Soberanias
- Célio Juvenal Costa

- 16 de jul.
- 4 min de leitura
Por Célio Juvenal Costa, professor da UEM
Chega um momento em nossa vida, para algumas pessoas mais cedo e para outras mais tarde, em que atingimos nossa autonomia. A maioria das pessoas chamam a isso de amadurecimento, ou seja, um estado em que passamos a não depender emocionalmente dos outros, e que passamos a pensar de forma autônoma. Passamos, também, a tomar decisões que respeitam a nossa vida e, também, passamos a ser responsáveis pelos nossos atos. Uma outra forma de encararmos é chamando isso de fase adulta da vida. Mas, ainda uma outra forma de analisarmos tal momento de um ser humano é pensarmos que ele atingiu a sua soberania.

Sabemos que tal processo não é linear e ocorre em diferentes momentos na vida das pessoas. Algumas atingem sua soberania mais cedo e outras mais tarde. Algumas, impulsionadas (ou premidas) por necessidades, especialmente materiais, têm que entrar na vida adulta mais cedo, e outras podem se dar ao luxo de esperar mais tempo, e algumas, por sua vez, estendem até bem mais do que a maioria das pessoas sua fase adolescente. De uns anos para cá, uma área da psicologia tem admitido uma nova fase na vida do ser humano: a adultescência, que atinge mais os homens do que as mulheres. O adultescente é aquele que do ponto de vista profissional é realizado, pois tem seu emprego, seu salário, seu carro, portanto, um adulto, mas que do ponto de vista emocional e das responsabilidades, continua um adolescente. Normalmente os adultescentes moram com os pais, pois assim eles têm roupa lavada, comida feita etc., e ao fazer isso eles acabam vivendo em um conflito permanente, pois quem mora com os pais admite que eles possam interferir em, ou ao menos questionar, sua vida. O adultescente, dessa forma, pelos laços de dependência (e conforto) que se mantém, apesar de sua independência material, abdicou de sua soberania. Claro que nem todos os adultos que moram com os pais são adultescentes, mas tem aumentado o número dessas pessoas que, por diversas razões, abrem mão de sua liberdade, que é condição para o exercício de sua soberania.
Mas, talvez precisemos convir que a tal da soberania não é mesmo muito fácil de ser exercida, pois acabamos por abrir mão de termos alguém que dirija a nossa vida, que nos diga o que deveríamos fazer, em troca de nos dar proteção contra as dificuldades da vida. Talvez queiramos, em algum momento, uma mão forte que aponte por onde devemos caminhar e quais caminhos devemos evitar. Algumas pessoas acabam por renunciar sua soberania numa relação amorosa por exemplo, deixando que a outra pessoa dite o que elas devem fazer, quais gostos devem ter, qual religião devem praticar, de que maneira devem cuidar e educar seus filhos. Em tal relação, a parte que renunciou sua soberania acabou por renunciar, também à sua própria vida, seus sonhos, seus desejos, seu amor-próprio. Muitas vezes a pessoa abre mão de sua soberania mediante a chantagem do outro: “se você não fizer as coisas como eu digo que é para fazer, você é que vai perder...”.
Por mais difícil que possa por vezes parecer, nós só conseguimos ser autênticos, pensar com nossa própria cabeça, desenvolver nossas crenças ou a falta delas, se exercitarmos a nossa soberania. Somente ela é o que define, de fato, nossa individualidade; somente no exercício de nossa soberania é que podemos, apesar de todos os condicionantes, nos sentirmos livres, com autonomia, e, assim, nos sentirmos fortes, a tal ponto que deixaremos de aceitar que outro, ou outros, imponham a nós a nossa forma de viver. Abrir mão da soberania individual é abrir mão de parte da nossa vida. Por mais difícil que seja, por mais dores que possam advir, por mais desafios que apareçam, por mais dúvidas que tenhamos se estamos fazendo as coisas de forma correta, por mais erros que cometamos, sentir-se donos de nossas vidas é fundamental para que continuemos crescendo como indivíduos. Claro que nesse processo contamos com parentes, amigos e até profissionais para nos ajudar com conselhos, exemplos e terapia, mas se realmente são pessoas que nos querem bem e querem nos ajudar, jamais vão interferir em nossa soberania.
Agora, se a soberania é fundamental para o indivíduo, imaginemos, então, para um país! O Brasil é um país soberano, que tem sua história, tem suas dores nos momentos de ditadura, mas que conquistou sua autonomia, com sua democracia, colocada especialmente à prova a cada quatro anos. O Brasil tem suas leis, suas instituições e, especialmente, tem o povo brasileiro que, apesar de suas diferenças ideológicas, não pode admitir que um presidente de um país com histórico imperialista, por mais poderoso que seja, faça chantagens para que abdiquemos de nossa soberania. Se cedermos à chantagem agora, se “passarmos pano” para o presidente norte-americano, abriremos mão de sermos uma nação independente e voltaremos a ser uma colônia, só que agora de um país que fala inglês e não português.
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