O perigo de um evangelho que não sabe lidar com o sofrimento
- Christina Faggion Vinholo

- há 20 horas
- 2 min de leitura
Christina Faggion Vinholo,teóloga
Especialista em AT e NT
Há dores que não pedem explicação. Pedem presença.
Ainda assim, com frequência, o que oferecemos são respostas rápidas: um versículo isolado, uma frase espiritual bem-intencionada, uma tentativa apressada de dar sentido ao sofrimento alheio — como se a dor fosse um problema a ser resolvido, e não uma realidade humana a ser acolhida.

Simplificamos o sofrimento porque ele nos desconcerta. A dor do outro nos lembra da nossa fragilidade, da nossa falta de controle, do mistério que envolve a ação de Deus no mundo. E então recorremos a textos bíblicos fora de contexto, usados quase como anestesia emocional: “Tudo coopera para o bem”, “Deus está no controle”, “É só ter fé”. Verdades bíblicas, sim — mas perigosas quando aplicadas sem cuidado, sem tempo, sem escuta.
A Escritura afirma com clareza que Deus reina, que nada escapa à sua soberania, que a história não está à deriva. O problema não está nessa verdade, mas na forma como ela pode ser usada para silenciar o lamento, apressar o consolo ou espiritualizar a dor do outro.
A Bíblia não trata o sofrimento de maneira superficial. Ela o leva a sério. Os Salmos estão cheios de clamores que não escondem angústia nem dúvida. Jó não recebe respostas simples, mas um encontro com um Deus maior do que suas perguntas. Profetas choram, homens e mulheres de fé se esgotam, e até o apóstolo Paulo fala de uma aflição além das forças. A fé bíblica nunca prometeu um caminho sem dor — ela oferece a presença de Deus no meio dela.
E então olhamos para Jesus.
Diante da morte de Lázaro, Ele não começa com uma explicação teológica, embora tivesse todas. O texto registra algo profundamente revelador: “Jesus chorou.” O Filho de Deus, plenamente consciente da ressurreição que viria, escolhe primeiro compartilhar a dor. Ele entra no sofrimento antes de transformá-lo. Jesus não apressa o consolo. Ele se compadece.
Isso nos ensina algo essencial.
O evangelho não nos autoriza a interromper o lamento do outro com respostas prontas. Pelo contrário, ele nos chama a carregar o peso da dor alheia com respeito e humildade. Um evangelho que não sabe lidar com o sofrimento corre o risco de produzir culpa em quem já está ferido: culpa por não reagir “do jeito certo”, por não ter fé suficiente, por não se recuperar no tempo esperado.
A cruz nos mostra que Deus não permanece distante da dor humana. Ele entra nela. Não para explicá-la de imediato, mas para redimi-la. A esperança cristã não nasce da negação do sofrimento, mas da certeza de que Deus está presente mesmo quando o silêncio parece mais alto do que as respostas.
Talvez o maior desafio da espiritualidade madura seja aprender a ficar. Escutar. Chorar junto. Orar sem pressa de resolver. Confiar que há um trabalho sendo feito no invisível — um trabalho que não depende das nossas palavras, mas da graça de Deus.
E se, em vez de oferecermos explicações rápidas, oferecêssemos presença?
E se, em vez de tentarmos dar sentido imediato à dor, aprendêssemos a caminhar com quem sofre?
Talvez o evangelho que mais se pareça com Jesus seja aquele que sabe esperar — e chorar — antes de falar.
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