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Você não é povo: você é elite. Comporte-se como tal ou desapareça.

No Brasil, ler já é poder. O que você fará com ele?


Se você consegue ler este texto sem tropeçar, parabéns: já pertence ao clube exclusivo dos que entendem mais do que uma receita de miojo. Cerca de 12% dos brasileiros alcançam esse nível de alfabetização plena. E aqui vem a parte incômoda: só por saber ler como um civilizado, você já deve ter — ou logo terá — uma renda mensal de ao menos R$ 4.000,00. Isso já é suficiente para que você deixe de ser “oprimido pelo sistema” e passe a ser o próprio sistema. Dói admitir? Problema seu.


Você não é povo. Você é elite. E elites não têm desculpas.


Se estivesse nos EUA, essa renda equivaleria a algo em torno de US$ 800 por mês — insuficiente para uma vida confortável lá; aqui, porém, basta para colocá-lo no topo. Pode não comprar estabilidade, mas define o jogo. Porque o contexto é o Brasil: um país periférico, lotado de gente pobre e sem escolaridade, dominado por um punhado de muito ricos — quase todos sem cultura, salvo raras exceções.

Num país em que a renda per capita média gira na casa dos R$ 2.020,00 e em que a alfabetização plena ainda é um privilégio, o simples fato de você articular uma frase já o coloca acima da massa. Seu desconforto de classe média alfabetizada é, estatisticamente no Brasil, aristocrático.


Ainda dúvida? Veja a história de Jocenir Prado, preso nos anos 90 e autor do livro que inspirou “Diário de um Detento”, dos Racionais MC’s. Sem a violência necessária para conviver no cárcere, ele só sobreviveu porque sabia ler e escrever. Tornou-se o escriba dos presos: redigia cartas às famílias, lia bilhetes, decifrava o mundo.

A alfabetização foi sua armadura. Sem ela, teria morrido. Esse é o peso da letra no Brasil.

Foto: Jocenir Prado. Sim, esse nerd e magrelo sobreviveu ao sistema carcerário por ser alfabetizado


Superada essa questão, vamos ao que interessa: qual é o seu papel na sociedade enquanto elite? Negar sua posição é infantilidade. Levante-se, comande, desenhe o futuro à sua vontade e semelhança.


Sei que talvez você nunca tenha se enxergado como elite. Talvez nem tenha construído um imaginário para isso — por isso escrevo. Não venho de família rica, estudei toda minha vida em escolas públicas, mas carreguei um defeito perigoso: nunca aceitei ser controlado por quem eu julgava inferior, intelectualmente ou moralmente.


A escassez de humildade e excesso de altivez poderiam ter sido minha ruína. Não foi, por sorte: um pai bancário, mas intelectualizado até a medula, e uma mãe sem ensino formal, mas metódica e exigente, construíram minha educação. Para ganhar uma Coca-Cola e um pacote de salgadinho eu tinha de transcrever páginas inteiras de livros. Ela cobrava disciplina; ele fornecia a biblioteca. Entre o miliopã e os clássicos e épicos, nasceu meu fascínio pela história e pela política.


E é aqui que entram os modelos. Para mostrar o que elites podem fazer, selecionei duas famílias que moldaram eras opostas: os Médici e os Vanderbilt.


Os Médici começaram como comerciantes em Florença, no século XIV. Migraram para o setor bancário e, em poucas gerações, colocaram-se no centro do poder europeu. Controlaram a República Florentina, tornaram-se banqueiros do Vaticano, elegeram quatro papas — Leão X, Clemente VII, Pio IV e Leão XI — e deram à França duas rainhas: Catarina e Maria de Médici, a primeira considerada a mulher mais importante do Sec. XVI. Seu poder não veio apenas do dinheiro: veio, sobretudo, do mecenato.


Cosimo de Medici, o Velho, não só financiou artistas: patrocinou e frequentou a Academia Platônica de Florença, liderada por Marsilio Ficino. Ali Platão e os neoplatônicos foram traduzidos, reinterpretados e postos em diálogo com o cristianismo. Essa base filosófica deu lastro a Botticelli, Michelangelo, Leonardo da Vinci e Brunelleschi. Sem o ouro dos Médici, talvez não houvesse Renascimento.


Foto: Escultura de David, de Michelangelo.


Maquiavel, ex-diplomata da República, escreveu O Príncipe no efêmero exílio e o dirigiu a Lourenço de Médici (O Jovem), numa tentativa de reconciliação e patrocínio, já que Maquiavel havia trabalhado para os inimigos da Família durante o exílio dessa. Ironia histórica: o autor do maior livro de estratégia política teve que se ajoelhar e se humilhar (em vão) aos Médici.


Foi pela filosofia, pela arte e pela visão política que os Médici projetaram Florença como a “Nova Atenas”. A cidade, que até então era apenas mais uma república comercial da Toscana, se tornou o epicentro cultural da Europa. Sob seu patrocínio, a cúpula de Brunelleschi ergueu-se como símbolo da nova arquitetura; Botticelli pintou a “Primavera” e o “Nascimento de Vênus” como alegorias de uma nova ordem estética; Leonardo da Vinci e Michelangelo tiveram espaço e recursos para desenvolver obras que se tornariam imortais. Não era apenas arte decorativa: era uma estratégia de poder.


A beleza financiada pelos Médici não era gratuita, mas propaganda política. Suas obras anunciavam ao mundo que Florença era o coração de um renascimento espiritual e intelectual. O patrocínio da Academia Platônica de Ficino não servia apenas para enaltecer Platão, mas para fundamentar filosoficamente a visão de mundo que legitimava o poder da família. Cada pintura, cada escultura, cada manuscrito traduzido servia como capital simbólico. Era o mecenato transformado em máquina política.


Esse projeto funcionou. Os Médici garantiram não só domínio sobre Florença, mas projeção sobre a Igreja, sobre reinos inteiros e sobre a própria ideia de Europa. A família consolidou sua glória não apenas pelo ouro acumulado, mas pelo imaginário que financiou — um imaginário que sobrevive até hoje como sinônimo do Renascimento e que foi base para manutenção do ouro acumulado nos próximos séculos nas mãos de seus herdeiros e a memória eterna de seus fundadores e patrocinados.


Já a família Vanderbilt surgiu na Nova York (na época, New Netherlands), em medos do Século XVII, após imigração do seu patriarca, Jan Aertson, para o Novo Mundo. A história de surgimento e crescimento dos Holandeses se assemelha muito a história da Família Italiana: se os italianos surgiram do comércio, os holandeses surgiram da agricultura; enquanto a riqueza dos Medici veio através da inovação no setor bancário, a dos Vanderbilt veio a partir de barcos a vapor e, depois, de ferrovias.


Cornelius Vanderbilt foi a locomotiva movida a vapor e aço para transformar uma família de barqueiros na mais rica do mundo na segunda metade do Séc. XIX. Começou aos 11 anos como ajudante de barqueiro em Nova York, aos 21 já era empresário do ramo. Na corrida do ouro na Califórnia, vendeu a picareta e o transporte para então, aos 70 anos, entrar de cabeça no setor ferroviária. A estação central de Manhattan foi construída por sua família e ostenta até hoje sua estátua.


Foto: Estátua de Cornelius Vanderbilt em frente a Estação Central.


Homem prático e sem estudos, Cornelius não se preocupou em criar sucessores: criou herdeiros. Não construiu cultura, apenas reproduziu, com muito dinheiro e opulência, a visão hedonista de parte da elite da época.


Seu grande investimento da época não foi em bibliotecas, universidades ou estudiosos. Cornelius investiu, em valores de hoje, 70 milhões de dólares para que sua filha casasse Duque de Marlborough, da mesma família de Winston Churchill. Todo esse dinheiro lhe garantiu acesso pessoal aos Monarcas da Inglaterra, Germânia e Rússia. Hoje, muitos sabem das histórias de Eduardo VII e Guilherme II, mas ninguém se interessa por Consuelo Vanderbilt.


Ao investir em festas, mansões e casamentos arranjados, a Família Vanderbilt construiu seu império sob os valores e ética das elites da época. É a velha história de construir sua casa no terreno da sogra: nunca dá certo.


O resultado foi previsível. Em menos de duas gerações, a fortuna construída a duras penas pelo Cornelius se fragmentou em heranças, dívidas e caprichos. A corrida por relevância a partir da ostentação é ingrata: seu interlocutor nunca está satisfeito e você acaba gastando mais e mais, até que quebra.


A fortuna se dissolveu como vinho derramado. Em duas gerações, a maior dinastia financeira do mundo virou piada: brigas internas, dívidas, palácios transformados em museus turísticos. O império que unificou os EUA pelas ferrovias ficou menor do que as festas de mármore e veludo que ajudaram a destruí-lo.


Se os Médici financiaram o Renascimento, os Vanderbilt financiaram a própria ruína. Sua ostentação não era propaganda política nem capital simbólico, mas puro exibicionismo. O resultado está no epitáfio da família: Fortune’s Children, livro escrito por Arthur T. Vanderbilt II, bisneto do Comodoro. O herdeiro de um dos homens mais ricos da história hoje paga as contas vendendo a narrativa da decadência da própria família. É a fábula da cigarra e da formiga em escala imperial — riqueza sem cultura não dura três gerações.


Logo abaixado, a principal Mansão da Família Vanderbilt, em Rhode Island, em comparação a Mansão de Gusttavo Lima, em estilo greco-goiano, o senso estético não foi suficiente para salvar a família Holandesa de sua derrocada.



Entre os Médici e os Vanderbilt há, portanto, dois arquétipos: quem usa o ouro para moldar séculos e quem usa o ouro para mostrar-se até a ruína. Os primeiros criam imaginário; os segundos deixam um rodapé.

E é aqui que a comparação fica incômoda para o leitor: você também é elite. Talvez não tenha milhões na conta, mas já ocupa o topo intelectual de um país onde a maioria é analfabeta ou miserável. A questão não é se você faz parte de uma elite, mas qual elite pretende ser. Vai desperdiçar seu capital — dinheiro, tempo, inteligência — em ostentação vazia, como os Vanderbilt, ou vai plantar cultura, criar redes e moldar instituições, como os Médici?


Se você ainda não construiu patrimônio, foque em construí-lo e seja um intelectual orgânico na esfera de projeção que tem hoje — nada é mais deprimente do que um intelectual quebrado.


Se chegou até aqui, tem mais poder intelectual do que 90% dos vereadores que conheço. Não aceite ser governado por incompetentes: governe, barre projetos ruins, desenvolva os bons e, em dez anos, veja a diferença que você pode fazer na sua comunidade. Se for de uma cidade muito grande, utilize-se da internet, doe seu tempo e intelecto e construa intelectualidade. Seja o seu próprio Cosimo e Ficino, só basta escrever e publicar aqui no substrack.


Se você já tem dinheiro, saiba que matricular seu filho numa escola internacional ou numa universidade americana não basta. Um diploma em Yale pode impressionar, mas não constrói necessariamente alicerce cultural ou instrumental para reverter hegemonias. As universidades e os jornais — “a Catedral”, nas palavras de Curtis Yarvin— precisam ser reconquistados: velhas ideias e novos professores, redes intelectuais e financiamento institucional. A tomada do senso comum começa aí.


Assim como a Academia Platônica interpretou os clássicos à luz do Cristianismo, por que não fazer o mesmo com a Inteligência Artificial e o Mundo Multipolar que bate à nossa porta?


Não quero aqui negar complexidades: Juliano, irmão de Lourenço e filho de Cosimo, era famoso por suas festas; William Henry Vanderbilt seguiu os caminhos do pai, mas não teve força para conter o impulso festeiro da família. É o eterno dilema entre duas variáveis: investir em poder simbólico ou dissipar em ostentação. Nassim Taleb chamaria isso de fragilidade: concentrar tudo no espetáculo, sem redundâncias nem “via negativa”, torna a queda não uma hipótese, mas uma certeza.

Essa é a encruzilhada brasileira. Aos que têm dinheiro cabe escapar da tentação do consumo e passar a ver o patrimônio como instrumento de poder cultural e político. Aos que ainda não têm fortuna, mas já pertencem à elite pelo simples fato de pensar e ler, cabe o dever de agir como aristocracia intelectual: criar, organizar, disputar. Não há desculpas. A elite que nega sua função já está morta. O futuro do Brasil está em nossas mãos. Negar o óbvio é entregar o futuro de nossos filhos aos nossos inimigos.

Acorde. Assuma o controle.

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