A direita quer boicotar Jair?
- Walber Guimarães Junior

- há 1 dia
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Uma soma de razões familiares e pragmáticas levou o ex-presidente Jair Bolsonaro a indicar seu filho, Flavio Bolsonaro, como seu candidato nas eleições majoritárias deste ano. As ruas responderam bem ao líder, entregando números crescentes de aprovação de Flavio, mas, internamente, tudo que se assiste são as legendas da direita tentando abrir o caminho para um novo nome, deixando evidente que, se puderem, não estarão no mesmo palanque no primeiro turno.

Sem dúvidas, o governador paulista Tarcísio de Freitas era o nome mais apropriado para a missão de enfrentar Lula, mais que as outras opções, soma apoio das legendas, das ruas e da Faria Lima, indicando uma disputa igualitária com o PT e, na minha opinião, até com ligeiro favoritismo. Todavia, Tarcísio, apenas um técnico de qualidade sem experiência política, foi plantado em território paulista, conduzido pelo então presidente, resultando em uma bela vitória eleitoral que lhe impõe o dever da gratidão.
Sem um bem elaborado plano que o exima do compromisso, qualquer outra decisão em contrário, carimbará a testa do governador com a pecha de traidor, algo que, por exemplo, eliminou João Dória da política. Face as circunstâncias, é esperado que o caminho da reeleição, com muito favoritismo, seja sua opção definitiva, gerando um impasse para as lideranças externas ao PL.
A linha de raciocínio que norteia a família Bolsonaro é evidente; fora da disputa, será refém do candidato, eleito ou não, e terá papel secundário em 2030, independente da determinação das urnas de 2026. Com candidatura própria, preservam o patrimônio político, inibem novos nomes na vitrine e sobrevivem até a próxima eleição, todavia a direita sabe que não tem mais quatro anos para esperar e, ainda que Flavio seja competitivo, sua rejeição e, principalmente, sua inexperiência, podem ser vantagens substanciais para permitir o Lula 4.
Desta forma, em especial nas ações de Gilberto Kassab, o presidente de partido mais habilidoso e mais bem equipado, mantém em suas fileiras três boas opções para o pleito, três governadores bem avaliados, com boa possibilidade de assumirem o figurino de candidato de consenso e fora da guerrilha política, uma tese que, a princípio, tem uma avenida para percorrer.
É justo imaginar que Tarcísio ainda seja o nome preferido, mas apenas circunstâncias muito especiais permitem criar um cenário onde ele possa surgir como candidato, logo é muito mais inteligente que estas siglas da direita, desalinhadas do projeto de Valdemar e Jair, não queiram ser reféns neste jogo e apenas uma candidatura os coloca na mesa de negociação em condições de força, bastando que o nome escolhido faça mais voto que a diferença entre os escalados para o segundo turno.
Lógico que Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Junior tem um histórico muito mais consistente que Flavio Bolsonaro porque são governadores com alta índice de aprovação e testados por oito anos de gestão com muitas conquistas para apresentar ao eleitorado, Neste sentido, Ratinho Junior, titular do Paraná, tem um excelente case de sucesso na sua trajetória no governo do estado, com análise restrita aos números de sua gestão, super eficiente em educação, sustentabilidade, segurança e economia que colocam o estado no nível mais alto de crescimento na década. Porém, nenhum deles tem penetração nacional, sendo, por enquanto, apenas lideranças regionais, algo que o sobrenome resolve com eficiência para Flavio.
A triste realidade política nacional nos informa que ganhar eleições é bom, mas acertar com quem venceu é ainda melhor. Importa a quase totalidade de nossos principais líderes a possibilidade de continuar exercendo livremente tráfico de influência, como no escandaloso caso do Banco Master, além do acesso ilimitado aos recursos públicos, via emendas, que, além de serem ótimos instrumentos da ação política, se mostram eficientes para levantar recursos para os custos eleitorais e o enriquecimento ilícito dos congressistas.
Você, eu e todos os demais eleitores comuns, olham para as eleições como uma grande oportunidade de escolher alguém que conduza o país com eficiência e ética, porém, para o andar de cima é apenas uma oportunidade de garantir mais quatro anos de acesso livre aos grandes negócios e a prática os ensinou que o processo eleitoral é o balcão de negócios mais expressivo, como uma grande feira de cargos e benesses, onde poder sentar a mesa é a melhor oportunidade de capitalizar rendimentos de toda a ordem.
A leitura supramencionada é que reduziu o peso de lideranças de bancada ou partidos políticos porque ninguém mais quer intermediário. Os indícios são cada vez mais consistentes do diálogo entre Daniel Vorcaro, o trambiqueiro do Master, com as principais autoridades do país, na atual e na gestão anterior, e que as mãos que o conduziram receberam o vultuoso agradecimento.
É um jogo de poder, apenas isto. Educação, Saúde, Segurança ou déficit fiscal são apenas argumentos que podem ser facilitadores nesta grande disputa, mas tem relevância secundária para os caciques para os quais importa apenas o naco de poder e influência que lhes sobre. É neste sentido que todos avaliam as eleições de 2026, convencidos que as grandes decisões, os compromissos mais efetivos e vantajosos são sempre na entressafra entre os dois turnos. Flavio Bolsonaro não ajuda nisto porque o presidente do PL não são confiáveis para as demais lideranças, incluindo presidentes de partido das demais legendas relevantes do campo da direita.
A direita não está propriamente traindo Jair Bolsonaro, que se fosse candidato somaria todos estes apoios, apenas agindo com o pragmatismo que atinge todo o espectro político e buscando um posicionamento que a permita comprar o bilhete e tentar a sorte no primeiro turno e, com muito mais segurança, negociar o apoio no segundo tempo.
É apenas mais um capítulo, porém, neste momento se pode acreditar em uma eleição com três nomes competitivos. Ainda que as motivações sejam outras, talvez resulte em uma eleição mais limpa, sem a polaridade obtusa e até com a possibilidade que os eleitores saibam o que o seu escolhido pretende fazer se eleito. Talvez faça bem ao Brasil.












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