O ALVO CERTO
- Walber Guimarães Junior

- há 2 horas
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Talvez seja só uma impressão de quem tenta não se contaminar com o clima pré-eleitoral, mas penso que o voto do brasileiro médio expressa muito mais o seu fígado do que o seu coração. Importa menos quem vou eleger com meu voto, mas a “imperiosa” necessidade de destruir o inimigo.
Algumas pesquisas qualitativas sustentam o mesmo raciocínio e, mesmo no primeiro turno, o voto é uma arma de defesa na mão do eleitor, convencido pelas narrativas e pelo contexto de polarização, de que o Brasil só sobrevive se liberto das amarras do polo oposto. Nesta análise, importa apenas quem vai chegar ao governo e não necessariamente quais são as ideias do herói escolhido.

É natural imaginar que, pela simples definição, já estejam implícitas algumas posturas, características de cada um dos lados. O tamanho do Estado tende a ser diferente de acordo com o chefe de plantão e se espera novas ações para sustentar a posição; a direita tentando enxugar a máquina pública e a esquerda, mesmo que não a amplie, tenta manter os tentáculos públicos em todas as áreas, não apenas nas essenciais. A pauta de costumes, tão importante no debate eleitoral, também impõe alinhamento automático de cada polo.
Todavia, para o eleitor comum, tudo isto são apenas questões acessórias porque o voto precisa transmitir a sensação de pertencimento a um dos lados e traduzir o comprometimento pessoal com a causa maior de “salvar a pátria do inimigo”. Rejeitar com ênfase o adversário se torna algo essencial para compor o personagem de brasileiro pronto para a batalha eleitoral.
Um comportamento complementar incomoda ainda mais, embora talvez isto esteja mais focado na minha experiência pessoal. Pensar fora da “caixa” é cada vez mais inaceitável, ainda que existam duas caixas, uma em cada canto. Pessoas que se afastam e tentam enxergar, ou mesmo apontar erros de interpretação de qualquer dos lados, devem ser afastados, sob risco de contaminação. Por imposição social, a ninguém é concedido o direito de elaborar raciocínios que não impliquem em louvar o “nosso” e demonizar o “outro”.
Sinto na pele, e talvez isto se repita com milhares de outros que se associam ao pensamento crítico do nosso processo eleitoral. Queridos amigos de longa data, de ambos os polos, me condenam, dedo em riste, me denunciando como “infiltrado” do outro lado, como se eu fosse o último dos humanos a não enxergar a linha imaginária que divide os dois mundos, vermelho e amarelo, que em confronto parecem a única questão relevante para definir que país teremos no resto de nossas vidas.
Insisto em uma tese maluca e, afinal, consigo a unanimidade; todos contra o meu delírio. Para desespero de uma amiga religiosa, afirmo que nem mesmo Jesus indicado em convenção, ainda que escolha o número 1322 ou 2213, conseguiria colocar o nosso Brasil no eixo do desenvolvimento, simplesmente porque o nosso modelo político gerou um monstro que opera desde o legislativo, abre seus tentáculos pelos três poderes e impõe suas demandas como impositivas.
Nenhum dos últimos presidentes consegue ter instrumentos, personalidade ou temperamento para enfrentar a máquina de fritura do Congresso Nacional que inverte no último nível a equação dos estados e municípios, nestes em especial. Vereadores, como regra geral e em quase todo o território nacional, são apenas áulicos remunerados, com direito a diárias, assessores e mordomias, mas intimados a obediência servil ao prefeito de plantão. Brasília trocou as variáveis e isto resultou em um desequilíbrio inverso e igualmente danoso.
Presidentes são agora reféns de um Congresso organizado, profissional, que age ao largo das legendas e exige atenção máxima aos seus interesses, rifando recursos ilimitados para o atendimento alternado, embora em proporções diversas, de demandas das bases dos parlamentares e do seu grupo econômico, com centenas de indícios de que as intenções não são republicanas, mas cientes que, em bloco, são a verdadeira fonte de poder deste país, capazes de definir toda e cada uma das questões que desenham o futuro do país, principalmente na Casa Maior, com menos membros e com um processo de construção da maioria menos prostituído, para tocar no âmago da questão.
Não tenho dúvidas, e a companhia de muitos observadores atentos, ao afirmar que o Senado, com a Câmara Federal em segundo plano é o principal fórum das grandes decisões que podem reprogramar o nosso país. Desde as imprescindíveis reformas tributária, administrativa e política, que podem até ter o pontapé inicial pelo Executivo, mas dependerão essencialmente da maioria dos nossos senadores. Os líderes principais, Lula e Jair Bolsonaro, já perceberam e como técnicos competentes, lutam para escalar seus principais atletas nesta disputa.
Todavia, o principal interessado no processo eleitoral age como um torcedor apaixonado que vibra com o atacante e o meio campo, porém mau sabe o nome do zagueiro postado na linha de defesa. Senador? Tanto faz, vota naquele que vem colado no material do governador ou do presidente preferido, sem mesmo entender por que perder seu tempo para esta escolha. Só um governador e presidente, e dois senadores? Não faz sentido para o eleitor comum que, longe das lições de ciência política, nem mesmo sabe que cada projeto de seu time terá que ser aprovado por este pessoal que se esconde na mordomia da Casa Maior.
Por diversas vezes, já me referi à importância da eleição legislativa. Seja este ou aquele o escolhido para o Planalto, dependerá da boa vontade do Legislativo federal. Seja o tempo de prisão de Jair Bolsonaro, impeachment de ministros do Supremo, o destino de Vorcaro, do Lulinha ou do Careca do INSS ou mesmo as intenções de qualquer governante que tem duas únicas alternativas; constrói maioria nas urnas ou terá que enfrentar os liras, alcolumbres e demais especialistas em “acordos” que se sentam na cabeceira do balcão de negócios, ditam regras e exigem cargos, benesses e emendas que se revertem em poder e recursos para os “amigos do rei”.
As eleições de 2026 precisam ser um ponto de inflexão, um momento em que, finalmente, o eleitor perceba que nosso modelo político não abraça a figura de um salvador da pátria e que, sem desprezar a sua importância e capacidade de ajudar na remodelação do país, o Congresso Nacional precisa de uma profunda renovação que contemple membros comprometidos com as reformas que o Brasil não pode mais retardar e que reconstruam a linha ética, abandonada nas últimas gestões, permitindo que o povo brasileiro reestabeleça a confiança em seus representantes.
Constitucionalmente, o legislativo federal é o representante direto do povo brasileiro, mas posso afirmar que são raros os momentos em que nosso Congresso trabalha efetivamente na defesa de nossos interesses, sempre priorizando suas demandas, seus interesses e seus projetos de poder.
Reeleição sempre foi mais importante que as demandas nacionais e os eleitores percebem isto, precisa, porém, entender que apenas a sua ação responsável e direta nas urnas pode reverter a atual situação, finalmente fazendo a leitura certa; o Senado é o alvo certo, onde tudo pode se resolver.













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