top of page
572954291_18300745243267772_2025636869234957554_n.jpg

O perigo de um evangelho que não sabe lidar com o sofrimento

Christina Faggion Vinholo,teóloga

Especialista em AT e NT


Há dores que não pedem explicação. Pedem presença.


Ainda assim, com frequência, o que oferecemos são respostas rápidas: um versículo isolado, uma frase espiritual bem-intencionada, uma tentativa apressada de dar sentido ao sofrimento alheio — como se a dor fosse um problema a ser resolvido, e não uma realidade humana a ser acolhida.



Simplificamos o sofrimento porque ele nos desconcerta. A dor do outro nos lembra da nossa fragilidade, da nossa falta de controle, do mistério que envolve a ação de Deus no mundo. E então recorremos a textos bíblicos fora de contexto, usados quase como anestesia emocional: “Tudo coopera para o bem”, “Deus está no controle”, “É só ter fé”. Verdades bíblicas, sim — mas perigosas quando aplicadas sem cuidado, sem tempo, sem escuta.


A Escritura afirma com clareza que Deus reina, que nada escapa à sua soberania, que a história não está à deriva. O problema não está nessa verdade, mas na forma como ela pode ser usada para silenciar o lamento, apressar o consolo ou espiritualizar a dor do outro.


A Bíblia não trata o sofrimento de maneira superficial. Ela o leva a sério. Os Salmos estão cheios de clamores que não escondem angústia nem dúvida. Jó não recebe respostas simples, mas um encontro com um Deus maior do que suas perguntas. Profetas choram, homens e mulheres de fé se esgotam, e até o apóstolo Paulo fala de uma aflição além das forças. A fé bíblica nunca prometeu um caminho sem dor — ela oferece a presença de Deus no meio dela.


E então olhamos para Jesus.


Diante da morte de Lázaro, Ele não começa com uma explicação teológica, embora tivesse todas. O texto registra algo profundamente revelador: “Jesus chorou.” O Filho de Deus, plenamente consciente da ressurreição que viria, escolhe primeiro compartilhar a dor. Ele entra no sofrimento antes de transformá-lo. Jesus não apressa o consolo. Ele se compadece.


Isso nos ensina algo essencial.


O evangelho não nos autoriza a interromper o lamento do outro com respostas prontas. Pelo contrário, ele nos chama a carregar o peso da dor alheia com respeito e humildade. Um evangelho que não sabe lidar com o sofrimento corre o risco de produzir culpa em quem já está ferido: culpa por não reagir “do jeito certo”, por não ter fé suficiente, por não se recuperar no tempo esperado.


A cruz nos mostra que Deus não permanece distante da dor humana. Ele entra nela. Não para explicá-la de imediato, mas para redimi-la. A esperança cristã não nasce da negação do sofrimento, mas da certeza de que Deus está presente mesmo quando o silêncio parece mais alto do que as respostas.


Talvez o maior desafio da espiritualidade madura seja aprender a ficar. Escutar. Chorar junto. Orar sem pressa de resolver. Confiar que há um trabalho sendo feito no invisível — um trabalho que não depende das nossas palavras, mas da graça de Deus.


E se, em vez de oferecermos explicações rápidas, oferecêssemos presença?

E se, em vez de tentarmos dar sentido imediato à dor, aprendêssemos a caminhar com quem sofre?


Talvez o evangelho que mais se pareça com Jesus seja aquele que sabe esperar — e chorar — antes de falar.



Instagram: @chrisvinholo

Comentários


00:00 / 01:04
3133.png

Nota do editor: os textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nos espaços “colunas” não refletem necessariamente o pensamento do bisbilhoteiro.com.br, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

* As matérias e artigos aqui postados não refletem necessariamente a opinião deste veículo de notícias. Sendo de responsabilidade exclusiva de seus autores. 

Portal Bisbilhoteiro Cianorte
novo-logotipo-uol-removebg-preview.png

Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

Selo qualidade portal bisbilhoteiro

Bisbi Notícias: Rua Constituição 318, Zona 1 - Cianorte PR - (44) 99721 1092

© 2020 - 2025 por bisbinoticias.com.br - Todos os direitos reservados. Site afiliado do Portal Universo Online UOL

 Este Site de é protegido por Direitos Autorais, sendo vedada a reprodução, distribuição ou comercialização de qualquer material ou conteúdo dele obtido, sem a prévia e expressa autorização de seus  criadores e ou colunistas.

bottom of page