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Novelas

Célio Juvenal Costa, professor da UEM


Quem me conhece sabe que eu fui muito noveleiro. Assistia sempre as novelas da Globo, das 18h, 19h e 20h, como ficou tradicionalmente conhecida a programação, apesar de os horários terem mudado. A primeira novela que me impactou foi Saramandaia, mas como não esquecer de Renascer, Tieta, Vale Tudo (primeira versão), O Rei do Gado, Roque Santeiro, Pedra sobre Pedra, O Cravo e a Rosa, apenas para citar algumas. Usava sempre cenas das novelas como exemplos em sala de aula para aproximar mais os temas que eram tratados em Filosofia da Educação Antiga e Medieval com a realidade vivida pelos alunos.


De uns anos para cá, especialmente depois dos streamings eu passei a assistir séries e deixei um pouco as novelas de lado. Fiquei apenas com as novelas das 18h, pois geralmente elas tratam de temas mais inocentes e são ambientadas ou no passado ou fora do eixo Rio-São Paulo. No entanto, o remake de Vale Tudo me fez acompanhar um pouco novamente o drama do horário nobre da televisão brasileira. E, me trouxe um incômodo com os “furos” que a novela apresenta. É sobre isso que gostaria de refletir hoje, ou, mais precisamente, a adequação que a história narrada deve ter na realidade.

 

 

Sabemos que as novelas são obras de ficção; sabemos que os autores têm suas “liberdades poéticas” para construírem seus enredos; sabemos que há determinadas cenas que aparecem nas novelas que não caberiam na realidade do dia-a-dia, como, por exemplo, o assassinato ou mortes cruéis dos vilões e a correspondente torcida do público para que isso aconteça. As novelas, como qualquer obra de ficção, trazem os momentos de catarse geral proporcionados geralmente por cenas violentas em que os mocinhos acabam por se dar bem, especialmente no final da trama. Nas novelas não nos incomodamos com a morte dos vilões e até torcemos para isso ocorra, pois, na ordem da ficção, e somente nela, os desejos de “olho por olho e dente por dente” podem se realizar. As tramas novelísticas servem como uma espécie de válvula de escape das amarras sociais. Por isso que, mesmo depois de 37 anos, revivemos nosso entusiasmo em saber “quem matou Odete Roitman”, sem se incomodar muito com a pena para quem cometeu o homicídio, afinal, todos os suspeitos têm seus motivos para eliminar a grande e desalmada vilã. No entanto, a trama construída para que o grand finale aconteça precisa, no caso uma história que se pretenda realista, ser plausível, para não correr o risco de se tornar ficção científica ou mesmo poética.

 

Nas novelas do final da tarde o público não tem muita exigência quanto a, por exemplo, determinados contextos históricos deslocados, pois elas se propõem a ser mais “leves”, com uma trama mais inocente. Mas, é diferente para as novelas do horário nobre. Os escritores e diretores das novelas como Vale Tudo não podem tomar seu público como ignorante. As tramas não podem incorrer em erros que forçam a realidade a se adaptar ao enredo e não o contrário, como deveria ser. As séries que se propõem como uma espécie de espelhos da realidade são boas quanto mais elas se calcam na realidade, e quanto mais procuram mostrar a realidade que não salta aos olhos no cotidiano. A melhor série, na minha opinião, que atende a esses requisitos foi Game of Thronos, ou simplesmente GoT, pois, apesar de trabalhar com fantasias, como os dragões, feiticeiras, gigantes etc., sempre se esmerou em mostrar a crueza que é a batalha pelo poder e pela sua manutenção, sem dourar a pílula em nenhum momento.

 

A novela que termina esta semana, o remake de Vale Tudo, cometeu erros que não deveria ter cometido, pois, em minha opinião, acaba por comprometer o enredo. Vejamos, no episódio em que Maria de Fátima deveria ser morta pelo capanga de Odete Roitman, a cena se passou em alguns galpões abandonados que ficavam na região da Barra da Tijuca; a Raquel estava em Vila Isabel, que é bem distante e ainda mais se levarmos em conta o trânsito carioca que, para quem sabe, é muito moroso. Em pouco tempo Raquel e Audálio aparecem no lugar em um Uber ou Taxi e, em menos tempo ainda, também de carro, Ivan aparece no lugar para, quase que miraculosamente, salvar a pele da vilazinha Maria de Fátima. No episódio da morte de Odete, em um hotel de categoria 5 estrelas que com certeza tinha câmeras em todos os corredores e espaços de convívio, as pessoas chegam no quarto da vilã sem qualquer receio de serem descobertas; um tiro é disparado de uma arma sem silenciador, e mesmo assim, dá tempo de as pessoas entrarem no quarto, verem que ela foi assassinada e saem do quarto como se estivéssemos ainda nos tempos em que não havia vigilância ostensiva. Esses são pequenos exemplos de algo que enfraquece a trama atual. Na versão original esses pequenos erros não aconteceram porque a realidade de então ainda não havia sido modificada a tal ponto que hoje se exige muito mais dos roteiristas.

 

Escrever novelas não é tarefa fácil, especialmente aquelas que estão em horário nobre e, portanto, têm milhões de expectadores. Sempre admirei autores como Agnaldo Silva, Gilberto Braga, Silvio de Abreu, Janete Clair, Valdyr Carrasco, Manoel Carlos, Gloria Perez, Dias Gomes, dentre outros. Sempre admirei como eles conseguiram e conseguem tirar da realidade cotidiana histórias dramáticas que me fizeram amar alguns personagens e odiar outros tantos. A televisão, para pessoas da minha geração, como me disse uma vez um amigo, foi uma janela para o mundo, uma janela para lugares desconhecidos, para o lúdico dos desenhos, para a ficção das séries, para o fantástico dos filmes, para a emoção em ginásios e estádios e para o encantamento com as novelas. Elas, as novelas, marcaram gerações, e continuam sendo um produto brasileiro que tem excelência, continuarão por algum tempo ainda entretendo as pessoas. Mas, quando se propuserem a ser espelhos da realidade, que seus autores e diretores não se rendam aos atalhos mais fáceis para desenrolar os novelos da trama; que encontrem soluções para seus crimes fictícios em argumentos convincentes, pois assim, creio que continuarão tendo um público que já espera uma nova novela quando a outra está em seus capítulos finais.

  

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

 

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