O Acordo UE–Mercosul: Uma ponte histórica entre Europa e América Latina
- Renata Bueno

- 18 de nov.
- 4 min de leitura
Por Renata Bueno, ex-parlamentar italiana e advogada especializada em direito internacional
Em um mundo cada vez mais interconectado, onde o comércio global orienta o ritmo das economias e a geopolítica redefine alianças, o Acordo de Parceria UE–Mercosul surge como um marco transformador. Como ex-parlamentar italiana e advogada dedicada às relações internacionais, vejo nesse pacto mais que um tratado comercial: trata-se de uma oportunidade concreta de aproximar tradições milenares e aspirações modernas de dois continentes. Para brasileiros, italianos e para toda a população da América Latina, o acordo representa o início de uma nova fase de cooperação. Neste artigo, explico o que é o Acordo UE–Mercosul, quais países o compõem, as áreas que ele abrange e por que ele voltou ao centro dos debates agora, em novembro de 2025. Termos como “Acordo UE–Mercosul explicação”, “países Mercosul e UE” e “status atual do acordo Mercosul–Europa” estão entre os mais pesquisados do momento — e com razão. Após 25 anos de negociações, o pacto está mais próximo do que nunca de se tornar realidade, impulsionando exportações, inovação, sustentabilidade e segurança geoeconômica.

O Acordo de Parceria UE–Mercosul é um tratado amplo de livre comércio e cooperação birregional. Iniciado em 1999, durante a Cúpula do Mercosul no Rio de Janeiro, ele busca eliminar barreiras tarifárias e não tarifárias, ao mesmo tempo em que fortalece áreas estratégicas como desenvolvimento sustentável, inovação tecnológica e direitos humanos. Na prática, o acordo tem potencial para integrar um mercado de mais de 780 milhões de pessoas e um PIB combinado superior a € 20 trilhões. Para o Brasil e a América Latina, representa maior acesso aos mercados premium europeus; para a Itália e a UE, oferece diversificação de fornecedores e redução de dependências geopolíticas — especialmente da China na aquisição de minerais críticos.
Após décadas de avanços e retrocessos — incluindo um “acordo político” em 2019, posteriormente paralisado por preocupações ambientais e agrícolas — o cenário atual é de forte aceleração. Em dezembro de 2024, os blocos anunciaram o fechamento do texto final, incorporando salvaguardas para setores sensíveis, como a agricultura europeia. Durante a COP-30 em Belém, em 5 de novembro, o presidente Lula e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforçaram o otimismo de que o acordo seja assinado em 20 de dezembro, na Cúpula do Mercosul no Rio de Janeiro, encerrando um ciclo iniciado há 26 anos. Ao mesmo tempo, 2025 é o ano decisivo para a ratificação: no Mercosul, os parlamentos nacionais precisam aprovar o texto; na União Europeia, é necessária maioria qualificada entre os 27 Estados-membros. Não por acaso, a Cúpula UE–Celac, realizada em novembro em Santa Marta, Colômbia, concentrou suas discussões nesse tema, com papel de destaque para líderes como Antonio Costa e Gustavo Petro.
A conjuntura geopolítica contribui para esse impulso: a reeleição de Donald Trump reacendeu temores de políticas protecionistas nos Estados Unidos, estimulando a UE a acelerar parcerias estratégicas. Alemanha e Espanha veem o Mercosul como fornecedor crucial de lítio e minerais para a transição verde, enquanto, na América do Sul, o acordo se torna uma resposta à instabilidade política regional e uma ferramenta para reforçar a unidade do bloco. Também persistem resistências — especialmente da França, sob a liderança de Emmanuel Macron, que manifesta preocupação com impactos no setor agropecuário europeu.
Em contraste, defensores do tratado, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), destacam benefícios como modernização produtiva, resiliência econômica e o fortalecimento de cadeias sustentáveis. O momento é decisivo: espera-se que a parte comercial do acordo possa entrar em vigor já em 2026, trazendo efeitos diretos para consumidores e empresas — desde mais produtos europeus nas prateleiras brasileiras até o aumento da exportação de etanol verde para a Europa.
O acordo une dois blocos centrais do comércio global. De um lado, o Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia (membro pleno desde julho de 2024), um bloco com forte capacidade agrícola e industrial e detentor de algumas das maiores reservas de biodiversidade do planeta. De outro, os 27 Estados-membros da União Europeia — incluindo Itália, Alemanha, França, Espanha e Países Baixos — que negociam de forma unificada sob a liderança da Comissão Europeia. Essa união cria uma ponte transatlântica com benefícios econômicos, sociais e culturais que alcançam desde agricultores brasileiros até artesãos italianos.
O tratado abrange áreas amplas e estratégicas. No comércio de bens, prevê a eliminação de tarifas em 91% das exportações do Mercosul para a UE e 92% no sentido inverso, além de cotas específicas, como 99 mil toneladas de carne bovina e 450 mil toneladas de etanol. Projeta-se que as exportações brasileiras possam crescer até 0,8% do PIB.
Em serviços e investimentos, o acordo facilita o fluxo para setores como telecomunicações, energia renovável e turismo, permitindo que empresas italianas ampliem sua atuação em infraestrutura no Brasil e intensificando o ingresso de capital para inovação na América Latina. Em desenvolvimento sustentável, reforça compromissos com o Acordo de Paris, a Convenção da Biodiversidade e normas da OIT, introduzindo mecanismos de monitoramento ambiental baseados em dados locais e promovendo cadeias produtivas sustentáveis, com inclusão de pequenos produtores e povos indígenas.
No campo da igualdade de gênero e dos direitos humanos, o acordo inova ao incluir cláusulas específicas de promoção da participação feminina no comércio e de proteção social. Já no âmbito da cooperação política e técnica, estabelece diálogo permanente sobre democracia, multilateralismo e assistência para a implementação do tratado, aproximando ainda mais as sociedades europeias e latino-americanas e fortalecendo o papel da expressiva comunidade italiana no Brasil.
Como ítalo-brasileira que vive na Itália há mais de vinte anos, com raízes que conectam o Velho e o Novo Mundo, vejo o Acordo UE–Mercosul como precursor de uma nova era de parcerias internacionais. Ele abre portas para avanços com a EFTA (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein) e para futuros acordos com a Ásia e a África. Para brasileiros, representa empregos e modernização; para italianos, novos mercados para moda, design e enogastronomia; para a América Latina, significa integração regional e projeção global. Em tempos de incerteza, este pacto não é apenas economia — é um convite à unidade.
Como advogada, defendo que sua implementação seja guiada por transparência e equidade, para que seus benefícios cheguem a todos: das campinas paraguaias às vinhas toscanas. Este artigo inaugura uma série sobre o Acordo UE–Mercosul. Nos próximos textos, abordarei os impactos setoriais, os desafios da ratificação, as oportunidades para brasileiros na Itália e como a cidadania italiana pode se tornar uma ponte ainda mais forte nesse novo cenário.














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