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Saber é poder (!?)

Por Célio Juvenal Costa, professor da UEM


Fico pensando às vezes o que faz com que pessoas se aferrem a certas certezas que não têm o menor fundamento na realidade ou na ciência. Das muitas hipóteses possíveis para responder a isso, uma que me ocorre é que as pessoas, no geral, se sentem empoderadas quando julgam que possuem um determinado saber, especialmente se tal saber diz respeito a algo tido como extravagante ou mesmo ligado a teorias da conspiração. De posse do suposto saber, se agarram a ele como algo precioso, que as distinguem do restante dos ignorantes, e desfrutam de um prazer, que é inerente ao poder.

  


O saber a que me refiro não é o que é produzido pelas pessoas, ou robôs, propositalmente como fake news, por exemplo, pois essas pessoas, ou quem programa os robôs, criam as notícias geralmente para fins políticos, pois sabem que há uma gama de outras pessoas que irão repassar aquilo como se verdades fossem. E não se trata apenas de fake news, mas, também, de teorias da conspiração, como as já clássicas ligadas ao terraplanismo e às anti-vacinas. As pessoas que acreditam nas notícias falsas e/ou teorias da conspiração (geralmente quem acredita nas primeiras, também acredita nas segundas) o fazem porque a fonte que chega para elas é, do seu ponto de vista, confiável, e, portanto, passíveis de ser repassadas. Em outras palavras, as pessoas que repassam se sentem empoderadas, de posse de verdades que a maioria das pessoas não têm. Nesse sentido, para elas, aquele saber gera uma sensação de poder.

 

Dias atrás vi um reel no instagram, que confesso não saber se era verdadeiro, em que um escrivão de polícia gravou uma pessoa que foi denunciar que o presidente Lula era, na verdade, um robô, pois ele já havia morrido e fizeram um clone humanoide dele, e que, portanto, o Brasil estava sendo enganado. Independente da veracidade do vídeo, eu já vi entrevistas realizadas durante manifestações de apoiadores do ex-presidente Bolsonaro, em que pessoas afirmavam que Lula já havia morrido e que quem governava o país era um sósia. Informações desse tipo, independentes se verdadeiras ou não, são veiculadas como um saber oculto para um determinado grupo, que empodera as pessoas ligadas a ele e fornece respaldo, inclusive psicológico, para convicções que se tornam praticamente inabaláveis. São inúmeros saberes desse tipo que são criados e veiculados para uma massa de pessoas que, ao acreditarem neles, passam a repassá-los como verdades, e como portadores dessas “verdades”, essas pessoas sentem que têm um poder em suas mãos, a ponto, por exemplo, de muitas invadirem as casas dos três poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, e não julgarem que estavam fazendo algo errado.

 

Os adeptos do terraplanismo afirmam, categoricamente, que a teoria que defendem está respaldada pela ciência, no caso, a “verdadeira” ciência, a que não se colocou a serviço da conspiração global, que envolveu governos, universidades, institutos etc., para convencer a população que a Terra é redonda e não plana. Fico imaginando o efeito psicológico que atua sobre a mente dessas pessoas, pois elas têm a convicção de que somente elas sabem a verdade e, portanto, elas se sentem extremamente poderosas. Da mesma forma, as pessoas que não acreditam nos efeitos benéficos das vacinas; o problema é que, neste caso, a convicção de que elas possuem o “verdadeiro” saber sobre a manipulação das pessoas que são vacinadas, afeta outras pessoas que ou deixam de ser imunizadas, como crianças, ou passam a conviver com doenças que estavam erradicadas. Se sentir com poder por acreditar que a Terra é plana é, digamos, inocente, pois na prática não afeta os que divergem de seu saber; se sentir com poder por crer que as vacinas são prejudiciais não é inocente, pois afeta aquelas pessoas que ou são dependentes seus ou que divergem de suas opiniões.

 

Há saberes e saberes. Há poderes e poderes. Nem todo saber resulta em poder. Nem todo poder emerge de um saber. Mas, muitas pessoas parecem gostar de se sentir com poder, ou fazendo parte de um poder, por terem ou partilharem de um saber que, apesar de não ser respaldado em nada evidente ou mesmo científico, confere a elas uma certa distinção em suas vidas. Talvez por experimentarem essa sensação de se sentirem importantes, pelo menos para um grupo, algumas pessoas realmente acreditam em fake news, e fazem questão de espalhá-las por aí, como se fosse um missão de levar a “verdade” aos “ignorantes”...

 

 

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

 

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