Um Repensar Filosófico: Entre Clãs, Sombras e Novos Tempos
- Mirian Abreu

- 2 de out.
- 2 min de leitura
Há sociedades que, mesmo no século XXI, ainda respiram com pulmões envelhecidos. Sociedades que insistem em repetir gestos primitivos, rituais fossilizados, como o “clube dos homens” — esse espaço fechado, quase tribal, onde a exclusão da mulher é normalizada e defendida como tradição.

Não é curioso que, em plena era da conectividade e da interdependência, ainda se preserve o mesmo gesto infantil das brincadeiras de infância? “Homens aqui, mulheres lá.” Um costume que deveria ter se perdido com os jogos da infância sobrevive nos corpos adultos, mascarado de costume ou direito.
Mas o que revela, na verdade, é imaturidade social.
Platão já nos advertira, séculos atrás, com sua Alegoria da Caverna: muitos se contentam em viver entre sombras projetadas na parede, acreditando que aquilo é a realidade plena. Quando alguém tenta apontar a luz, é tratado com hostilidade, acusado de perturbar a ordem. Assim me sinto: como quem ousa levantar a voz para dizer que a realidade é maior, mais ampla, mais luminosa. Mas, como na alegoria, quem traz a notícia da luz é ridicularizado, posto de lado, considerado um problema.
Foucault, em sua análise sobre os espaços, mostrou como a sociedade organiza o poder através da separação: o dentro e o fora, o permitido e o interdito. Essa lógica ainda pulsa em práticas sociais que fingem ser inocentes, mas guardam uma estrutura de vigilância e exclusão. O espaço dos homens é concebido como legítimo, público, social. O das mulheres, ainda hoje, é o espaço doméstico, o lugar do silêncio, o não dito. E quando uma mulher ousa atravessar essas fronteiras, logo é acusada de desajuste, de inadequação.
Ser estrangeira, mulher e questionadora é tripla ousadia. A resistência não é apenas ao que digo, mas ao que represento: um convite à mudança, à atualização, à superação de práticas arcaicas. E a resposta é sempre a mesma: o silêncio, a exclusão, o preconceito.
E aqui me pergunto: não seriam justamente essas práticas de exclusão, essa recusa em abrir os espaços e atualizar as tradições, o motivo pelo qual tantas sociedades se atrasam em relação ao seu próprio tempo?
Quem recusa o comboio da mudança fica parado na estação da história. E o sol no horizonte não espera.
É preciso coragem para desafiar os costumes que já não servem. É preciso reconhecer que liberdade não nasce do isolamento, mas da partilha; que maturidade não se mede pela manutenção de clãs fechados, mas pela capacidade de abrir portas e integrar mundos.
O desafio é necessário.
Mudar é urgente.
Não basta apenas navegar os mares da tradição, repetindo rotas traçadas por mãos antigas.
É preciso reconfigurar os mapas, ousar outras direções, abrir espaço para novos ventos.
Porque não é apenas navegar que é preciso.
É repensar que é preciso.
Repensar os espaços, os gestos, os costumes.
Repensar a nós mesmos, para que a vida não seja apenas sombra na parede, mas luz que se expande.
Só assim as sociedades respiram, florescem e caminham ao encontro do tempo novo.
Mirian Abreu in: As grandes mudanças.
Um repensar filosófico : Entre Clãs, Sombras e Novos Tempos -
Crónicas compiladas, Outubro de 2025














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