Quando o cansaço se torna lugar de encontro
- Christina Faggion Vinholo

- há 9 horas
- 2 min de leitura
Christina Faggion Vinholo, teóloga
Especialista em AtT e NT
Espiritualidade na meia-idade: mulheres, perdas, redefinições — e o Deus que se aproxima quando as forças diminuem.

Hoje eu quero falar com as mulheres.
Em especial, com aquelas que já caminharam bastante — e estão cansadas.
Falo com mulheres que atravessaram décadas cuidando, sustentando, servindo, resolvendo. Mulheres que já perderam coisas: juventude, papéis, pessoas, saúde, expectativas. Mulheres que, em algum momento da meia-idade, perceberam que o corpo mudou, o ritmo mudou, as emoções mudaram — e que a fé, silenciosamente, também começou a mudar.
A menopausa chega, muitas vezes, sem pedir licença. O envelhecimento se impõe. O luto aparece — às vezes pela morte de alguém amado, às vezes pela perda de quem fomos. Há redefinições profundas: de identidade, de lugar, de propósito. E quase nunca fomos ensinadas a olhar para tudo isso como espaço espiritual. Normalmente chamamos de crise. Deus, porém, pode estar chamando de encontro.
Vivemos em uma cultura que valoriza força, desempenho e constância. Aprendemos a ser mulheres que dão conta. Que seguem. Que não param. Que não falham. Mas chega um tempo em que o corpo diz “não”, a alma pede pausa, e a fé já não cabe mais em fórmulas prontas.
E isso não é decadência espiritual. Pode ser maturidade.
A Escritura não idealiza a mulher incansável. Ela nos apresenta mulheres reais, com corpos reais, histórias marcadas por espera, cansaço, esterilidade, perdas e silêncios. Mulheres que encontraram Deus não no auge da energia, mas no limite. Não quando tinham tudo sob controle, mas quando já não conseguiam mais sustentar as próprias forças.
Há um tipo de espiritualidade que só nasce quando o excesso cai.
Quando o fazer diminui.
Quando o corpo obriga a alma a ser honesta.
Na meia-idade, Deus frequentemente nos encontra não na produtividade, mas na verdade. Não no entusiasmo, mas na rendição. Não na resposta rápida, mas na pergunta sincera. É um tempo em que orações mudam de tom: deixam de ser pedidos ansiosos e se tornam suspiros. O silêncio passa a ensinar mais do que muitas palavras.
Talvez por isso essa fase seja tão pouco falada. Ela confronta uma espiritualidade que só sabe lidar com crescimento, conquista e avanço. Mas há um crescimento que acontece para dentro. Uma fé que aprofunda quando já não precisa provar nada.
O cansaço, aqui, não é sinal de fracasso. Pode ser convite.
Convite para uma fé menos performática e mais encarnada.
Para uma relação com Deus que não exige explicações imediatas, mas sustenta presença fiel.
Jesus nunca exigiu que mulheres cansadas se reinventassem antes de se aproximar. Ele ofereceu descanso. Água viva. Olhar digno. Palavra mansa. A espiritualidade madura não nos empurra para além do limite — ela nos encontra exatamente nele.
Para refletir
E se essa fase da vida não for uma crise a ser superada, mas um lugar sagrado a ser habitado?
E se o cansaço não for ausência de Deus, mas o espaço onde Ele fala mais baixo — e mais perto?
Talvez a fé que nasce na meia-idade não seja menor. Seja mais verdadeira.
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