O generalista sobrevive? Por que a "profundidade" é cada vez mais crucial no mundo dos Negócios?
- Kaio Feroldi Motta

- há 2 dias
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Por: Kaio Feroldi Motta.
Administrador; Especialista em Gestão Hospitalar; Mestre Organizações & Empreendedorismo.
‘Cada macaco no seu galho’. Você com certeza já ouviu esse ditado, que mais tem a ver com cuidar da sua própria vida e se ater às suas responsabilidades, sem se intrometer nos assuntos dos outros. Isso até pode fazer na vida pessoal, mas no mercado de trabalho, no mundo dos negócios a máxima corporativa de que ‘o generalista tem mais chances’ por se adaptar a qualquer função (o famoso ‘coringa’ na empresa, ou ‘o severino’, para os mais antigos) já não é mais uma verdade tida como fator-chave para a estabilidade. Com o mercado de trabalho saturado de informações e, ironicamente, de profissionais que possuem um conhecimento sobre muitas áreas, porém de forma superficial, essa velha regra já se esfacelou há um bom tempo. Hoje, o que garante o posicionamento e a longevidade da carreira não é a capacidade de fazer um pouco de tudo, mas sim a profundidade em uma área em específico.

O generalista, muitas vezes, oferece a ilusão da versatilidade. Contudo, em um mundo de problemas complexos, essa amplitude sem a devida profundidade se torna um passivo. O mercado, assim como a medicina, prefere o especialista (ou alguém vai a um ortopedista porque está com dor de estômago?). Na medicina e no mundo dos negócios, a procura sempre é (ou deveria ser) pelo expert. A profundidade do conhecimento — adquirido academicamente, através de formação contínua, cursos e especializações — é o que permite a entrega de soluções mais eficazes, rápidas e inovadoras. Um profissional especialista não tenta reinventar a roda: ele a aprimora, melhora, fazendo-a girar com mais performance.
Para entender essa dinâmica e descrever o conjunto ideal de habilidades do profissional nos dias de hoje, precisamos olhar para a metáfora do T-Shaped Professional (profissional em forma de T), popularizada por Tim Brown, CEO da IDEO na década de 1990. A ‘barra vertical (|)’ da letra T representa a profundidade do conhecimento, a área de especialização específica onde o profissional é referência técnica e detentor de know-how expertise. É o motor que entrega o resultado desejado, com a qualidade esperada. A ‘barra horizontal (–) é a amplitude, isto é, seus conhecimentos gerais e sua capacidade de colaboração, incluindo o trabalho em equipe, a oratória, o poder de comunicação e demais habilidades comportamentais.
Profissionais com amplo conhecimento horizontal e ainda especializados verticalmente conseguem comunicar, inovar e colaborar mais facilmente, pois entendem o contexto geral, além de resolverem o problema em específico. A profundidade é o que gera valor, ao passo que a amplitude é o que facilita a aplicação desse valor. Assim, para o gestor, a escolha entre generalista e especialista em funções técnicas se resume a um ativo inegociável: tempo. Contratar um generalista para uma função que demanda expertise exige um alto custo de tempo e dinheiro para treinamento. Em muitos casos, a curva de aprendizado pode ser longa demais, gerando erros caros e impactando diretamente a qualidade e a reputação da empresa.
Isso nos leva a um ponto sensível: nem sempre a combinação da 'pessoa X' na 'função Y' dá certo. Alguns profissionais, mesmo dispostos, podem ser inertes em uma determinada área; são valiosos, mas não reagem nem evoluem naquele contexto específico. Uma Gestão de Pessoas Inteligente não insiste em um encaixe incompatível apenas por comodidade ou por um "Q.I." (Quem Indicou). Ela reconhece essa incompatibilidade e realoca talentos, direcionando-os para onde sua profundidade pode, de fato, florescer. É claro que humildade e disposição são cruciais para qualquer aprendizado, mas o tempo dispendido esperando a evolução do profissional pode significar a perda de um contrato, a queda na qualidade do produto ou serviço prestado ou, até mesmo, a falência de um projeto. A contratação, portanto, é um processo cirúrgico. É possível que se leve em conta a indicação, mas para funções críticas, o sucesso só virá se a decisão técnica prevalecer sobre qualquer pedido ou interferência. O foco deve ser no especialista que irá reduzir riscos e acelerar resultados.
Valores morais e caráter, como já abordado em outra matéria nesta coluna (https://www.bisbilhoteiro.com.br/post/invers%C3%A3o-da-prioridade-a-li%C3%A7%C3%A3o-que-n%C3%A3o-se-ensina), são o alicerce fundamental de qualquer profissional, mas a expertise é o motor que impulsiona o negócio rumo ao crescimento sustentável. No fim, a dualidade é inerente ao sucesso: de nada adianta ter disposição sem humildade, ou vice-versa.
Em um mundo de ondas superficiais, aprenda a mergulhar fundo. A sobrevivência do seu negócio e da sua carreira depende da profundidade que você entrega.














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