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Mídias, infância e violência

Por Célio Juvenal Costa, professor da UEM


Vez ou outra nos deparamos com opiniões de que as mídias (desenhos, animações, HQs, games...) têm um grande poder de influenciar nossas crianças a ponto de transformá-las em seres violentos. Assistir certos desenhos, jogar certos jogos, ler certas revistas seria um meio de nossas crianças serem manipuladas em sua ingenuidade e passarem a ter um comportamento não condizente com o que se espera delas. Ou seja, defende-se, neste caso, que as crianças são seres influenciáveis por qualquer cena de violência que presenciem em seu lúdico mundo.

 

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É comum encontrarmos análises acadêmicas procurando demonstrar que o perfil de certos heróis infantis, os valores veiculados, os conceitos e preconceitos que são instigados, objetivam reproduzir nas crianças comportamentos ideologicamente planejados. Ou seja, tornou-se um tanto comum, especialmente no meio acadêmico, a ideia de que existe uma conexão mais ou menos direta entre o conteúdo exibido pelos gibis/HQs e desenhos da TV com o comportamento das crianças. Exemplo disso é o fato de que hoje em dia as armas de brinquedo praticamente inexistem como opção de presentes infantis, com a justificativa de que elas incitam a violência nas crianças e, com isso, acabam por criar adultos violentos. Mas, não é só no meio acadêmico que essa ideia ganhou força, pois ela parece ser um consenso social hoje em dia.

 

Pois bem, apesar do aparente consenso ouso aqui me colocar um pouco na contramão das análises sobre a relação entre gibis/HQs, televisão, infância e violência. Na minha época de criança e adolescente, mesmo ávido leitor dos gibis do Tio Patinhas, acho que não fui tomado pela suposta ideologia do American way of life que alguns críticos concluíram estar presente no mundo de Patópolis, a cidade onde viviam os personagens. Li outros gibis com personagens caricaturais (como a Turma da Mônica), assisti um sem número de desenhos nos quais a violência estava sempre presente (como Tom e Jerry) e assisti outro sem número de séries cujos episódios também estavam recheados de violência, intrigas e caricaturas (como Perdidos no Espaço); sem esquecer que também tive armas de brinquedo e que, também, participei de brincadeiras estúpidas. Nada disso, no entanto, me tornou um adulto embotado, ideologicamente submisso ao sistema e, especialmente, não me tornei um adulto violento. E tenho a impressão de que isto não ocorreu apenas comigo e com meus vários amigos de infância. De todos os meus antigos amigos do período da puberdade, poucos, até onde sei, se tornaram adultos violentos.

 

Meu ponto de partida, ou princípio de análise, não sei ao certo, é de que as crianças e adolescentes, quando bem orientadas, especialmente em casa, conseguem separar o que pertence ao mundo do simbólico, do fantástico, da ficção, do que é próprio da realidade; neste ponto me ocorre que talvez uma das características da educação das crianças hoje, seja na família ou na escola, é a subestimação da sua inteligência, o que pode ser resultado da infantilização dos hábitos e comportamentos dos próprios adultos.

 

Tenho dificuldade em acreditar que existe um planejamento ideológico por parte dos editores dos gibis/HQs, dos idealizadores dos desenhos na televisão, dos criadores dos games, enfim, dos próprios veículos de comunicação. Me parece que uma planificação deste tipo é coisa muito grande e tem que funcionar perfeitamente bem para dar certo. No entanto, se isso existe, a minha outra dificuldade reside em aceitar que há um repasse, quase que automático, entre a mensagem veiculada e a mentalidade do receptor. Para mim há uma distância entre o que a criança e o adolescente leem, jogam e assistem, do que aquilo que forma e enforma sua vida.

 

É claro que não se pode esquecer que qualquer que seja a mídia, ela sempre é uma mercadoria, um produto que foi feito para ser consumido e, é claro também, que quanto mais pessoas consomem um produto, mais valorizado ele fica e mais se cria demanda para ele. Os HQs, desenhos, games mais famosos são, de fato, produtos que viralizaram por algum motivo, que tanto pode ser a inovação de seus aspectos, ou seus criadores souberam potencializar certos desejos e anseios entre a parcela da sociedade que vai consumir tais produtos. Mas, isto, me parece, é assunto para um outro texto.

 

De qualquer forma, acredito que, como diziam os antigos, a semente nasce melhor em um terreno que seja adequado para ela, ou seja, antes das mídias influenciarem negativamente as crianças, as famílias, o ambiente em que a criança é criada, são capazes de mostrar para ela a distância que existe entre o mundo lúdico e a realidade nossa de cada dia. O exemplo real e concreto de pessoas reais e concretas e, especialmente queridas e respeitadas, forja mais adequadamente um futuro espírito crítico. Mas, se o “solo” não for fértil para a criança, se ela enxergar exemplos em casa de uma apologia à violência, apologia às armas, de preconceitos contra pessoas diferentes, de falas que diminuem os outros porque pensam e são diferentes, aí sim desenhos, games, HQs podem contribuir para potencializar a violência.

  

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

Obs: Esta é uma versão revisada e atualizada de um texto originalmente publicado no blog: devaneioseoutrasreflexões.blogspot.com.

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