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Indicação de Lottenberg Divide Opiniões: De Um Lado, “Não Nos Representem”; Do Outro, “É Sobre Competência”

Manifesto de mais de 1.200 judeus e judias contesta que Cláudio Lottenberg fale em nome da comunidade — aliados de Flávio Bolsonaro rebatem e defendem o critério técnico da escolha

Por Marcio Nolasco



Uma indicação ao Ministério da Saúde bastou para acender um debate que vai muito além de currículo médico. Depois que Flávio Bolsonaro anunciou que o oftalmologista Cláudio Lottenberg — presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib) e do conselho do Hospital Albert Einstein — seria seu ministro da Saúde em caso de vitória, um coletivo reagiu rápido: em menos de 48 horas, o manifesto “Judias e Judeus Pela Democracia” já somava mais de 1.200 assinaturas em apoio à reeleição de Lula.


De um lado, um grupo que diz não aceitar ser representado por essa indicação. Do outro, aliados de Flávio Bolsonaro que rejeitam qualquer leitura identitária do gesto. Eis os dois lados da história.


O que diz o manifesto


Assinado por nomes como Carlos Minc Baumfeld, Jaques Morelenbaum, Lilia Schwarcz, Manuela Carneiro da Cunha e Raquel Rolnik, o texto tem um objetivo declarado: tornar pública a posição de judeus e judias de esquerda que não se associam ao bolsonarismo, contestando que Lottenberg possa falar em nome da comunidade judaica no debate político.


O documento descreve a democracia brasileira como frágil diante de discursos que considera autoritários e ameaçadores aos direitos humanos, citando nominalmente a proposta do candidato Renan Santos, do partido Missão. Recorre também à memória histórica, alertando sobre os riscos de normalizar, pouco a pouco, a perseguição e a construção de grupos humanos como inimigos.


Um ponto importante: os próprios signatários fazem questão de dizer que Lula está longe de ser o candidato ideal, e que sua vitória não significaria uma democracia “pronta”. O apoio é apresentado como estratégico — garantir condições mínimas para que a disputa democrática continue existindo.


O que dizem os aliados de Lottenberg


Do outro lado, a resposta é objetiva: procurados pela imprensa, a assessoria de Flávio Bolsonaro e o próprio Lottenberg não se manifestaram sobre o manifesto diretamente, mas apoiadores da indicação argumentam que o critério para a escolha foi puramente técnico. Lottenberg comanda um dos hospitais mais respeitados do país, o Albert Einstein, e é apresentado por essa ala como alguém com experiência de gestão em saúde — não como uma escolha calculada em torno de sua religião.


Nessa leitura, associar a indicação a uma tentativa de capitalizar identidade judaica é uma interpretação equivocada, que ignoraria a trajetória profissional do médico em favor de uma narrativa política.


Onde a disputa realmente se trava


No fundo, o embate não é sobre currículo — é sobre representação. Pode uma liderança institucional, ainda que ocupando um cargo de destaque em uma entidade judaica, ser lida automaticamente como porta-voz político de toda uma comunidade? Os signatários do manifesto dizem que não, e reivindicam o direito de dissentir publicamente. Já os defensores de Lottenberg argumentam que essa mesma lógica poderia ser aplicada a qualquer profissional religioso ou membro de uma minoria indicado a um cargo público — e que reduzir a nomeação a um cálculo identitário é, em si, uma simplificação.


Um debate que não é novo


Este não é o primeiro manifesto do tipo: em 2022, durante outra campanha presidencial, um grupo semelhante já havia se posicionado publicamente pela chapa Lula-Alckmin, usando argumentação parecida sobre autoritarismo e memória histórica. A repetição do movimento, quatro anos depois, mostra que a tensão entre identidade, religião e disputa eleitoral segue sem solução no debate público brasileiro — e que cada indicação de peso simbólico tende a reacender essa disputa.


Este artigo apresenta, lado a lado, os argumentos do coletivo “Judias e Judeus Pela Democracia” e a defesa feita por apoiadores da indicação de Cláudio Lottenberg, sem tomar partido entre as duas posições.

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