Quando a neve cai fora de hora
- Christina Faggion Vinholo

- há 10 horas
- 2 min de leitura
Há algo de cinematográfico em uma grande nevasca.
As ruas silenciam. Os telhados se vestem de branco. As árvores, nuas do inverno, parecem esculturas desenhadas à mão pelo próprio céu.

Aqui no nordeste dos Estados Unidos, tudo ficou fechado — escolas, comércios, repartições. Apenas os serviços essenciais continuam funcionando. O cenário é digno de filme. Mas a vida real não é roteiro de cinema.
Porque, se por um lado a neve encanta, por outro ela pesa.
Pesa para quem só recebe se trabalhar.
Pesa para o pequeno comerciante que fecha as portas sem saber como ficará o caixa no final do mês.
Pesa para quem já vive no limite e agora precisa lidar com dias sem renda.
A beleza da neve não apaga a vulnerabilidade humana.
E há ainda um detalhe que inquieta: esta nevasca chega quando já deveríamos estar nos despedindo do frio, abrindo as janelas para a primavera. Ela parece fora de tempo. Deslocada. Como se a própria natureza estivesse descompassada.
Não é difícil pensar na agressão contínua do ser humano à criação. Poluição, consumo desordenado, exploração irresponsável. A criação geme — como escreveu o apóstolo Paulo — aguardando redenção. Há um desequilíbrio visível. A natureza responde.
Mas há algo maior que o clima.
Deus não perdeu o controle do céu.
Ele não foi surpreendido pela neve tardia.
Ele não se ausentou porque as estações parecem confusas.
A soberania de Deus não é ameaçada por tempestades — sejam meteorológicas, sejam existenciais.
Isso não significa que Ele se alegra com o sofrimento dos vulneráveis. Pelo contrário. Significa que, mesmo em um mundo afetado pelo pecado e por nossas próprias distorções, Ele continua sustentando cada floco que cai.
Há uma tensão aqui:
Somos responsáveis pelos nossos atos diante da criação.
E, ao mesmo tempo, dependemos inteiramente da providência divina.
A nevasca nos lembra da nossa pequenez. Nenhuma tecnologia impede que o céu se abra. Nenhuma agenda pessoal controla as estações. Somos criaturas — não soberanos.
Talvez por isso o silêncio branco que cobre tudo também nos convide à reflexão.
O que está fora de tempo na minha vida?
Que expectativas precisam ser ajustadas?
Onde eu tenho agido como se estivesse no controle das estações?
A primavera virá. Sempre vem.
Mas até lá, aprendemos a confiar.
Confiar que Deus continua governando os céus.
Confiar que Ele vê o trabalhador que perdeu o dia.
Confiar que Ele sustenta o que parece instável.
A neve cai.
O comércio fecha.
Os planos mudam.
Mas o trono permanece firme.
E é nessa certeza que descansamos — mesmo quando o inverno insiste em ficar.
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