TRUMP, MADURO E O ECO DO ALERTA DE NORIEGA
- Nelson Guerra

- 29 de ago.
- 3 min de leitura
(Depoimento de Tadeu França, ex-deputado federal constituinte)
Por Nelson Guerra
Às vésperas da COP30, o professor maringaense e deputado constituinte Tadeu França, prestes a completar 80 anos e com a lucidez intacta, oferece mais uma de suas lições de História — lembrando que ela é, por vezes, assustadoramente cíclica.
Entre o pretexto do combate internacional às drogas e a cobiça por petróleo e minerais estratégicos, velhos enredos se repetem, saltando de um século a outro.
Em missão oficial, o decano do Parlamento brasileiro sentiu na própria pele a pressão para deixar um país vizinho, após ouvir — da boca do líder militar Manuel Noriega — uma ameaça que, quatro décadas depois, ainda ressoa com inquietante atualidade. Suas memórias, agora revisitadas, convidam a uma reflexão urgente.

O recente envio de navios e aviões de guerra dos Estados Unidos para a costa da Venezuela foi oficialmente justificado como parte de uma operação contra o tráfico de drogas. Mas a coincidência geográfica e estratégica levanta suspeitas: a Venezuela detém mais de 300 bilhões de barris de petróleo comprovados no Cinturão do Orinoco — superando até as reservas da Arábia Saudita.
O governo Donald Trump, que recentemente reverteu concessões feitas por Joe Biden e restabeleceu sanções ao petróleo venezuelano sob a alegação de que Nicolás Maduro não cumpriu promessas eleitorais, também enviou destróieres e um grupo anfíbio com milhares de fuzileiros navais para a região. Especialistas apontam que, embora o contingente não seja suficiente para uma invasão em larga escala, a movimentação serve como recado político e demonstração de força.
O DÉJÀ-VU DO PANAMÁ
A estratégia não é nova. Em 1989, George H. W. Bush utilizou o mesmo argumento antidrogas para justificar a invasão do Panamá e a deposição de Manuel Noriega. O objetivo real, segundo críticos, era garantir o controle do Canal do Panamá, vital para o comércio marítimo global.
Na época, integrei uma delegação parlamentar brasileira convidada por Noriega. Encontramos um país já ocupado por 22 mil soldados norte-americanos, com caças e helicópteros, frente a uma força aérea panamenha de apenas seis aviões, sem armamento militar. A imprensa havia sido detida e nós, parlamentares, fomos ameaçados para deixar o país.
No esconderijo, Noriega nos deixou um aviso que ecoa até hoje:
"El brasileños, duerman con ojos abiertos por su Amazonia."
DO ORINOCO À AMAZÔNIA: O MAPA DA COBIÇA
Hoje, o alvo é Maduro. Amanhã, quem será? O interesse norte-americano não se restringe ao petróleo venezuelano. Trump já manifestou interesse em minerais estratégicos como nióbio, manganês, cobre, estanho e terras raras, além de áreas ricas em gás natural e petróleo — amplamente presentes na Amazônia brasileira.
Relatórios apontam que empresas e agentes estrangeiros já mapearam essas riquezas, muitas vezes em contato direto com comunidades indígenas. Sob o manto da “cooperação”, pode se ocultar a velha lógica de acesso privilegiado a recursos estratégicos.
BRICS COMO CONTRAPESO
Nesse cenário, fortalecer alianças como o BRICS não é apenas opção diplomática: é necessidade estratégica. A disputa global por energia e minerais críticos se intensifica, e a América do Sul — especialmente Brasil e Venezuela — ocupa posição central nesse tabuleiro.
O ALERTA QUE NÃO PODEMOS IGNORAR
Agora, enquanto líderes se reúnem em Belém para debater o futuro do planeta, as lembranças de Tadeu França soam como alerta: a História, cíclica e implacável, sempre encontra formas de retornar.
O que está em jogo não é apenas a soberania de um país vizinho, mas a integridade territorial e o controle sobre nossas próprias riquezas. O recado de Noriega, dado há décadas, é hoje mais atual do que nunca.
Se a História se repete, é porque não aprendemos a lição.
Tadeu Bento França :: Ex-deputado federal constituinte(depoimento ao comunicador Nelson Guerra)














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