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Quando a neve cai fora de hora

Há algo de cinematográfico em uma grande nevasca.


As ruas silenciam. Os telhados se vestem de branco. As árvores, nuas do inverno, parecem esculturas desenhadas à mão pelo próprio céu.



Aqui no nordeste dos Estados Unidos, tudo ficou fechado — escolas, comércios, repartições. Apenas os serviços essenciais continuam funcionando. O cenário é digno de filme. Mas a vida real não é roteiro de cinema.


Porque, se por um lado a neve encanta, por outro ela pesa.


Pesa para quem só recebe se trabalhar.

Pesa para o pequeno comerciante que fecha as portas sem saber como ficará o caixa no final do mês.

Pesa para quem já vive no limite e agora precisa lidar com dias sem renda.


A beleza da neve não apaga a vulnerabilidade humana.


E há ainda um detalhe que inquieta: esta nevasca chega quando já deveríamos estar nos despedindo do frio, abrindo as janelas para a primavera. Ela parece fora de tempo. Deslocada. Como se a própria natureza estivesse descompassada.


Não é difícil pensar na agressão contínua do ser humano à criação. Poluição, consumo desordenado, exploração irresponsável. A criação geme — como escreveu o apóstolo Paulo — aguardando redenção. Há um desequilíbrio visível. A natureza responde.


Mas há algo maior que o clima.


Deus não perdeu o controle do céu.

Ele não foi surpreendido pela neve tardia.

Ele não se ausentou porque as estações parecem confusas.


A soberania de Deus não é ameaçada por tempestades — sejam meteorológicas, sejam existenciais.


Isso não significa que Ele se alegra com o sofrimento dos vulneráveis. Pelo contrário. Significa que, mesmo em um mundo afetado pelo pecado e por nossas próprias distorções, Ele continua sustentando cada floco que cai.


Há uma tensão aqui:

Somos responsáveis pelos nossos atos diante da criação.

E, ao mesmo tempo, dependemos inteiramente da providência divina.


A nevasca nos lembra da nossa pequenez. Nenhuma tecnologia impede que o céu se abra. Nenhuma agenda pessoal controla as estações. Somos criaturas — não soberanos.


Talvez por isso o silêncio branco que cobre tudo também nos convide à reflexão.


O que está fora de tempo na minha vida?

Que expectativas precisam ser ajustadas?

Onde eu tenho agido como se estivesse no controle das estações?


A primavera virá. Sempre vem.

Mas até lá, aprendemos a confiar.


Confiar que Deus continua governando os céus.

Confiar que Ele vê o trabalhador que perdeu o dia.

Confiar que Ele sustenta o que parece instável.


A neve cai.

O comércio fecha.

Os planos mudam.


Mas o trono permanece firme.


E é nessa certeza que descansamos — mesmo quando o inverno insiste em ficar.


Instagram: @chrisvinholo

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