Lição de democracia
- Célio Juvenal Costa

- 21 de nov.
- 4 min de leitura
A democracia pode ser definida de várias maneiras, dentre elas uma que eu gosto é a convivência pacífica entre os diferentes. A discordância de ideias é algo que parece ser natural no ser humano, o que acarreta, muitas vezes, uma disputa pela hegemonia de uma das partes, especialmente quando se trata de embates visando a ocupação de espaços de poder. E, quando falo em poder, não estou pensando em níveis mais altos de comando, mas em qualquer espaço em que uma disputa exista e pessoas ou grupos se organizam para buscar uma hegemonia de suas ideias. O exemplo que eu gostaria de usar diz respeito a um livro que acabei de ler e que me surpreendeu, positivamente, quando cheguei ao seu fim. O título do livro é O preço do monoteísmo, escrito por Jan Assmann, publicado em 2003 e a edição brasileira que li, da Editora Contraponto, é de 2021. A intenção aqui não é repercutir os argumentos de Assmann, mas ressaltar os apêndices do seu livro.

Antes, um pouco sobre o as razões que me levaram à leitura deste livro. Quem me conhece um pouco mais, sabe que tenho um interesse perene e científico sobre a história do cristianismo, e isto inclui conhecer um pouco mais sobre o Antigo Testamento. A pergunta que me move sempre é: como uma religião marginal no mundo da época, uma seita judaica em seu início, se tornou a maior religião do Ocidente em alguns séculos? Para responder a isso me interessa saber o início da religião cristã, seu contexto histórico, social, filosófico e religioso. Me interessa saber suas origens, por isso, a necessidade de conhecer um pouco mais sobre o judaísmo. Meu interesse tem um viés científico, histórico e não religioso. Meu estudo não é para confirmar ou negar alguma crença, mas para saber um pouco mais sobre uma dimensão tão presente na nossa vida cotidiana até hoje.
O livro de Jan Assmann se insere no debate sobre o surgimento do monoteísmo, como uma contrarreligião (conceito que ele utiliza) que se opõe aos politeísmos que existiam até então. Ele procura mostrar que os primeiros monoteísmos foram o da religião de Amarna, instituída por Amenófis IV, faraó do Egito que mudou o nome para Akenaton, por volta de 1350 a.C., e que definiu Aton, como único deus, e a religião mosaica, instituída por Moises, tido como criador da religião judaica, com Yahweh como único deus. Assmann defende a ideia de que o monoteísmo criou a “distinção mosaica”, ou seja, a crença de que existe um deus verdadeiro, e os outros são, por consequência, falsos, são ídolos que devem ser rechaçados, proibidos e combatidos. Uma das consequências da “distinção mosaica”, que instituiu o monoteísmo, foi a intolerância para com as outras religiões, o que explicaria a guerras religiosas que foram travadas em prol de um único deus. Assmann é um egiptólogo, ou seja, um estudioso do Egito Antigo, e seu livro mais famoso é Moisés, o egípcio. Seu livro O preço do monoteísmo não é um livro para iniciantes ou mesmo para pessoas, como eu, que carecem de um maior conhecimento prévio sobre o Antigo Testamento e sobre a história egípcia. Descobri, ao ler o livro, muito mais do que eu não sei do que propriamente o que eu já conhecia sobre a temática, mas, mesmo assim, para meus propósitos, agreguei algum conhecimento sobre a temática geral que me interessa.
Mas, o que mais me chamou a atenção no livro foi os apêndices. Eu raramente me interesso pelos apêndices dos livros, pois normalmente são informações complementares que o autor do livro não julgou como importantes de estarem presentes no corpo do texto. No entanto, fui surpreendido positivamente no caso de O preço do monoteísmo. São cinco artigos escritos por diferentes estudiosos que fazem uma apreciação crítica do livro Moisés, o egípcio, que foi escrito cinco antes e que já antecipou os conceitos tratados no presente livro. Por apreciação crítica entenda-se que os cinco autores estabelecem um diálogo com Assmann, em que reconhecem a sua contribuição pra o estudo da temática, mas que, cada um a seu modo, faz as críticas que julga conveniente aos conceitos e conclusões a que ele chegou. Portanto, o inusitado do livro é que seu autor faz uma densa discussão, utiliza conceitos, defende uma metodologia historiográfica própria, chega a conclusões e, apresenta, como complemento de seu livro, cinco críticas ao seu pensamento. Mais do que analisar as críticas feitas, pois me falta conhecimento para tanto, o que me chamou a atenção foi o desprendimento de Jan Assmann em pensar no crescimento de seu campo de pesquisa para além de apenas (como era de se esperar) divulgar suas pesquisas e suas ideias sobre o significado histórico e cultural do monoteísmo. Por isso, muito mais do que a discussão em si, que já é rica e profunda, o que fica do livro é uma lição de democracia. A convivência respeitosa de pontos de vista diferentes e o diálogo que se dá a partir daí eleva o nível da discussão e fortalece um grupo que, apesar de suas diferenças, parece estar bastante coeso.
Democracia é vivência, e não só postulado político. A tolerância às diferenças é essencial. As únicas coisas que não podem ser transigidas são as tentativas de acabar com a própria democracia, os discursos autoritários e as práticas que justificam o extermínio da vida humana. Toda lição de democracia é bem vida! Obrigado Yan Assmann!!
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