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Perversão e ganância

Por Célio Juvenal Costa, professor da UEM


Perversão e ganância são duas palavras que estão presentes no ótimo e oportuno vídeo que o influenciador Felca fez sobre a relação entre adultização das crianças, redes sociais e pedofilia. Essas palavras por si só já são fortes de significado, mas quando juntas, uma servindo de escada para a outra, como Felca muito bem demonstra em seu vídeo, aí estamos diante de algo que precisa ser repercutido.

 

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Para quem não assistiu o vídeo de 50 minutos no Youtube é conveniente fazer uma síntese. Felca mostra, com detalhes perturbadores, como a exposição de crianças e adolescentes nas redes sociais, particularmente no Instagram, pode afetá-los, os expondo a uma rotina de produção de vídeos, relegando o brincar para um segundo plano, que visam a monetização, claro que para os pais ou os seus produtores. Mostra alguns exemplos de crianças e adolescentes que têm ou terão traumas que levarão para a vida adulta; mostra, particularmente, casos de adolescentes que são eroticamente expostas nas redes. Além disso, o que já seria um alerta muito bem vindo, o vídeo mostra, também com riqueza de detalhes, o movimento absurdo e criminoso que pedófilos fazem ao assistir e compartilhar em suas, igualmente criminosas, redes de distribuição de vídeos e fotos de crianças. A questão central deste ponto do vídeo é a denúncia da produção dos algoritmos nas redes sociais, particularmente no Instagram, especialmente do que ele chama de “algoritmo P” (de pedofilia), que é a maciça sugestão de perfis que mostram crianças e adolescentes em variados tipos de conteúdo digital. Inclusive Felca mostra, a partir de um exemplo, como acontece a ação do “algoritmo P” em poucos minutos, ao criar uma conta nova no aplicativo e começar a curtir perfis de crianças e adolescentes, e logo são sugeridos para ele somente reels desse tipo. Enfim, o vídeo de Felca é uma corajosa atitude, documentada, de como a ganância de pais e responsáveis é alimentada pela perversão de pedófilos. Quem está no meio e servindo como estímulo e elo? Crianças e adolescentes...

 

Sabemos há algum tempo da existência dos algoritmos, que nos sugerem, por meio de reels, de propagandas, de vídeos etc., aquilo que os robôs detectaram como sendo de nosso interesse. Eu, por exemplo, sou inundado em minha TL, por perfis e vídeos de gatos, de psicanálise e de política, pois sempre assisto, curto, envio para amigos, conteúdos relacionados. Sabemos, também, que com a monetização dos vídeos, das postagens em geral, nas redes, especialmente no caso aqui, no Instagram, há o aumento de engajamento, de seguidores e, é claro, o mais importante, gera dinheiro, fama, recebimento de produtos, enfim, poder. Creio que se perguntar aos adolescentes e jovens hoje o que querem ser no futuro, uma boa porcentagem irá responder influencers. Ser influencer está hoje para o que na minha época de adolescente, entre os meninos, estava ser jogador de futebol. Se livrar da escola, ou pelo menos, não vincular um sucesso pessoal aos estudos, ganhar dinheiro com coisas que no fundo são extensões de brincadeiras, é o desejo de muitas pessoas, creio que em todas as épocas. Mas, a ilusão que era o futebol profissional para a minha geração, me parece que é a mesma ilusão dos adolescentes e jovens hoje em relação às redes sociais. Poucos conseguem fazer dinheiro como influencers, menos ainda aqueles que conseguem fazer muito dinheiro e ter todos os benefícios de centenas de milhares ou de milhões de seguidores. O funil para o sucesso continua sempre muito estreito, pois é da natureza de nossa sociedade do consumo basear-se nele, pois faz parte da ideologia meritocrática inerente à nossa sociedade que se o topo fosse fácil, não teria sentido a escalada.

 

Mas, o problema maior é que as pessoas de forma geral são muito sensíveis a conteúdos digitais relacionados especialmente a crianças. Quem não se diverte ao ver uma criança fazendo coisas fofas na internet? Então, esses vídeos estão entre aqueles que têm muito potencial de bombarem e, consequente, de trazer e atrair dinheiro. A denúncia de Felca é em relação aqueles pais ou responsáveis que veem nos filhos uma fonte de riqueza, e passam a explorar ao máximo a fofura deles. As crianças deixam de viver sua infância e passam a ter uma rotina que inclui a produção digital do que vai ser monetizado; as crianças se tornam os verdadeiros provedores das suas famílias e, com isso, são jogadas para o mundo dos adultos. E, como geralmente as pessoas não se contentam em ganhar um dinheiro suficiente para, por exemplo comprar brinquedos para seus filhos ou providenciar uma educação em alguma boa escola, elas querem cada vez mais dinheiro, pois, com ele, como já dito antes, vem a fama, a bajulação, o poder. Portanto, Felca foi certeiro ao afirmar que a ganância dos adultos, e o que é pior, de pais, é a mola propulsora para a exposição das crianças.

 

O problema dos vídeos de crianças e adolescentes se torna maior por causa da alimentação que eles fazem das redes, sedentas, famintas, de pedófilos. Esse é o dado da perversão, a qual se alia, se beneficia, da ganância dos pais. Felca mostrou como pedófilos “carimbam”, por meio de comentários bastante específicos, postagens (fotos, vídeos, reels) que devem ser vistas e serem arquivadas para trocas, além de as crianças e adolescentes se tornarem possíveis alvos de investidas fraudulentas e criminosas por parte deles. Ou seja, além de exporem seus filhos nas redes por ganância, ainda alimentam a perversidade daqueles que veem as crianças como objetos de prazer. E, mesmo aqueles adultos que fazem postagens de seus filhos, especialmente crianças, sem que a monetização vire ganância, precisam saber que estão facilitando a vigilância de pedófilos.

 

Assim, são dois os problemas alertados: um que diz respeito aos pais e responsáveis pelas crianças e adolescentes, e, nesse caso, a tomada de consciência é individual, depende muito dos valores que se têm; o outro problema diz respeito às redes sociais, e aí sim, diz respeito à sociedade organizada, pois uma “simples” mudança no comando dos robôs, deixando de “algoritmizar” conteúdos digitais de crianças e adolescentes, já impediria uma das fontes de alimentação da pedofilia. Confesso que em uma sociedade de consumo desenfreado como a nossa, não sou otimista com a resolução do primeiro problema, mas, creio que a organização de setores da sociedade, com denúncias com a que fez Felca, podem resultar em mudanças nas redes sociais.

 

Termino aqui revelando minha ignorância quanto a quem são os influenciadores digitais, pois nem o próprio Felca eu conhecia. Meu tempo livre eu uso geralmente para assistir minhas séries e filmes e não para seguir pessoas e seus perfis.

 

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

 

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