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Acordo UE-Mercosul: impactos, desafios e oportunidades para brasileiros na Itália

Por Renata Bueno, ex-parlamentar italiana e advogada internacional


Como ex-deputada do Parlamento Italiano, representando a comunidade da América do Sul, e como advogada especializada em direito internacional, tenho acompanhado de perto as negociações do Acordo UE-Mercosul. Este é mais um artigo da minha série sobre relações bilaterais entre Brasil, Itália e União Europeia, onde já discuti temas como cidadania italiana e migração qualificada. Hoje, foco no Acordo UE-Mercosul, que está prestes a ser assinado definitivamente em dezembro de 2025, conforme anunciado pelo presidente Lula. Vamos explorar os impactos setoriais, os desafios da ratificação, as oportunidades para brasileiros na Itália e como a cidadania italiana pode fortalecer ainda mais essa ponte transatlântica.


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Impactos setoriais do Acordo UE-Mercosul


O Acordo UE-Mercosul, negociado há mais de duas décadas, promete criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, abrangendo cerca de 780 milhões de pessoas. Seus impactos setoriais são profundos e variados, beneficiando tanto a economia europeia quanto a sul-americana.


No setor agrícola, o Mercosul – liderado pelo Brasil como maior exportador de commodities – ganhará acesso facilitado ao mercado europeu. Produtos como carne bovina, soja, açúcar e etanol terão tarifas reduzidas ou eliminadas, impulsionando as exportações brasileiras em até 20-30%, segundo estimativas da Comissão Europeia. Para a UE, isso significa maior oferta de alimentos a preços competitivos, mas com salvaguardas para proteger agricultores locais, como cotas limitadas para importações sensíveis. Recentemente, o Conselho da UE aprovou regulamentações para implementar essas cláusulas de salvaguarda, garantindo que surtos de importações não prejudiquem setores vulneráveis.


No setor industrial, a Europa se beneficia com a abertura de mercados para bens manufaturados, como automóveis, maquinário e produtos químicos. Empresas italianas, por exemplo, poderão exportar mais facilmente para o Brasil, reduzindo tarifas que hoje chegam a 35%. Para o Mercosul, isso representa um desafio competitivo, mas também uma oportunidade de modernização tecnológica via investimentos estrangeiros diretos (IED). Estudos indicam que o acordo pode aumentar o PIB do Mercosul em 1-2% ao ano, com foco em cadeias de valor integradas.


Outros setores como serviços e tecnologia também serão impactados. O acordo facilita o comércio de serviços digitais, telecomunicações e finanças, promovendo parcerias entre startups brasileiras e hubs inovadores na Itália, como Milão e Roma. No entanto, é essencial monitorar os efeitos ambientais, pois o acordo inclui compromissos com sustentabilidade, alinhados ao Acordo de Paris.


Desafios da ratificação do Acordo


Apesar do otimismo, a ratificação enfrenta obstáculos significativos. Como ex-parlamentar, sei bem como as dinâmicas políticas na UE podem atrasar processos. Recentemente, o Parlamento Europeu bloqueou uma resolução de oposição ao acordo por motivos procedimentais, mas vozes críticas persistem.


Um dos principais desafios é a oposição de países como a França, que exige mais garantias ambientais e agrícolas. O governo francês afirmou em novembro de 2025 que o acordo ainda precisa de ajustes para ser aceitável, citando preocupações com desmatamento na Amazônia e concorrência desleal. A Comissão Europeia tentou contornar isso dividindo o acordo em pilares comerciais e políticos, mas isso gerou acusações de "manobra" por parte de ONGs e parlamentares.


Outro entrave é a ratificação nos parlamentos nacionais. Embora o pilar comercial possa ser aprovado por maioria qualificada no Conselho da UE, aspectos como cooperação política exigem unanimidade. Países como Áustria e Irlanda já expressaram reservas ambientais. No Mercosul, há debates internos sobre protecionismo industrial. Apesar disso, o presidente Lula previu a assinatura para 20 de dezembro de 2025, o que seria um marco histórico.


Esses desafios destacam a necessidade de diálogo contínuo. Como advogada, recomendo que governos invistam em cláusulas de revisão periódica para adaptar o acordo a novas realidades, como mudanças climáticas.


Oportunidades para brasileiros na Itália com o Acordo


O Acordo UE-Mercosul não é só sobre bens; ele abre portas para pessoas e ideias. Para brasileiros, a Itália – com sua forte comunidade de descendentes – representa um portal para a Europa. Com tarifas reduzidas, empresários brasileiros poderão expandir operações na Itália, exportando produtos como café, frutas e bioenergia.


No mercado de trabalho, o acordo facilita mobilidade para profissionais qualificados via acordos de reconhecimento de qualificações. Brasileiros em setores como TI, engenharia e saúde poderão encontrar oportunidades em empresas italianas, especialmente em regiões como Lombardia e Veneto, que buscam mão de obra especializada. Além disso, investimentos bilaterais crescerão: imagine joint ventures entre startups brasileiras e o ecossistema inovador italiano.


Para estudantes e pesquisadores, programas de intercâmbio serão impulsionados, com mais bolsas e parcerias acadêmicas. Como mãe e empreendedora, vejo isso como uma chance para a nova geração brasileira se inserir no mercado europeu, trazendo inovação e diversidade cultural.


Cidadania Italiana


Como brasileira com cidadania italiana, sempre defendi o "jus sanguinis" – o direito de sangue que permite a milhões de brasileiros obterem a cidadania por descendência. Com o Acordo UE-Mercosul, essa cidadania se torna uma ponte ainda mais robusta.


Atualmente, cerca de 5 milhões de brasileiros têm raízes italianas qualificadas para cidadania, facilitando residência e trabalho na UE. No contexto do acordo, cidadãos ítalo-brasileiros poderão atuar como "embaixadores econômicos", facilitando negócios bilaterais sem barreiras. Por exemplo, um empresário com dupla cidadania pode estabelecer filiais na Itália, aproveitando isenções tarifárias e redes locais.


No entanto, desafios como filas nos consulados persistem – algo que defendi reformar durante meu mandato. Com o acordo, espero que governos invistam em agilização de processos, tornando a cidadania uma ferramenta estratégica para integração econômica. Para quem busca esse caminho, recomendo consultar advogados especializados para evitar erros comuns na documentação.


Em resumo, o Acordo UE-Mercosul é uma oportunidade transformadora, mas exige superação de desafios. Como ex-parlamentar, estou otimista: ele fortalecerá laços entre Brasil e Itália, com a cidadania italiana como elo vital.

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