Orelha e o retrato de uma geração sem temor
- Christina Faggion Vinholo

- há 2 dias
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Christina Faggion Vinholo, teóloga
Especialista em AT e NT
O caso do cachorro Orelha, torturado e espancado por quatro adolescentes, não é apenas uma notícia triste nem um episódio isolado de violência. É um retrato. Um retrato cruel e revelador de uma geração que perdeu o temor, onde a consciência se dilui no grupo e a crueldade encontra espaço para se manifestar sem freios. O que foi feito a Orelha expõe não apenas atos individuais, mas um tempo em que o mal já não causa espanto e a vida do outro — mesmo a mais indefesa — pode ser violentada sem tremor na alma.

A pergunta inevitável não é apenas “como puderam fazer isso?”, mas “o que acontece com o coração humano quando ninguém teme a Deus?”.
A Bíblia não se surpreende com esse tipo de mal. Desde Gênesis, ela nos apresenta uma verdade que o mundo moderno insiste em negar: o ser humano não é moralmente neutro. Após a queda, o pecado não apenas entrou no mundo; ele passou a organizar o mundo.
“E viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que toda inclinação dos pensamentos do seu coração era continuamente má.” (Gênesis 6:5)
Há pecados que talvez não cometêssemos sozinhos, mas que em grupo nos tornamos capazes de praticar. A responsabilidade se fragmenta, a consciência se cala, e o mal encontra aplauso silencioso. É assim desde Babel, onde o “façamos” humano se levanta contra Deus, até Jerusalém, quando uma multidão grita em uníssono: “Crucifica-o”.
O mal coletivo sempre foi mais perigoso do que o mal individual, porque ele normaliza a violência e anestesia a culpa.
A Escritura é clara ao tratar da crueldade — inclusive contra os animais. “O justo atenta para a vida dos seus animais, mas o coração dos ímpios é cruel.” (Provérbios 12:10)
Crueldade não é brincadeira. Não é imaturidade. Não é falta de noção. É fruto de um coração endurecido, desconectado da imagem de Deus no outro — ainda que esse “outro” seja um animal indefeso.
No caso de Orelha, a violência foi tão extrema que não houve possibilidade de recuperação. Seus ferimentos foram graves demais. O sofrimento imposto a ele foi irreversível. Por isso, Orelha precisou ser submetido à eutanásia. A crueldade não apenas feriu — ela matou. Ainda que indiretamente, ainda que dias depois, foi o pecado humano que selou aquele fim.
Isso importa ser dito, porque o pecado nunca termina onde começou. Ele sempre produz desdobramentos. Sempre cobra um preço maior do que o inicialmente imaginado.
Quando adolescentes são capazes de torturar juntos, o problema não é apenas etário. É espiritual, moral e coletivo. É o retrato de uma geração ensinada a consumir tudo — inclusive a dor — sem responsabilidade, sem limites e sem temor.
Jesus nos advertiu: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.” (Mateus 24:12)
Não se trata apenas de violência crescente, mas de insensibilidade crescente. O amor não desaparece de uma vez; ele esfria aos poucos. Primeiro, a dor do outro vira entretenimento. Depois, vira estatística. Por fim, vira indiferença.
Como se não bastasse a brutalidade do ato, surgem ainda relatos perturbadores de tentativas de silenciar testemunhas, de abafar a verdade, de proteger nomes, reputações e posições sociais. Quando famílias e estruturas entram em cena não para confrontar o mal, mas para escondê-lo, o pecado deixa de ser apenas cometido — ele passa a ser defendido.
A Bíblia também conhece bem esse mecanismo. “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal.” (Isaías 5:20)
O encobrimento da injustiça é uma segunda violência. Ele agrava a culpa. Ele comunica que algumas vidas valem menos, e que alguns culpados valem mais. É assim que sistemas adoecem: quando a verdade é sacrificada para preservar privilégios.
Na Lei mosaica, a violência gratuita, a crueldade e o desprezo pela vida não passavam sem resposta. A justiça de Deus sempre teve caráter pedagógico: o pecado precisava ser confrontado, não relativizado.
A sociedade moderna, porém, vive um paradoxo inquietante: jovens são considerados maduros para votar, dirigir, ingressar na universidade e decidir rumos políticos — mas não para responder plenamente por atos de extrema crueldade. O resultado é uma mensagem perigosa: o mal pode sair barato.
O nome disso é impunidade.
Mas a Escritura nos lembra que, ainda que tribunais falhem, Deus não falha. “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; tudo o que o homem semear, isso também ceifará.” (Gálatas 6:7)
A justiça humana pode ser parcial, tardia ou inexistente. A divina, nunca.
Desde Adão, aprendemos que o pecado sempre gera consequências. O perdão não apaga a realidade do dano causado. Há redenção em Cristo — gloriosa, profunda, suficiente — mas nunca barata.
A cruz não é a negação da justiça; é a prova de que Deus leva o pecado a sério demais para simplesmente ignorá-lo. “Porque o salário do pecado é a morte…” (Romanos 6:23)
Se houve cruz, é porque houve culpa.
Se houve sangue, é porque o pecado é grave.
Se houve graça, é porque Deus decidiu salvar, não fingir que nada aconteceu.
No Reino de Deus, não existe impunidade. Existe arrependimento, confissão, justiça e, pela graça, restauração. Mas ninguém passa ileso pelo mal que pratica — seja diante dos homens, seja diante de Deus.
O que mais assusta não é apenas o que foi feito ao cachorro Orelha. É a facilidade com que uma sociedade inteira segue em frente, como se fosse apenas mais uma notícia triste.
Quando a crueldade já não nos escandaliza, algo em nós já morreu.
Este não é um texto de ódio, mas de denúncia. Porque amar a verdade exige chamar o pecado pelo nome. Silenciar diante do mal não é neutralidade; é cumplicidade.
Que Deus nos livre de um coração endurecido.
Que Ele nos devolva o temor.
Que nos ensine a chorar onde hoje apenas rolamos a tela.
E que nunca nos esqueçamos: a maldade humana tem consequências. Sempre teve. Sempre terá.
Há redenção em Cristo.
Mas não há impunidade no Reino.
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E-mail: chrisvinholo@gmail.com












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