Anti-Sísifo, ou Feliz Ano Novo!
- Célio Juvenal Costa

- há 1 dia
- 3 min de leitura
A mitologia grega nos oferece, assim como todas as mitologias antigas, várias histórias ricas e com um sentido que transcende a época em que foram criadas. Hoje quero refletir sobre a época do ano que estamos passando sob a luz de uma história grega, o Mito de Sísifo. Resumidamente, a história de Sísifo narra que ele foi fundador e rei da região de Corinto, no sul da Grécia, na região do Peloponeso; astuto, enganou os deuses algumas vezes, o que provocou a sua ira. Ao final de sua vida, reconhecido por Hades como aquele que o havia ludibriado, foi condenado pelos deuses a rolar, eternamente, uma pedra redonda gigante colina acima, mas quando estava chegando ao topo, a pedra voltava até o pé da montanha, aí Sísifo tinha que recomeçar seu trabalho, pesado, rotineiro e, especialmente, infrutífero. Pois bem, o que isso tem a ver com um texto que quer falar de ano novo? Acho que muitas coisas...

Temos uma certa mística de que a passagem de ano seria como uma espécie de portal, em que podemos fazer e ter mais coisas e sermos melhores. Fazemos promessas, estabelecemos compromissos, com a esperança de que no novo ano tudo se realize para o bem, nosso e dos nossos. Como diz a tradicional canção: “Adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer, muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Infelizmente, tal portal não existe. Talvez ele se “abra” logo no início do ano apenas para quem ganhou na mega sena da virada...
Para as pessoas que dependem do seu trabalho para viver, o dia 02 de janeiro marca o início útil do novo ano para muitas. Uma parcela consegue tirar férias em janeiro e prorroga alguns dias ou semanas o início efetivo do ano. O calendário muda, mas, de fato, a maioria das coisas que fizemos no ano que termina, continuaremos a fazer no ano que se inicia. Podemos ter a sensação que estaremos iniciando algo, mas sabemos que só estaremos fazendo novamente algo que já fizemos. Talvez para muitas pessoas, o ano que se inicia se pareça à grande pedra de Sísifo, que é empurrada ao longo de todo o ano, que rola para baixo no seu final e, após uns poucos dias de descanso, recomeça-se a tarefa de empurrá-la colina acima.
Para as pessoas que reiniciam no mesmo trabalho, a sua rotina pode ser cansativa, rotineira e, por vezes, infrutífera. Para as pessoas que continuam em suas relações familiares, apesar das mudanças físicas, a rotina pode significar algo que não apresenta nada de novo. Enfim, é muito normal muitas pessoas se sentirem como Sísifo, mesmo não tendo a ideia de quem ele tenha sido. Talvez até se sintam castigadas por algum motivo para seguir cumprindo suas penas.
No entanto, penso que, apesar do cotidiano, da repetição, da sensação de estagnação, é preciso, no que depende de cada pessoa, tentar romper com esse círculo vicioso. A sensação de novidade que um novo ano propicia, pode servir de alavanca emocional para fazermos as mesmas coisas mas de uma maneira diferente, nos relacionarmos com as mesmas pessoas mas de formas diferentes. Sempre teremos nossas pedras para rolar morro acima, mas podemos, em algum momento, parar um pouco e reparar no que está à nossa volta, na natureza, por exemplo, e, quem, sabe, também vejamos, perto de nós, outras pessoas com suas pedras fazendo um trajeto parecido; quem sabe possamos conversar com essas outras pessoas sobre as dificuldades do que fazemos, sobre o tamanho e o peso de cada pedra, e possamos, juntos, reparar em pequenos detalhes da vida que está em volta e, assim, darmos um novo sentido ao que cotidianamente fazemos. Quem sabe, dessa maneira, possamos romper com a nossa sina de Sísifo.
Assim, desejo que todas as minhas amigas e todos meus amigos e todas as pessoas que leem esta coluna tenham em 2026, de fato, um novo ano, e que ele venha pleno de oportunidades para fazermos coisas boas e sermos, para os que nos cercam, motivo de alegria, de compromisso e de luta por um mundo melhor para todas as pessoas!!
PS: esta coluna fará uma pausa, voltaremos em fevereiro.












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