Monstros e monstros
- Célio Juvenal Costa

- há 8 horas
- 3 min de leitura
De uns anos para cá os monstros dos filmes e de histórias infantis estão sendo humanizados. Desde Shrek, em 2001, Deu a Louca na Chapeuzinho, 2005, Crepúsculo, 2008, Malévola, 2014, até Frankenstein, 2025, os ogros, lobos-maus, vampiros, bruxas e outros monstros, foram perdendo suas características de seres maus por natureza e passaram a apresentar traços humanos, e alguns até com mais humanidade que os personagens propriamente humanos. Vivemos uma época de desconstrução daquele maniqueísmo básico que marcou minha infância e adolescência, pois até o demônio já foi apresentado como um bom sujeito em séries como Lúcifer, de 2016 a 2021, e Good Omens, de 2019 a 2023. Mas será que os monstros que querem fazer mal para os seres humanos deixaram de existir?

Se, por um lado, no mundo dos filmes, animações e séries, há um esforço para desmistificar os tradicionais seres maus que povoaram e encheram de medo o mundo da imaginação de crianças, adolescentes e jovens algumas décadas atrás, hoje nós ainda temos que conviver com outros tipos de monstros, infelizmente mais reais, mais próximos de nós. Se definirmos os monstros como seres que são inumanos, que não tem empatia para com os seres humanos, que querem impor sua força para os submeterem aos seus desejos e caprichos, que querem exterminá-los, então não devemos procura-los fora da nossa própria realidade, pois vemos monstruosidades sendo cometidas no nosso dia-a-dia.
Eu poderia aqui criar uma lista muito grande de atitudes que podemos qualifica-las como monstruosas; poderia aqui mencionar os monstros que, como alguns do mundo da imaginação, podem mudar de forma e se apresentar, aos nossos olhos, como seres normais, mesmo inofensivos. Penso mais especificamente em monstros que se travestem de namorados, maridos, pais, tios, avós que, com a capa da confiança que temos em parentes, cometem atrocidades contra namoradas, esposas, filhos, sobrinhos e netos. Mas hoje quero refletir sobre um tipo particular de monstruosidade que incomodou muitas pessoas nesses dias, inclusive a mim. Trata-se da chuva de comentários que monstros escondidos pelo sigilo da internet, fizeram contra uma mulher que teve os dois filhos mortos pelo marido, o qual se suicidou depois e deixou uma carta culpando a mulher pelo ato que ele cometeu por uma traição que ela havia cometido.
Não vou me ater aqui na análise do que o marido fez, pois muitas pessoas sensatas já o fizeram, dentre elas várias jornalistas. O ato, em si, já é uma crueldade e uma covardia sem tamanho. Mas, para além do crime, que por si só já tem uma dimensão de tragédia, o que mais impressionou foram os comentários raivosos de pessoas, a imensa maioria homens, que culparam a mulher pelo ato do marido. E isso em meio à dor da perda de seus dois filhos. Infelizmente e tragicamente ainda temos inúmeros monstros entre nós, e não são corpulentos, com poderes, desfigurados, mas são pessoas de aparência normal que podem, inclusive, fazer parte de nossos círculos familiares ou de amizades; esses monstros têm a coragem de, em nome da tradição, da religião, dos bons costumes, da família tradicional brasileira, destilarem o veneno do ódio pelas redes sociais. No fundo, assim como alguns dos monstros de minha infância e adolescência, os nossos monstros atuais atacam as pessoas porque veem nelas a possibilidade do fim de seu poder. O machismo ainda resiste e se torna cada vez mais violento, não porque as pessoas defendam a família com base em alguma tradição religiosa, ele resiste porque é uma forma de poder, é uma forma de estabelecer submissão, porque tem pessoas, homens no caso, que só entendem sua razão de existência a partir da imposição de suas vontades. Quando esse poder é questionado de alguma forma, ele pode responder de forma violenta, seja física, seja moral, seja de perto, seja de longe, seja escondido em perfis de redes sociais.
Os monstros de antigamente, como ogros, vampiros, bruxas, demônios, devem continuar sendo humanizados, mas os de hoje têm que ser combatidos!!
Meu Instagram: @costajuvenalcelio













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