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Patagônia em chamas e a luta contra o Terricídio

Os povos originários caminham com passos suaves e firmes há milênios e chegam hoje para nos convidar a adentrar em sua cosmovisão e propor uma renovação fundada na energia, na força, e no entendimento de que toda forma de existência cria e alimenta o círculo mágico da vida. Neste mês de janeiro de 2025 vimos devastações causadas pelos sionistas na Patagônia. Com o aval de um presidente que teve a motosserra como símbolo eleitoral e a promessa de devastação, os israelenses estão atacando às florestas com seus animais e pessoas que vivem em harmonia com ela. As mulheres mapuche fizeram a denúncia nas redes sociais, os incêndios criminosos visam a expansão territorial e aniquilam toda a forma de vida. 


    

Moira Millán é uma ativista e escritora mapuche que esteve em novembro no Brasil para lançar o seu último livro: Terricídio: sabedoria ancestral para um mundo alterNATIVO. Nasceu em 20 de agosto de 1970, em Maitén, província de Chubut, na Argentina. Seus familiares trabalharam como ferroviários. Moira é uma weychafe (guerreira na língua mapudungun) e integra o Movimento de Mulheres Indígenas pelo Bem Viver. Lutou muitos anos para a recuperação de terras para o seu povo. Desde a década de 1990 ela tem se mobilizado em lutas pelos direitos do seu povo, contra o terricídio e o feminicídio de suas irmãs indígenas.


Na cosmovisão do povo Mapuche, os rios, as montanhas, as florestas, os animais não são recursos ou propriedades, são parte de um todo que compõe a Terra. Os povos originários partem de uma outra epistemologia, não colonial e não eurocentrada, nela não há espaço para a dualidade entre terra e humanidade. Tudo é natureza. O ser humano também é natureza e é terra. O ser humano depende da terra e não o contrário. A terra iria prosperar sem o ser humano caso não haja uma mudança de comportamento e na relação corpo/território. A destruição do território é a destruição dos corpos humanos.


Moira Millán nos lembra que o colonizador estabeleceu fronteiras no território que já era habitado. Entre as formas de dominação estava a proibição de rituais ancestrais, o roubo das terras indígenas, subjugar os povos e impor sua maneira de conceber e estar no mundo. O modo de vida acumulativo, gregário e racista gerou um mundo doente, com pessoas e territórios adoecidos por uma forma de ocupação altamente predatória e destrutiva. Exemplo disso, para ela, são as criações de animais para abate e os abatedouros onde se produz “carne torturada”. São animais e trabalhadores da indústria da carne que vivenciam violências diárias que resultam na morte em massa e na debilidade física e emocional.


Para ela é necessário o despertar telúrico. A humanidade precisa aprender sobre a visão existencial dos povos originários, que não fazem distinção entre animais, rios, cachoeiras, montanhas, terra, vento e seres espirituais. A floresta é uma entidade viva e pulsante, consciente e detentora de direitos. As plantas são sagradas e guardam os segredos da medicina tradicional. As mulheres são guardião destes segredos milenares repassados às novas gerações através da oralidade.


Moira impulsionou o Movimento de Mulheres Indígenas pelo Bom Viver, que questiona o mito da Argentina branca através da invisibilização dos povos originários. O modelo de Democracia ocidental, para ela, é assentado no racismo e no terricídio. Para ela é necessário construímos uma Terracracia, onde a terra seja o centro de nossas preocupações e ações. Neste modelo não cabe a Universidade tal como a concebemos atualmente, para uma cosmovisão deveria haver uma Pluriversidade, para agregar outras culturas, povos e epistemologias.


Além disso, é preciso enfatizar que antes do feminismo os povos mapuche já eram antipatriacais. Os povos tinham uma perspectiva política, ideológica e filosófica oposta ao do colonizador. Desde suas origens havia uma perspectiva de equidade, espiritualidade e respeito à Terra.


A militarização dos territórios responde aos interesses internacionais do imperialismo e do patriarcado. Os ataques criminosos dos sionistas na Patagônia representam uma nova investida do capitalismo, uma investida mais tecnológica, mortal e destrutiva. O que assistimos é a barbárie, os genocidas que devastaram a Palestina, agora estão em disputa territorial no sul da América Latina. É um alerta para os povos originários e, sobretudo para as mulheres, que são as maiores vitimas das guerras. Mapuches resistem e ensinam que somos a Terra, só nos resta abraçar o despertar telúrico.

 

Patrícia Lessa – Doutora em História, educadora (UEM) e escritora, mais dados em: https://patricialessa.com.br/.

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