CIANORTE: A SÉRIE DA DECEPÇÃO POLÍTICA
- Marcio Nolasco

- há 10 minutos
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Quando o eleitor descobre que a promessa era apenas o primeiro episódio
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
Se uma equipe da Netflix resolvesse produzir uma série documental sobre a política de Cianorte, dificilmente precisaria criar roteiro.
Os fatos dos últimos anos já entregaram drama, investigações, denúncias, operações policiais, processos administrativos, representações junto ao Ministério Público, procedimentos no Tribunal de Contas do Estado do Paraná, cassações de mandatos e uma sucessão de crises institucionais que colocaram em xeque a confiança da população em seus representantes.
A diferença é que, ao contrário das séries de ficção, aqui não existem atores.
Existem cidadãos.
Existem eleitores.
Existem contribuintes.
E existe uma cidade inteira assistindo, perplexa, ao desgaste gradual da credibilidade de parte significativa da sua classe política.
A série seria mais ou menos assim caro leitor:

Episódio 1: A promessa
Toda eleição começa da mesma forma.
Discursos emocionados.
Promessas de renovação.
Compromissos públicos com a ética.
Defesa da moralidade.
Combate à corrupção.
Fiscalização do Executivo.
Proteção do dinheiro público.
O candidato sobe nos palanques e afirma que será a voz da população.
Mas o problema surge depois da posse.
Porque muitas vezes a realidade do sistema político mostra-se completamente diferente daquilo que foi vendido durante a campanha.
O eleitor vota em um representante.
Mas frequentemente vê surgir um operador político.

Episódio 2: O sistema
Nos últimos anos, Cianorte assistiu a uma sequência de episódios que colocaram a política local sob forte questionamento.
Vereadores cassados.
Processos disciplinares.
Investigações.
Operações policiais.
Representações junto ao Ministério Público.
Procedimentos no Tribunal de Contas.
Denúncias relacionadas a contratos públicos.
Questionamentos sobre gastos.
Conflitos institucionais.
E uma crescente sensação popular de que parte dos agentes políticos deixou de representar a população para representar interesses internos do próprio sistema.
É importante afirmar com absoluta clareza:
Nem todos os vereadores se enquadram nessa crítica.
Seria injusto generalizar.
Existem parlamentares sérios, comprometidos, fiscalizadores e que efetivamente exercem seu mandato em defesa da população.
Mas também seria desonesto ignorar aquilo que a própria sociedade já percebeu.
Uma parcela significativa da política local parece estar mais preocupada com a manutenção das estruturas de poder do que com os problemas reais enfrentados pelos cidadãos.

Episódio 3: A erosão da confiança
O maior patrimônio de um político não é o cargo.
Não é o salário.
Não é o gabinete.
Não é a influência.
É a confiança.
E confiança é um ativo extremamente difícil de construir e extremamente fácil de destruir.
Quando o cidadão vê operações policiais envolvendo agentes públicos.
Quando acompanha investigações.
Quando observa disputas internas movidas por interesses pessoais.
Quando presencia denúncias sucessivas relacionadas à gestão pública.
Quando percebe omissão diante de problemas que afetam diretamente a população.
A confiança começa a desaparecer.
E quando a confiança desaparece, surge algo ainda mais perigoso:
o descrédito institucional.
O eleitor deixa de desacreditar apenas em um político.
Ele passa a desacreditar na política.

Episódio 4: O abandono dos princípios constitucionais
A Constituição Federal de 1988 não foi escrita para servir aos governantes.
Ela foi criada para proteger a sociedade dos abusos do poder.
O artigo 37 da Constituição Federal estabelece que toda administração pública deve obedecer aos princípios da:
Legalidade.
Impessoalidade.
Moralidade.
Publicidade.
Eficiência.
O conhecido princípio do LIMPE.
Esses princípios não são sugestões.
Não são recomendações.
Não são conselhos.
São obrigações constitucionais.
Da mesma forma, a Lei Federal nº 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa) estabelece mecanismos para responsabilização de agentes públicos que atentem contra os princípios da administração pública.
Quando a moralidade deixa de ser prioridade.
Quando a eficiência é substituída por interesses políticos.
Quando a impessoalidade dá lugar ao favorecimento.
Quando a publicidade é trocada pelo silêncio.
O problema deixa de ser político.
Ele passa a ser institucional.

Episódio 5: A revolta silenciosa
O eleitor de Cianorte talvez esteja vivendo sua fase mais crítica de relacionamento com a política local.
Não se trata apenas de indignação.
Trata-se de cansaço.
Um cansaço coletivo.
O cidadão paga impostos.
Mantém a estrutura pública.
Financia salários.
Sustenta o funcionamento do Estado.
Mas frequentemente recebe em troca crises políticas, disputas de poder, denúncias e escândalos que parecem se repetir em ciclos.
A população começa a perceber algo simples:
o sistema político deveria existir para servir a sociedade.
Mas muitas vezes parece funcionar para servir a si próprio.

Episódio Final: O povo não trabalha para os políticos
Existe uma frase que precisa voltar a ser lembrada dentro das instituições públicas de Cianorte.
Os políticos não são donos dos cargos.
Os políticos não são proprietários do poder.
Os políticos não são superiores à população.
Pelo contrário.
São empregados da sociedade.
Todo vereador.
Todo secretário.
Todo prefeito.
Todo agente político.
Recebe sua autoridade diretamente do cidadão.
E isso significa que o respeito ao eleitor não é um favor.
É uma obrigação.
A política não pode continuar sendo tratada como ambiente de conveniências pessoais, proteção de grupos ou manutenção de privilégios.
A população de Cianorte merece mais.
Merece transparência.
Merece responsabilidade.
Merece ética.
Merece moralidade.
Merece representantes que compreendam que cada voto depositado nas urnas representa confiança.
E confiança não é cheque em branco.
É um contrato moral firmado entre o povo e seus representantes.
Quando esse contrato é quebrado, não é apenas um político que perde.
É toda a democracia que sai enfraquecida.
Talvez esteja chegando o momento de a sociedade cianortense lembrar aos seus representantes uma verdade simples, mas poderosa:
o poder pertence ao povo.
E quem recebe um mandato popular tem o dever de honrá-lo com dignidade, responsabilidade e respeito.
Porque, no final de toda grande série, existe sempre uma pergunta que define o desfecho.
E a pergunta que ecoa hoje em Cianorte é esta:
quem ainda está trabalhando pela população — e quem está trabalhando apenas para manter o sistema funcionando em benefício de poucos?


















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