Operação Big Fish: Prisões em Cianorte e o Cenário Político para frente...
- Marcio Nolasco

- 7 de abr.
- 7 min de leitura
Atualizado: 8 de abr.
A Operação Big Fish (também referida como Bigfish) é uma ação de grande impacto deflagrada pela Polícia Civil do Paraná hoje, 7 de abril de 2026, com foco direto na cidade de Cianorte.
Abaixo, caro leitor destaco os principais pontos e os desdobramentos dessa operação:
Foco da Operação
A investigação mira uma organização criminosa especializada na exploração de jogos de azar e em esquemas de lavagem de dinheiro na região. A operação mobilizou dezenas de policiais e contou com o apoio de dois helicópteros da Polícia Civil para cumprir os mandados.
Prisões e Alvos em Cianorte
O desdobramento mais notável em Cianorte foi a prisão de uma figura política central:
Victor Hugo Davanço: O atual presidente da Câmara Municipal de Cianorte foi preso preventivamente nesta terça-feira por suposto envolvimento com organização criminosa.

Outros Detidos: Cerca de 30 pessoas foram conduzidas à delegacia durante a ação. Enquanto a maioria foi liberada após prestar esclarecimentos, seis mandados de prisão foram expedidos no total para serem cumpridos na região.
Desdobramentos e Apreensões
Além das prisões, a polícia executou 13 mandados de busca e apreensão. Os resultados imediatos incluem:
Cidades Atingidas: Além de Cianorte, a operação se estendeu para cidades vizinhas como Goioerê, Campo Mourão e Cascavel.
Material Apreendido: Foram confiscados diversos objetos vinculados à prática ilícita e quantias significativas de dinheiro em espécie.
Apoio Interestadual: A Polícia Civil de Valparaíso (GO) prestou apoio logístico e operacional nas diligências.
Nota: A Câmara Municipal de Cianorte já emitiu uma nota oficial e as investigações continuam para identificar outros membros da rede e o destino dos valores movimentados pelo grupo.

Fundamentação Jurídica para Prisão de Victor Hugo Davanço
A fundamentação jurídica mencionada refere-se à Lei de Organizações Criminosas (Lei nº 12.850/2013). Quando o mandado cita especificamente o Artigo 2º, § 3º, ele não está apenas acusando a pessoa de fazer parte do grupo, mas sim de ocupar uma posição de liderança.
Aqui está o desdobramento detalhado do que isso significa no Código Penal:
1. O Artigo 2º: O Crime de Pertencer
O caput (o início) do Artigo 2º define o crime de promover, constituir, financiar ou integrar organização criminosa. A pena base para quem apenas participa é de 3 a 8 anos de reclusão.
2. O Parágrafo 3º: A Qualificadora de Comando
É aqui que a situação se torna mais grave para o alvo do mandado. O texto diz exatamente o seguinte:
“§ 3º A pena é agravada de 1/6 (um sexto) a 2/3 (dois terços) para quem exerce o comando, individual ou coletivo, da organização criminosa, ainda que não pratique pessoalmente atos de execução.”
O que isso significa na prática?
Papel de Liderança: O Tribunal de Justiça entende, com base nas provas colhidas, que o indivíduo não era apenas um "membro comum", mas alguém que exercia funções de chefia, direção ou tomada de decisão estratégica dentro do esquema.
Responsabilidade Indireta: O parágrafo deixa claro que, para ser punido como líder, ele não precisa ter "sujado as mãos" diretamente (como operar uma máquina de jogo ou transportar dinheiro). O simples fato de dar as ordens ou coordenar a estrutura já configura o agravante.
Aumento de Pena: Se houver condenação, o juiz pegará a pena base (os 3 a 8 anos mencionados acima) e obrigatoriamente somará o adicional pela posição de comando, o que pode elevar consideravelmente o tempo de prisão.
Resumo do Cenário Jurídico
A Justiça do Paraná, ao utilizar esse dispositivo, sinaliza que considera Vitor Hugo Davanço seria uma das peças centrais da organização investigada na Operação Big Fish, atribuindo a ele a responsabilidade pela articulação ou sustentação do grupo criminoso em Cianorte. Basta agora no decorrer do processo no judiciário seus defensores provarem sua inocência.
Nota da Defesa do Vereador:

Como Fica o Cenário Político Agora?
A prisão de Victor Hugo Davanço, especialmente sob a acusação de liderança em organização criminosa (Art. 2º, § 3º da Lei 12.850), gera um abalo sísmico na política de Cianorte. Como ele foi o vereador mais votado em 2024 e ocupa a presidência da Câmara, os desdobramentos atingem tanto a estrutura administrativa quanto o tabuleiro eleitoral para 2026.
Agora caro leitor, vejamos os principais pontos de mudança no cenário:
1. Sucessão e Comando da Câmara
A curto prazo, a prioridade é a estabilidade do Legislativo:
Assunção do Vice-Presidente: Com o afastamento ou prisão preventiva do presidente, o Vice-Presidente da Mesa Diretora (atualmente Afonso Lima, do AVANTE) assume interinamente o comando da Casa.
Processo de Cassação: A Câmara pode enfrentar pressão popular e interna para abrir uma Comissão Processante. Se as investigações avançarem e houver quebra de decoro parlamentar, Victor Hugo pode enfrentar um processo de cassação de mandato. Seria o 4º processo de cassação em Cianorte.
2. Desgaste da "Nova Política" Local
Victor Hugo construiu sua imagem baseada no conceito de "Mandato Participativo" e teve uma ascensão meteórica, quase sendo eleito prefeito em 2020.
Crise de Imagem: A tipificação de "liderança" em um esquema de jogos de azar e lavagem de dinheiro atinge diretamente o discurso de renovação e transparência que o elegeu com votação recorde (2.373 votos).
Impacto no Partido (Podemos): O partido perde sua principal força regional, o que pode forçar uma reestruturação das alianças para as eleições estaduais e federais de outubro de 2026.
3. Reconfiguração para as Eleições de 2026
O vácuo deixado por uma liderança tão expressiva altera as estratégias:
Espólio Eleitoral: Outros vereadores influentes, como Afonso Lima e Coronel Elias, podem ganhar mais protagonismo na disputa por votos da centro-direita e do eleitorado que busca "ordem e segurança".
Fortalecimento do Executivo ou Oposição: Dependendo de quão próximas eram as relações políticas de Davanço com a atual administração municipal, o governo de Marco Franzato pode tentar se distanciar rapidamente para evitar o "contágio" da imagem negativa da operação, se é que já não fez isso!
4. Clima de Insegurança Institucional
A Operação Big Fish não se limita a um indivíduo; ela investiga uma rede.
Efeito Dominó: A cidade agora vive a expectativa de saber se haverá novos nomes do alto escalão político ou empresarial mencionados nas delações ou materiais apreendidos (como os celulares e documentos recolhidos hoje).
"Cianorte sai de um estado de normalidade política para um período de exceção e vigilância, onde a credibilidade das instituições será testada pela velocidade e rigor com que a Câmara Municipal responderá à prisão de seu próprio presidente. Ficará provado de uma vez quem comanda o legislativo municipal!". Marcio Nolasco
O que diz a Justiça!
MPPR e Polícia Civil realizam operação para desarticular uma das maiores organizações criminosas de jogos de azar do Brasil
O Ministério Público do Paraná e a Polícia Civil do Paraná encerraram nesta quarta-feira, 8 de abril, a Operação Big Fish, com o objetivo de desarticular uma das maiores organizações criminosas voltadas à exploração de jogos de azar no Paraná e possivelmente no Brasil, caracterizada pelo alto grau de sofisticação, uso intensivo de tecnologia e ampla capilaridade territorial e financeira. Durante dois dias de operação (7 e 8 de abril), foram cumpridos mandados de prisão preventiva contra 85 alvos, além de 102 mandados de busca e apreensão contra 90 investigados.

A maior parte das ordens judiciais foi executada em Cianorte, no Noroeste do estado, onde funcionava a base operacional da organização. Também houve cumprimento de medidas em outras regiões do Paraná, nos municípios de Londrina, Apucarana, Campo Mourão, Terra Boa, Engenheiro Beltrão, Paraíso do Norte, Mandaguaçu, Alvorada do Sul, Curitiba, Pinhais, Medianeira, Marechal Cândido Rondon, Faxinal, Sabáudia e Goioerê, bem como em cidades dos estados de Goiás, São Paulo, Pará e Santa Catarina.
Esquema sofisticado – As investigações, coordenadas pela 5ª Promotoria de Justiça de Cianorte, evidenciaram a existência de um esquema criminoso estruturado de forma hierarquizada e segmentada em núcleos distintos — liderança, financeiro, tecnológico e operacional —, com funções específicas e interdependentes, atuando de maneira coordenada para viabilizar e expandir as atividades ilícitas em diversas regiões. Apurou-se, ainda, que os líderes utilizavam familiares para ocultar patrimônio obtido com as atividades ilícitas, delegando a eles a gestão de empresas e a movimentação de valores, mas mantendo o controle efetivo das operações.
Um dos principais diferenciais da organização era o uso intensivo de tecnologia, com destaque para o sistema denominado “Suni”, desenvolvido por um dos líderes do grupo em Cianorte. A ferramenta funcionava como plataforma central de gestão, transmissão e controle das apostas ilegais realizadas por meio de máquinas POS (Point of Sale), integrando, em tempo real, as diversas ramificações da organização. O sistema era utilizado em pelo menos 14 estados, por dezenas de bancas de jogo do bicho, totalizando mais de 15 mil pontos de exploração.
Além do sistema “Suni”, a organização operava por meio de diversas plataformas digitais voltadas à exploração ilegal, incluindo jogo do bicho, máquinas caça-níquel, apostas esportivas e jogos de azar online, inclusive o popularmente conhecido “tigrinho”. Esses sistemas eram hospedados em servidores no exterior, o que dificultava a atuação dos órgãos de persecução penal e evidencia o elevado grau de sofisticação tecnológica do grupo.
Lavagem de dinheiro – As apurações demonstraram ainda que a organização utilizava empresas de fachada, interpostas pessoas (“laranjas”) e facilitadoras de pagamento para ocultar e dissimular a origem ilícita dos valores obtidos, com uso de técnicas típicas de lavagem de dinheiro, como a fragmentação de valores e a mescla de recursos ilícitos com receitas aparentemente lícitas. Durante o período de atuação, o grupo movimentou cerca de R$ 2 bilhões, em mais de 522 mil operações financeiras.
O trabalho investigativo também identificou a integração entre diferentes organizações criminosas, inclusive com ligação entre o núcleo sediado em Cianorte e grupos atuantes em outros estados, especialmente em Goiás (que contava com membros ligados a um conhecido contraventor), formando uma rede que fornecia estrutura tecnológica, equipamentos e suporte operacional para a exploração de jogos ilegais em diversas regiões do país.
Bloqueio de bens – Além dos mandados de prisão, foram cumpridas 184 ordens judiciais de bloqueio de contas bancárias, visando ao sequestro de aproximadamente R$ 1,5 bilhão. Também foi determinado o sequestro de 132 veículos (avaliados em mais de R$ 11 milhões), 111 imóveis (avaliados em mais de R$ 32,9 milhões) e mais de 100 cabeças de gado. Ainda, 21 sites de apostas ilegais foram retirados do ar.
Entre os presos estão dois vereadores — o presidente da Câmara de Cianorte e o vice-presidente da Câmara de Goioerê —, o que evidencia o grau de infiltração da organização criminosa no poder público.
Coletiva de imprensa – Às 11 horas desta quarta-feira, 8 de abril, as autoridades que coordenaram a operação estarão disponíveis para esclarecer dúvidas da imprensa na Delegacia Cidadã de Cianorte (Avenida Maranhão, 651, Zona do Armazém).
Áudio do Promotor de Justiça Filipe Assis Coelho













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