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Dias perfeitos


Célio Juvenal Costa, professor da UEM


(Advirto que o texto a seguir tem spoilers)

Recentemente assisti ao filme Dias Perfeitos (Perfect Days, no original), por recomendação de uma amiga. O filme, de 2023, é uma coprodução japonesa-alemã, que apresenta a vida pacata de um limpador de banheiros no Japão. Wim Wenders, que viria a ser o diretor do filme, foi convidado para ir a Tokio logo após a pandemia de Covid19, para conhecer um projeto da prefeitura que revitalizara e redesenhara dezesseis banheiros públicos, na região de Shibuya, com a ajuda de dezesseis criadores convidados de todo o mundo. O filme concorreu com Ainda Estou Aqui na disputa do Oscar de Melhor Filme Internacional, e o ator principal do filme, Koji Yakusho, que interpreta o limpador Hirayama, obteve o Palma de Ouro em Cannes. O título do filme remete à simplicidade da vida de alguém que, talvez para a maioria das pessoas, não gostasse do que fazia. É um pouco sobre isso que eu gostaria de refletir hoje.

  


Para quem gosta de ação ou mesmo de muitos diálogos, o filme não é recomendado, pois ele se passa de forma lenta, num formato que, propositalmente, diz respeito ao seu conteúdo. A película nos convida a acompanhar a rotina de Hirayama, um homem já maduro, com alguns cabelos brancos, pouco falante, que acorda cedo, sem despertador, arruma seu quarto, se lava, escova os dentes, rega suas plantinhas, coloca seu uniforme, sai de sua casa simples olhando para o céu com um sorriso, vai até uma máquina de bebidas e pega uma lata, entra na sua mini van, coloca uma fita cassete geralmente de rock, pop, jazz ou algo do gênero, e se dirige para seu trabalho. Acompanhamos Hirayama limpando, sempre com esmero e muita educação, alguns dos banheiros públicos de Tokio, na hora do almoço faz o seu lanche em uma praça onde tira fotos de uma árvore com uma desusada máquina de filme que tem que revelar depois. Depois do trabalho ele vai, de bicicleta, tomar seu banho em uma casa de banhos, depois vai a um bar onde come alguma coisa acompanhado de um copo de água com gelo. À noite ele lê até pegar no sono. Nos finais de semana ele vai à lavanderia e, enquanto espera lavar e secar suas roupas, vai a um pequeno restaurante, onde conhece a dona e, também, vai a um sebo olhar e comprar seus livros. Sua vida é simples, regrada e, talvez para muitos hoje, ela seja mesmo sem muito sentido.

 

Para o nosso limpador de banheiros sua vida simples é o que lhe basta. O sentido de seus dias parece estar em fazer o que ele deve fazer. Os seus dias parecem dias perfeitos, apesar de ele praticamente não demonstrar emoções. Apenas em poucos momentos é possível perceber nele o fruir de uma alegria, mesmo que contida, com destaque, ao meu ver, para as manhãs no momento em que ele abre a porta de sua casa e olha para o céu. A rotina de seus dias, quebrada poucas vezes pela presença, um tanto ansiosa de seu parceiro de trabalho, pela visita inesperada de sua sobrinha ou pela conversa com o ex-marido da dona do pequeno restaurante que ele frequenta. Sabemos muito pouco da história de vida de Hirayama, especialmente as razões que o levaram a exercer uma profissão que não parece socialmente muito digna para alguém que é um ávido leitor e tem um ótimo gosto musical. Somos sempre levados a pensar que as profissões tidas como mais humildes são reservadas para as pessoas que não tiveram chance de estudar e de ter acesso a uma cultura mais erudita. Parece não ser o caso do nosso personagem, ou seja, alguém culto, tanto que aparece quase ao final do filme sua biblioteca e sua coleção de fitas K-7, que não são singelas. Em uma parte do filme em que aparece sua irmã em um carro luxuoso com motorista particular, que foi buscar sua filha que havia fugido de casa e ido visitar seu tio, podemos inferir, mas não com toda certeza, que Hirayama renunciou a uma vida de conforto e, por consequência, optou pelo trabalho humilde de lavar banheiros públicos.

 

Para quem assistiu ou se sentir estimulado a assistir o filme, somos levados a refletir sobre a nossa vida e as nossas escolhas. Em uma sociedade em que cada vez mais se valoriza o agito, o ganho, a competição, os likes, os engajamentos e o prazer corporal, parece que o cotidiano simples é quase aterrorizante. Em uma Sociedade do Espetáculo, como nos diz Debord, ou numa Modernidade Líquida, como nos ensina Baumann, ou, ainda, na Sociedade do Cansaço, como nos alerta Byung-Chul Han, vivemos premidos pelo consumo desmedido e pela busca dos recursos que nos levem a ele, em um frenesi que praticamente nos impede de olhar a nós mesmos e ao mundo ao nosso redor na velocidade 1x, na velocidade normal, ou melhor dizendo, no tempo do nosso cotidiano. Ao invés de sentirmos prazer e termos satisfação nas coisas simples, parece que cultivamos um continuo sentimento de frustração pelo que ainda não conseguimos. A nossa rotina diária de trabalho e de coisas que a ele não se relacionam (como família, compras, exercícios etc...) parece que mais sufocam do que trazem satisfação. Vivemos uma época em que a rotina é lida como estagnação e, portanto, procuramos sempre nos distanciar dela, por mais que não consigamos.

 

O filme Dias Perfeitos não é uma apologia à simplicidade, mas é um alerta de quanto nos distanciamos da satisfação que poderíamos ter com um dia em que nossas tarefas foram devidamente cumpridas, por mais simples e rotineiras que elas sejam. Nosso dia útil normalmente pode ser dividido em dois momentos: o primeiro, que ocupa a maior parte do tempo, é dedicado aos outros, seja no trabalho, seja nas tarefas domésticas, seja na própria família; o segundo, que talvez ocupe uma parte ínfima do dia, é dedicado a nós mesmos, e como o ocupamos pode representar muito perante os apelos cada vez mais intensos da sociedade de consumo. Hirayama ocupa o tempo reservado a ele com a leitura de seus livros, pois ele não tem televisão, computador ou smartphone. Creio, sinceramente, que uma apologia à simplicidade e à desconexão dos aparelhos não seja a melhor saída hoje, aliás, nem sei se há saída ou qual seja ela, mas, uma desaceleração emocional do que vivemos seria muito bem-vinda. Quem sabe assim nós aprenderíamos que as tarefas simples, rotineiras, como limpar os banheiros de Tóquio, podem ser prazerosas em si mesmas, e podem resgatar um sentido de nosso cotidiano que está cada vez mais se perdendo em meio às inúmeras metas que somos levados a bater todo dia.

 

 

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

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