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Livros, encontros e profecias

Por: Célio Juvenal Costa, professor da UEM


Conta-se uma história, que se acredita verídica, de que em 1455, quando Gutenberg estava terminando de imprimir a Bíblia, primeiro livro impresso em sua prensa de tipos móveis de metal, recebeu a visita de um amigo que era tido como muito sábio e místico. Seu amigo, depois de receber as informações acerca do trabalho que se realizava e de ver com seus próprios olhos, depois, o livro impresso, teria feito uma espécie de profecia: no futuro, quando duas pessoas estivessem lendo o mesmo livro, e ao mesmo tempo lessem as mesmas palavras na mesma página, na mesma linha e estivessem a quilômetros de distância, uma força inexplicável, irresistível, faria com que essas duas pessoas se encontrassem em breve.

 

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A profecia deve ter se realizado algumas vezes, mas parece que só foi percebida recentemente, quando dois jovens foram reunidos após lerem as mesmas palavras, na mesma página, na mesma linha, da mesma edição do mesmo livro. Isto ocorreu em 2019 e envolveu um jovem brasileiro, de 25 anos, morador em João Pessoa, na Paraíba, e uma jovem francesa, de 27 anos, moradora de Saint-Denis, na região metropolitana de Paris. O livro que ambos estavam lendo era Dom Casmurro, de Machado de Assis, numa edição capa dura em Português, de 2010. A jovem francesa havia tido, na faculdade de Letras, uma professora de literatura do século XIX, que lhe apresentou Le Sorcier du Vieux Cosme (O Bruxo do Cosme Velho), e ela gostou tanto de ler algumas de suas obras em francês que decidiu-se aprender português para ler Machado em sua língua original. Dom Casmurro era o terceiro livro machadiano que ela lia em português, sendo Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Alienista os primeiros. Ela ainda lia bem devagar em língua portuguesa, mas já estava se tornando quase fluente. Já o jovem paraibano, formado em Psicologia, estava tendo uma espécie de iniciação na obra de Machado de Assis, pois ainda era o segundo livro que lia, depois de Quincas Borba. Ele começou a participar de um clube de leitura em sua cidade havia uns três anos, quando exatamente iriam discutir o livro sobre a história do professor Rubião que herdou a fortuna de Quincas Borba. Depois de vários livros lidos e discutidos, ele resolver voltar à leitura de Machado e escolheu o seu livro mais famoso.

 

No dia 21 de julho, às 17h35 em João Pessoa e às 22h35 em Saint-Denis, ele no ônibus indo para casa, e ela em casa, leram juntos, sem saber, a mesma passagem “Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova.”, na página 81, na décima linha do livro. No mesmo instante, algo inesperado e mesmo indescritível ocorreu; uma sensação de que o tempo havia parado, que uma luz especial havia invadido os lugares onde estavam e, ao fundo, parecia que ouviam uma música suave e baixa. Foi uma sensação rápida mas marcante, que os fez lembrar por vários dias, como um daqueles sonhos prazerosos que temos e que carregamos a sensação por algum tempo. Nos dias seguintes, sem motivos aparentes, ambos começaram a procurar passagens baratas, de João Pessoa para o Rio de Janeiro para ele, de Paris para o Rio de Janeiro para ela; acessaram sites sobre a cidade maravilhosa, sobre lugares interessantes para conhecer, melhor época para viajar etc. Ela tinha como explicação para tal interesse repentino o fato de ter aprendido português e ler livros no idioma brasileiro e, é claro, de modo especial a vontade de conhecer os lugares que celebram e preservam a memória do Bruxo do Cosme Velho; ele, por sua vez, explicava o seu interesse no fato de que estava gostando muito da leitura de seu livro, tanto que já havia comprado outros dois de Machado para futura leitura.

 

O fato é que, em dezembro daquele ano, os dois estavam no Rio de Janeiro. Chegaram no mesmo dia e ficaram em lugares diferentes. Ela em um hotel em Copacabana e ele em um airbnb no Catete. Era a primeira vez que ambos estavam naquela cidade e, como todo turista faz, e deve fazer, nos dois primeiros dias foram visitar o Corcovado, o Pão-de-Açúcar, os museus, o Teatro Nacional. No terceiro dia, após investigar sobre os lugares em que Machado de Assis viveu, foram, no meio da manhã, no Café Capitu, que fica no local onde existia sua velha casa no Cosme Velho. Os dois sentaram-se em duas mesas muito próximas e aproveitaram para, ao mesmo tempo, começar a ler novamente Dom Casmurro. Quando viram que estavam com a mesma edição do livro, foi inevitável um sorriso mútuo e um educado “bom dia!”. Dali a pouco estavam já na mesma mesa, se conhecendo um pouco mais e conversando, especialmente, sobre os seus gostos literários em comum. De julho até a data em que se conheceram, ele já havia lido os dois livros que comprara, exatamente os dois livros de Machado que ela havia lido em português antes da história de Capitu e Bentinho; ela havia lido exatamente o livro que ele leu no clube de leitura três anos antes. O restante dos dias que ficaram no Rio, ambos fizeram alguns passeios juntos, conheceram outros lugares em que Machado de Assis morou, foram até a Academia Brasileira de Letras, almoçaram e jantaram juntos e retornaram mais uma vez ao Café Capitu. Foi, como dizem alguns, um encontro de almas e, por alguma razão que é difícil encontrar explicação em nossos dias, aquele par não se transformou em casal, pois por mais vontade que tivessem, achavam que se se tornassem mais íntimos, toda aquela aura gostosa que os envolvia poderia correr o risco de se dissipar. E assim, até o último dia em que ficaram naquela cidade em que seu autor favorito viveu foram bons e queridos amigos, com exceção do momento da despedida em que trocaram um beijo prolongado e cheio de uma mistura de uma paixão contida e saudade.

 

A partir daí, como era de se esperar, passaram a se falar regularmente, especialmente, mas não só, sobre livros, claro, de Machado de Assis, mas também de outros autores, tanto brasileiros como franceses. Um se tornou companhia inseparável do outro, toda vez que podiam se conectavam para longas conversas. Fizeram planos de se encontrar pessoalmente de novo, mas a pandemia de covid impediu. Somente em 2023 conseguiram concretizar o encontro, primeiramente ele foi para a Saint-Denis e depois ela, no ano seguinte, veio para João Pessoa. A intimidade foi inevitável e, enfim, se tornaram um casal, com planos para o futuro. Hoje em dia a decisão mais importante de suas vidas consiste em saber quem vai se mudar de cidade e de país... E, a profecia se cumpriu... apesar de ela sentir um pequeno incômodo de uma sensação de que ele estava se tornando um pouquinho ciumento... 

 

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

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