A esquerda esconde na cueca e a direita paga em espécie.
- Walber Guimarães Junior

- 20 de dez. de 2025
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Por Walber Guimarães Junior, engenheiro e comunicador.
Gestas e Dimas são nomes que passam despercebidos na Bíblia porque são reconhecidos apenas como o bom e o mau ladrão, adjetivação supostamente derivada da reação de ambos ao suplício de Jesus. Uma rápida pesquisa histórica demonstra que eles eram provavelmente rebeldes que se levantaram contra o Império Romano, presos políticos portanto, fato comprovado pela condenação; crucificação era a pena para delitos políticos e jamais aplicada para pequenos roubos. Naquele tempo, presos políticos pagavam por seus delitos.

Há mais de dois mil anos, a regra para crimes políticos não permitia dosimetria, descondenação ou anistia, embora Dimas tenha sido absolvido pelo clamor popular, demonstrado na cerimônia de execução. Atualmente, os achaques da classe política percorrem uma infinidade de possibilidades e, infelizmente, os caminhos da impunidade são ainda mais evidentes.
Em passant pela filosofia registramos a eterna discussão entre a visão de Thomas Hobbes “o homem seria sempre o lobo do homem” e a de Jean- Jaques Rousseau “o homem é naturalmente bom, mas a sociedade o corrompe”, que talvez devam ser confrontada com a teoria de biologia evolutiva de que o homem tem o instinto de acumular recursos para garantir a sobrevivência de seus descendentes. Devo ainda revisitar a filosofia popular que afirma que “a oportunidade faz o ladrão” que talvez explique melhor a índole dos políticos brasileiros.
Na criminologia, Donald Cressey criou a teoria do Triângulo da Fraude que explica que a conjunção de três elementos é que explicam os desvios, especialmente da administração pública. A motivação (necessidade financeira ou desejo de status), a oportunidade (falha nos sistemas de controle) e a racionalização (capacidade mental de justificar o erro e pouco receio pela punição). Bingo! É sempre possível enxergar os três elementos nos casos clássicos de corrupção do Brasil.
Importante frisar que corrupção existe em todos os países do mundo, embora em forma e intensidade diferente, fatores relacionados à força de suas instituições e à cultura de seu povo. Não se pode afirmar que os povos nórdicos, da Dinamarca e Finlândia em especial, sejam melhores, mas seguramente se verifica que os sistemas de controle, as punições e a condenação social são suficientemente fortes para desencorajar atos de corrupção, fato que se enxerga também em algumas culturas orientais, como no Japão. Incluo este parágrafo para registrar que não considero o brasileiro “essencialmente corrupto”, mas a nossa nação desprovida da capacidade de punir poderosos com o mesmo vigor que pune o andar de baixo da sociedade.
Esta é a essência do debate. A corrupção não é característica da direita ou da esquerda, mas da classe política brasileira, e afirmo isto com profundo pesar, simplesmente porque as leis, feitas e controladas por eles, são elaboradas para deixar brechas que os livrem das punições, sejam na área jurídica (absolvição, nulidades ou prescrição), no executivo (indultos) ou na esfera legislativa (anistia e até revisão da dosimetria). Se alguém souber, me explique quando estas possibilidades atingem o coitadinho do ladrão de galinhas ou aquele que rouba alimentos no mercado para a família?
Aposto que muitos que me leem neste momento, devem estar supondo que defendo a impunidade de pequenos roubos, como de celular, por exemplo. Não! Apenas sou mais um brasileiro revoltado pelas soluções de plenário ou gabinete que resolvem a vida de milhares de políticos corruptos.
Também não sou comprometido ideologicamente para, algumas vezes até com cinismo, apontar a corrupção como inerente a uma corrente ideológica. Só a paixão autoriza tal afirmação porque os corruptos têm instintos, mas não ideologia. Mas, jocosamente, posso perceber que cada lado tem um modus operandi, como se observa nos casos mais folclóricos.
A esquerda prefere esconder, de maneira até rudimentar, seus recursos, sejam na cueca, com dm dois casos notórios, ou até em malas depositadas em apartamento alugado para tal fim. Já a direita, talvez por ser mais focada no mercado, prefere usar este produto para aquisição de imóveis, como atestam as dezenas de negociações da família Bolsonaro ou, mais recente, do líder do PL.
Os processos que se seguiram a tais fatos resultam sempre nas mesmas explicações (perseguição política e dinheiro lícito de negócios privados), pouco importa se as evidências apontem em outra direção. No episódio mais recente, o motorista do Deputado Sóstenes movimentou onze milhões em curto período e, mesmo sabendo que a Câmara paga ótimos salários, nem mesmo em toda a sua vida profissional conseguiria juntar estes valores. Mas, claro, é tudo perseguição política.
Talvez seja a hora da sociedade abrir o outro olho, abandonar a miopia ideológica, enxergar para os dois lados para perceber que a corrupção está impregnada na alma da nossa elite política e não adianta criar um corruptômetro ou uma balança para medir a inclinação dos desvios, mas perceber que precisamos reagir e assumir uma postura de condenação incremente contra estes fatos, exigir punições exemplares e abandonar a postura hipócrita de achar que a corrupção está sempre do outro lado.
Sem uma postura forte da sociedade civil, todos terminarão inocentados, descondensados ou anistiados e seguiremos inocentemente cultuando nossos malvados preferidos.













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