Quando a coerência sobe a bordo
- Christina Faggion Vinholo

- 10 de nov.
- 2 min de leitura
Por Christina Faggion Vinholo, teóloga, especialista em AT e NT.
A cada ano, a COP — Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudança Climática — reúne líderes de quase todos os países para discutir o futuro do planeta. É um evento que simboliza o desejo humano de preservar a criação, reduzir desigualdades e buscar soluções sustentáveis. Mas, neste ano, enquanto o Brasil sedia a COP em Belém, o debate ambiental ganhou outro rumo: o barco onde o presidente e sua comitiva estão hospedados virou manchete mundial.

Segundo dados divulgados pela imprensa, a embarcação que abriga o presidente durante o evento consome milhares de litros de diesel e tem diárias que ultrapassam dois mil reais por pessoa. A justificativa oficial fala em segurança e falta de hospedagem adequada na cidade — mas o episódio expõe algo que ultrapassa a questão política: a dificuldade humana de alinhar discurso e prática, especialmente quando se está em posição de visibilidade.
Antes de apontar o dedo, precisamos reconhecer: todos nós, em maior ou menor grau, travamos essa mesma luta. Pregamos sobre simplicidade, mas desejamos conforto. Falamos de cuidado com a criação, mas consumimos sem pensar. Reclamamos da incoerência dos outros, mas nem sempre examinamos as nossas. O problema do barco na COP é, em parte, o espelho do nosso próprio coração — um lembrete de que a incoerência começa nas pequenas escolhas.
A Bíblia não separa ética pública de fé pessoal. A mordomia dos recursos, a responsabilidade diante da criação e o compromisso com a verdade são dimensões de uma espiritualidade madura. O apóstolo Paulo exortou Timóteo a cuidar de si mesmo e da doutrina (1Tm 4.16), e esse princípio vale também para quem governa, ensina ou influencia: o que se crê deve se refletir no que se faz.
A crítica cristã, quando guiada pelo Espírito, não destrói; constrói. Ela não nasce do ódio, mas do amor à verdade. Questionar o uso de recursos públicos ou a coerência de discursos ambientais não é politizar a fé — é aplicá-la ao mundo real. O evangelho não nos chama a silenciar diante do erro, mas a falar com graça e coragem, lembrando que a transformação não vem pela condenação, mas pelo arrependimento.
A COP em Belém é uma oportunidade de olhar para além das manchetes e refletir sobre o tipo de mordomos que temos sido. O planeta geme — não apenas pela destruição ambiental, mas pela hipocrisia de quem o explora em nome do progresso. O Reino de Deus, porém, nos convida a outro caminho: o da coerência entre o que professamos e o que vivemos.
Que essa reflexão não se limite a líderes e governantes. Que ela nos alcance, nos desperte e nos transforme — para que, quando o mundo olhar para nós, veja em nossas palavras e atitudes não o ruído das contradições, mas o som discreto da verdade em prática.
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