Masculinidade “frágil”
- Célio Juvenal Costa

- há 2 dias
- 4 min de leitura
Nos últimos anos, com o questionamento e a crítica ao patriarcalismo, que originou o machismo estrutural, vemos os homens (no sentido do gênero) divididos em duas possibilidades de atitudes: uns procuram se adequar aos novos tempos e outros resistindo aos novos formatos de trabalho, amizade, namoro, casamento e família. Aqueles que se conscientizam que é preciso deixar para trás atitudes que antes eram tidas como normais, se esforçam para fazer sua parte em relações igualitárias; aqueles que resistem encontram justificativas, em religiões, na tradição, para continuar se portando como provedores, como machos-alfa.

Vivemos uma época em que, independentemente da opção que os homens façam, se questiona o conceito de masculinidade. Aquele padrão do homem racional, que não demonstra suas sensibilidades, que não se cuida etc., está com os dias contados. Parece que estamos passando por uma revisão do que é a própria masculinidade. Do ponto de vista de uma história processual é normal estarmos em um momento como este, pois a cultura não muda da noite para o dia, a sociedade não deixa de ser machista em pouco tempo. Vivemos um momento, culturalmente falando, de indefinição do papel masculino e, portanto, não é à toa que temos respostas diferentes a este movimento. Eu agrupei as respostas em dois grupos, pois não é minha intenção aqui (talvez em futuros textos sim) mostrar todas as repercussões sociais de um movimento que, espero, seja de transição. Me atenho a duas formas de encarar o que é ser homem para concluir que hoje parece ser consenso que temos uma masculinidade que parece frágil. Reconhecer tal fragilidade novamente coloca no caminho dos homens as duas opções que me referi acima: admitir a necessidade de se repensar na sociedade, especialmente nas relações, ou buscar meios para justificar o que antes não era necessário, ou seja, seu papel preponderante da sociedade e nas relações. Admitamos que nenhum homem goste que as pessoas o vejam como um (in)digno representante da masculinidade tóxica.
Quando os papeis sociais passam por processos de indefinição, as relações também sofrem suas repercussões. E é nas relações (familiares, de trabalho, de amizade, amorosas) que as pessoas tem que se ver com o que pensam, com o que sentem, e como expressam seu pensamento e seus sentimentos. Na atualidade, em que se questiona os formatos tradicionais de relações, as exigências para a sua constituição, construção e consolidação são maiores. Quando um apenas tinha o reconhecimento e o exercício da autoridade, as exigências eram menores, ou quase nem existiam; quando não há mais apenas um no comando, obviamente que se exige mais de ambos. Quando só um tem bico o outro se subordina, mas quando os dois têm bico, aí as coisas têm que ser negociadas.
Aqueles homens que reconhecem que constituem aquela parte da sociedade que se beneficiou do patriarcalismo e do machismo estrutural e que, por sua vez, passam a defender que as relações tenham por base a igualdade, lutam contra uma cultura arraigada na sociedade e ficam sob uma autovigilância constante pois sabem que estão sujeitos a atitudes que não condizem mais com o que pensam. Já aqueles que reconhecem uma masculinidade frágil, mas que não defendem as mudanças que a sociedade está apontando na direção da equidade nas relações, procuram subterfúgios para maquiar seu machismo participando, por exemplo, de movimentos como o “Legendários”, ou semelhantes, geralmente ligados a alguma religião. No caso desses últimos, normalmente a “reciclagem” da masculinidade se dá em encontros, de preferência na natureza, em montanhas, por exemplo, em que somente homens participam e chegam a pagar a bagatela de oitenta mil reais pela “imersão” na “reconstrução” de sua masculinidade. Nesses retiros eles “aprendem” que podem ser sensíveis, que podem chorar, que podem respeitar suas esposas e, assim, se transformar no “herói”, moderno, de suas famílias.
Movimentos como o “Legendários” partem da existência de uma masculinidade “frágil”, no sentido de que o homem pode se mostrar sensível e deve “ajudar” a esposa nas tarefas de casa, mas, no fundo, são ações que visam a manutenção do status quo do patriarcalismo e, por consequência, do machismo estrutural, mas agora maquiado pelo comando de um macho-alfa que pode cuidar de seu corpo e de seu visual e pode se mostrar sensível. Toda mudança tem seus freios e, na atualidade esses movimentos se caracterizam como meios de, por meio de uma reciclagem de seu formato, manter os fundamentos do patriarcalismo arcaico; tais movimentos e atitudes são, no fundo, o desejo de restaurar o domínio do homem sobre as mulheres num formato mais palatável.
Finalizo afirmando que para mim, no fundo, não existe masculinidade frágil. Aliás, o próprio termo masculinidade, como me disse minha filha certa vez, já é problemático. Tóxico, frágil, benevolente, camarada... qualquer adjetivo que se dê só serve para realçar o substantivo masculinidade (substantivo feminino, diga-se de passagem) e a que ele se refere. Mulheres, quando um homem reclamar que sua masculinidade está frágil, pode ser um forte indício de que ele não pensa numa verdadeira igualde de gênero...
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