Blecaute da Razão: A Estratégia da Fome como Arma Política de Trump contra Cuba
- Nelson Guerra

- há 3 horas
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Com o corte de luz e alimentos, Washington tenta uma "tomada amigável" da ilha, ignorando que o Direito Internacional não é um contrato de aluguel.
Imagine que você é o síndico de um prédio e, por não gostar do estilo de vida de um dos moradores, decide não apenas proibir a entrada de visitas, mas também cortar a luz, a água e impedir que o delivery de comida chegue à porta dele. Para completar, você ainda aparece na sacada do vizinho gritando que faria uma "honra" em tomar o apartamento dele para "ajudá-lo". Parece o roteiro de uma briga de condomínio que terminaria na delegacia, mas é exatamente o que está acontecendo no tabuleiro geopolítico do Caribe neste março de 2026.

Imagem criada por IA – Nelson Guerra
O governo de Donald Trump elevou o tom e a pressão a níveis que a diplomacia moderna raramente testemunhou. O que o presidente cubano Miguel Díaz-Canel denuncia não é apenas uma picuinha ideológica, mas uma tática de asfixia meticulosa. Ao bloquear petroleiros e ameaçar empresas como a mexicana Pemex com tarifas punitivas, Washington aplicou em Cuba um verdadeiro “mata-leão” energético. O resultado é uma ilha mergulhada no escuro, com hospitais operando no limite e prateleiras vazias. É a política da fome usada como ferramenta de convencimento, como já se viu em outros cenários de colapso humanitário discutidos aqui no artigo Gaza em Agonia.
O mais inquietante é que essa pressão não surge isolada. Ela faz parte de um padrão maior de confronto geopolítico em que Trump prefere o barulho da ruptura ao custo silencioso da diplomacia. Em outros episódios recentes, esse estilo já apareceu de forma clara, como em Trump e o risco do isolamento, em Trump, turbulência e incerteza geopolítica e em Trump dá tiro no pé, quando a tentativa de força acabou produzindo efeitos contrários aos desejados.
O Fantasma de 1964: Um Filme que Já Vimos
Para nós, brasileiros, esse modo de agir traz um gosto amargo de déjà-vu. Quem conhece minimamente a nossa história sabe que a liberdade alheia costuma ser um conceito bem elástico para a Casa Branca. Em 1964, a Operação Brother Sam mostrou que os Estados Unidos estavam prontos para enviar apoio logístico e militar para a costa brasileira caso a resistência ao golpe contra João Goulart fosse maior do que o esperado. Naquela época, o pretexto era “salvar a democracia” do comunismo. Hoje, o pretexto é a “crise econômica” de um país que passou mais de seis décadas sufocado por sanções, embargo e isolamento.
A estratégia é velha, apenas ganhou roupa nova: primeiro você aperta o pescoço econômico do vizinho; depois aponta para a falta de ar dele como prova de incompetência; por fim, oferece-se para “resolver” o problema como se fosse bombeiro, quando foi justamente quem levou o fósforo. Foi mais ou menos essa lógica que apareceu também na série sobre a Venezuela, em especial em Bloqueio e batalha, em Marés ocultas e em Reconstruir ou entregar?. Muda o país, muda o discurso, mas o manual continua assustadoramente parecido.
Trump foi explícito ao tratar Cuba como se fosse uma peça disponível no balcão do poder. No Direito Internacional, esse tipo de fala não é mero exagero de palanque. Ameaçar a soberania de outro Estado afronta a lógica mínima da convivência entre nações e esbarra diretamente no Artigo 2(4) da Carta da ONU, que proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer país. Em linguagem de boteco, é como se o xerife do bairro resolvesse dizer que o regulamento só vale para os outros enquanto ele mesmo estaciona em cima da calçada.
Brasil: O Bombeiro em Meio ao Incêndio
Nesse cenário de pólvora seca, o governo Lula tenta ocupar o papel de adulto na sala. Ao criticar abertamente o bloqueio e seus efeitos sobre a população cubana, o Brasil procura resgatar um mínimo de racionalidade num ambiente contaminado por bravatas. Não se trata apenas de afinidade ideológica, como gostam de repetir os preguiçosos da análise. Trata-se de pragmatismo diplomático.
Lula e o Itamaraty sabem que, se o prédio do vizinho pegar fogo, as fagulhas voam para o continente inteiro. Uma escalada sobre Cuba pode gerar crise migratória, instabilidade regional, pressão sobre cadeias de energia, ruído comercial e mais tensão política no quintal latino-americano. E isso num momento em que o mundo já está sacudido por disputas monetárias, sanções cruzadas e rearranjos de poder, como discuti em BRICS PAY, e também em Xadrez com muros e pontes.
A imprensa internacional já começa a olhar para o caso como uma crise de alta voltagem, uma espécie de “crise dos mísseis sem mísseis”, em que a arma principal não é o foguete, mas o controle do fluxo de energia, alimentos e crédito. É uma guerra sem tanque na avenida, mas com efeitos concretos na mesa de jantar. Quem paga a conta não é o estrategista em Washington, mas a família cubana que precisa escolher entre conservar comida, enfrentar o apagão e improvisar a sobrevivência.
A Esperança que Não se Apaga
Apesar do cerco, a história mostra que povos submetidos à pressão extrema costumam desenvolver uma resistência que surpreende os que apostam no colapso rápido. Cuba já sobreviveu a crises que fariam muita nação maior desmontar em poucos meses. E há um dado novo neste tabuleiro: o mundo de 2026 já não é o de 1964.
Hoje, a pressão internacional circula mais rápido, os interesses estão mais espalhados e o peso de atores como o Brasil, a China e o próprio BRICS torna mais difícil a imposição tranquila de aventuras unilaterais. Isso não elimina o risco, mas muda o jogo. O blecaute em Havana pode até escurecer ruas e casas, mas também joga luz sobre um ponto essencial: não existe “libertação” quando a ferramenta usada é a fome.

Imagem criada por IA – Nelson Guerra
Se ainda houver algum espaço para lucidez no tabuleiro internacional, ele passará pela diplomacia, pela denúncia firme e pela rejeição clara à ideia de que um país poderoso pode estrangular outro até forçá-lo à rendição. Cuba precisa de solução política, não de asfixia. Precisa de diálogo, não de cerco. E, acima de tudo, precisa ter o direito de decidir o próprio destino sem que alguém, do alto de um púlpito ou de um resort, se comporte como dono do mapa.
(Nelson Guerra é comunicador e consultor em Gestão Pública que, nas horas vagas, tenta explicar que diplomacia não é um jogo de War, apesar do meu sobrenome.)













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