Brasília, durante uma audiência pública no Senado Federal.
Convocada pelo senador Sergio Moro, a sessão da Comissão de Infraestrutura transformou reclamações acumuladas em um ultimato institucional: a Copel e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) têm 30 dias para apresentar um diagnóstico detalhado e um plano de ação sobre as falhas no fornecimento de energia no Paraná.
A decisão, tomada diante de representantes da indústria, do agronegócio e do governo federal, expôs um paradoxo que tem irritado consumidores: mesmo com investimentos crescentes na rede elétrica, a percepção generalizada é de que o serviço piorou.
E, no meio desse cenário, um reajuste tarifário de até 26% na conta de luz ameaça ampliar ainda mais a pressão política sobre a concessionária e o regulador.
A conta que sobe enquanto a luz falha
Logo na abertura da audiência, Moro colocou o foco na experiência cotidiana dos usuários — uma estratégia que desloca o debate da tecnocracia regulatória para o impacto direto na vida das pessoas.
Segundo ele, existe um descompasso evidente entre os investimentos anunciados pela concessionária e a qualidade percebida do serviço.

“Pela percepção do consumidor paranaense, esses investimentos não têm revertido em uma qualidade suficiente do serviço”, afirmou o senador.
Embora tenha reconhecido que a companhia ampliou gastos com infraestrutura elétrica, Moro questionou se esses recursos estão sendo aplicados de forma eficaz.
“Não podemos atribuir tudo ao clima. Alguma coisa não está funcionando.”
A declaração ocorreu após o diretor da Copel Distribuição, Marco Antonio Villela de Abreu, atribuir parte significativa das falhas ao aumento de eventos climáticos extremos, como ventos fortes e tempestades que danificam a rede elétrica.
Nos últimos anos, de fato, eventos meteorológicos severos têm sido citados por concessionárias em todo o país como um dos principais fatores para interrupções no fornecimento.
Mas o argumento não convenceu todos os presentes.
O campo às escuras
No Paraná — um dos maiores polos agroindustriais do Brasil — energia elétrica não é apenas conforto doméstico. É infraestrutura de produção.
Sem eletricidade estável, cadeias produtivas inteiras entram em colapso.
Durante a audiência, o presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), Ágide Meneghette, trouxe relatos que contrastam com os indicadores oficiais da concessionária.
“Sem energia, não há produção agropecuária.”
Segundo ele, interrupções prolongadas já causaram perdas significativas em atividades altamente dependentes de energia contínua — como avicultura, piscicultura e produção de leite.

Em sistemas intensivos de produção animal, poucos minutos sem eletricidade podem significar prejuízos irreversíveis.
Ventilação artificial para frangos, oxigenação de tanques de peixes e ordenha automatizada dependem de fornecimento constante.
Quando a energia falha, o prejuízo pode ser imediato.
Meneghette classificou a situação como “caótica” e afirmou que os números usados para medir a qualidade do serviço não refletem a realidade enfrentada pelos produtores rurais.
A matemática que mascara o problema
Uma das críticas mais recorrentes durante a audiência diz respeito ao modelo regulatório que mede a qualidade do fornecimento de energia no Brasil.
Os indicadores oficiais — como DEC (Duração Equivalente de Interrupção por Unidade Consumidora) e FEC (Frequência Equivalente de Interrupção) — trabalham com médias estatísticas.
E é justamente aí que surge a distorção apontada pelos representantes do setor produtivo.
O superintendente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), João Arthur Mohr, explicou que as médias podem esconder realidades completamente diferentes dentro do mesmo sistema elétrico.
“A média mascara muito. Um consumidor rural pode ter 100 horas de queda, enquanto centenas de consumidores urbanos têm poucas horas.”
No papel, a concessionária permanece dentro dos limites regulatórios.
Na prática, algumas regiões enfrentam interrupções recorrentes e prolongadas.
Mohr comparou o contraste entre a capital e o interior do estado.
Segundo ele, certas regiões de Curitiba registram cerca de uma hora de interrupção por ano, enquanto áreas rurais enfrentam tempos muito maiores.
Essa desigualdade afeta diretamente cadeias produtivas que dependem das mesmas redes elétricas.
“No papel parece que está tudo dentro do limite. Mas, na prática, não está.”

Prejuízos invisíveis nos indicadores
Os relatos da indústria indicam que os danos vão muito além do tempo sem energia.
Oscilações de tensão — que muitas vezes não entram plenamente nos indicadores oficiais — podem causar prejuízos significativos.
Equipamentos industriais podem ser danificados, linhas de produção podem parar e matérias-primas podem ser perdidas.
Mohr afirmou que esses eventos têm impacto direto na competitividade do setor produtivo.
“Isso compromete a competitividade da indústria e pode frear o crescimento do Paraná.”
O diagnóstico foi reforçado pelo coordenador técnico e econômico do sistema cooperativista da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), Silvio Krinski.
Segundo ele, cooperativas agroindustriais são altamente eletrointensivas.
“Precisamos de energia em quantidade e qualidade.”
Krinski relatou situações em que poucos minutos de falha no fornecimento colocam em risco produções inteiras — especialmente em cadeias sensíveis como frango e piscicultura.
O aumento que incendiou o debate
Se as falhas no fornecimento já pressionavam consumidores e empresas, o anúncio de um possível reajuste tarifário elevou a tensão no debate.
A conta de luz no Paraná pode subir até 26%, sendo 19% já neste ano e 7% no próximo.
Durante a audiência, Moro criticou duramente a proposta.
“Demonstramos aqui nossa insatisfação com esse percentual de reajuste num contexto no qual a qualidade do serviço não tem se mostrado adequada.”

Para o senador, cobrar mais do consumidor sem resolver os problemas estruturais do sistema cria um desequilíbrio evidente.
“Não é justo com a população paranaense.”
Mohr, da Fiep, alertou que o impacto pode ser ainda maior em alguns setores industriais.
Segundo ele, determinadas empresas podem enfrentar reajustes de até 51%.
O efeito, segundo o representante da indústria, tende a se espalhar por toda a economia.
“Isso vai impactar diretamente o preço dos alimentos e gerar inflação.”
“Premiar o mau serviço”
Para representantes do agronegócio, aumentar a tarifa diante de um serviço considerado insatisfatório cria um problema de incentivo.
Meneghette foi direto:
“Aumentar a tarifa é premiar um serviço que não atende à população.”
Ele defendeu a realização de auditorias independentes e maior transparência nos dados da concessionária.
Essa demanda ecoa uma crítica recorrente no setor elétrico brasileiro: a dificuldade de traduzir indicadores técnicos em experiências reais do consumidor.
Regulador admite alerta
Diante das críticas, a própria agência reguladora reconheceu sinais preocupantes.
A superintendente da Aneel, Ana Cláudia Cirino dos Santos, confirmou que houve aumento expressivo nas reclamações registradas pelos consumidores.
Segundo ela, os indicadores formais ainda estão dentro dos limites regulatórios.
Mas os dados de percepção do consumidor mostram outra tendência.
“A tendência de aumento das reclamações indica deterioração do serviço.”
A agência informou que a Copel já está sob fiscalização técnica e que mudanças nas regras regulatórias estão sendo avaliadas.
Entre as possibilidades em estudo estão:
revisão dos indicadores de qualidade
ampliação de compensações financeiras ao consumidor
mecanismos que aproximem os dados oficiais da experiência real do usuário
A insatisfação do consumidor
A deterioração da percepção do serviço também foi destacada pelo secretário nacional do consumidor, Ricardo Morishita Wada.
Segundo ele, pesquisas mostram queda na satisfação dos usuários da Copel.
Mais da metade dos consumidores avaliou o serviço com nota mínima.
Morishita ressaltou o papel da plataforma Consumidor.gov.br como ferramenta para registrar reclamações e pressionar empresas a responderem.
“O consumidor pode registrar sua demanda, acompanhar a resposta e avaliar o atendimento.”
Esses dados, segundo ele, também influenciam decisões regulatórias — inclusive sobre reajustes tarifários.
Mas sua fala foi além do monitoramento.
Ele abordou um ponto sensível: indenização por danos causados por falhas no serviço.
“É crucial que o consumidor lesado seja indenizado. Lesar não pode se transformar em lucro para a empresa.”
O prazo de 30 dias
Ao final da audiência, Moro formalizou o que pode se tornar um novo capítulo na disputa entre consumidores, regulador e concessionária.
Copel e Aneel terão 30 dias para apresentar um plano de ação detalhado.
O documento deverá incluir:
diagnóstico técnico das falhas
propostas para melhorar a qualidade do serviço
medidas para ampliar transparência
mecanismos de proteção ao consumidor
Dependendo do conteúdo apresentado — ou da ausência de respostas satisfatórias — novas audiências e investigações podem ocorrer no Senado.
A disputa pelos números
O debate expôs um conflito clássico do setor elétrico brasileiro.
De um lado, indicadores regulatórios que sugerem normalidade.
De outro, relatos crescentes de consumidores, produtores e indústrias que afirmam enfrentar apagões e oscilações frequentes.
A pergunta central que emergiu da audiência permanece sem resposta clara:
os indicadores medem de fato a qualidade do serviço — ou apenas o que é mais fácil de medir?
Nos próximos 30 dias, Copel e Aneel terão a chance de responder.
Mas, para milhares de consumidores que continuam convivendo com interrupções de energia, o problema não é estatístico.
É cotidiano.
















