Holofotes fora de foco.
- Walber Guimarães

- 29 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Por Walber Guimarães Junior, engenheiro e comunicador.
Estamos encerrando um ano difícil, não muito diferente dos anteriores, mas com ingredientes presentes com mais intensidade, principalmente no caldo político. O déficit fiscal e a insegurança pública, de novo, estiveram à frente das mazelas do Brasil também neste ano, assim como a tensão entre os poderes, sendo este fator muito mais intenso em 2025.

A cassação de alguns parlamentares, inquéritos difíceis contra outros e o julgamento da tentativa de golpe, resultando em condenações exemplares do ex-presidente e de alguns militares de alta patente, evidenciaram o confronto entre o judiciário, de faca na mão, e os demais poderes, prometendo novos capítulos em 2026, sendo o mais polêmico, o desejo intenso do parlamento de constranger, julgar ou até cassar o ministro Alexandre de Moraes, símbolo maior do combate entre os poderes e algoz principal das forças políticas envolvidas na tentativa de golpe. Todavia, é muito provável que todo este embate ocorra muito mais nos bastidores que visíveis para o cidadão comum.
O cidadão comum, aquele que enxerga apenas a superfície da disputa política, será de novo alçado ao centro do tablado porque 2026 é ano eleitoral e, a julgar pelas anteriores, cada voto é importante principalmente porque se desenha a repetição da disputa entre Lula, candidato à reeleição, e Bolsonaro, agora o Flavio substituindo o Jair. Não serão os únicos candidatos, mas concentrarão quase todas as atenções das legendas e da mídia, sobrando poucas alternativas para o eleitor buscar opções viáveis.
As regras eleitorais brasileiras exigem que o vencedor obtenha mais da metade dos votos válidos, mesmo que sejam necessários dois turnos, sendo estranho imaginar que os partidos optem por nomes com elevada rejeição, caso dos nomes citados, por limitar o universo em disputa. Basicamente o núcleo estratégico das campanhas estabelece como campo de batalha a terra de ninguém eleitoral, o agrupamento que sobra após a retirada dos votos consolidados de cada candidato.
Dessa forma, arredondando os parâmetros, podemos supor que Lula e Flavio larguem com 20% de votos garantidos e, excluindo os 40% de rejeição consolidada, também projeção simplificada para ambos, sobram de fato apenas 40% do universo eleitoral a serem efetivamente disputados voto a voto. Para garantir vaga no segundo turno, precisarão obter apenas um em cada cinco votos efetivamente disponíveis, em evidente conta de chegada. Não precisa ser nenhum gênio para perceber que a guerrilha entre ambos os nomes, mantem as atenções em neles e tendem a forçar um posicionamento deste grupo de indecisos apenas entre estes dois candidatos, reduzindo drasticamente a competitividade de outra candidatura, na prática obstruindo os caminhos de eventual terceira via.
O detalhe é que os minutos de mídia eletrônica, os centímetros de mídia impressa ou a visibilidade das redes sociais, ainda mais precisos porque manipulados pelo uso competente dos algoritmos, também contribuem para a polarização, tornando quase impossível uma disputa aberta tendendo sempre ao confronto de nomes, com a projeção de eliminar a viabilidade eleitoral, ainda que surja uma alternativa com mais talento ou melhores planos, simplesmente porque serão ignorados.
A maldade não estaria completa se os algoritmos não impusessem um ingrediente adicional; a condenação impiedosa do “isentão”, aquele que não quer se dobrar ao jogo de cartas marcadas e prefere explorar as alternativas disponíveis, sendo previamente definido como culpado por todas as desgraças futuras do país, alternadamente pela turba de um lado ou de outro. Tudo dentro da lógica perversa da disputa entre o bem e o mal, algo impregnado na mente do eleitor comum como um chiclete colado no fundo da carteira escolar.
O efeito colateral mais grave nem chega a ser a disputa majoritária, inclusive porque os mais lúcidos já perceberam que estamos apenas decidindo quem será o principal refém do Congresso, na forma esdrúxula que se transformou o nosso presidencialismo de coalizão, escondendo o verdadeiro jogo de poder do Brasil; as eleições para o parlamento.
Alguns já sabem que, mesmo sem dispor de varinha mágica, polvo ou qualquer artifício de previsão, acerto com antecedência sempre um número mínimo de 80% dos eleitos, apenas por me posicionar como um observador atento, da incrível e desproporcional distribuição de recursos entre os postulantes. Verifiquem uma síntese deste descompasso;
Candidatos à reeleição terão, apenas em 2026, trezentos mil reais em verba de logística (carros, aviões e combustível), seiscentos mil em verbas salariais e um milhão em verbas para pessoal, apenas em decorrência do exercício do mandato. Todavia, ainda mais grave, é que terão acesso a trinta e sete milhões em emendas individuais e a possibilidade de concorrer a divisão de mais de 34 BILHÕES de emendas (bancada, comissões ou as emendas pix), distribuídas por razões pouco nobres, como fidelidade ao centrão ou ausência de escrúpulos nas chantagens explícitas ao executivo, sempre necessárias para manter sob rédea curta o chefe de plantão.
Se houvesse simetria na divisão de recursos, seriam algo como 4,8 milhões por mês para cada deputado que se somariam aos mais de 3,1 milhões de emendas individuais. Faça a conta; cada candidato à reeleição tem cem mil reais pagos para manutenção da campanha e quase oito milhões de verbas para conquistar espaços eleitorais e ainda podem, às vésperas da eleição, na generosa janela eleitoral de Abril, escolher a sigla mais promissora para a sua faixa de votos. A consequência é óbvia; previsão de mais de 70% de recondução, número que só se reduz porque apenas 90% deles devem disputar a reeleição.
Descrito o cenário, a conclusão explode aos olhos; idiotas convertidos se digladiam, até com familiares e amigos, iludidos da capacidade de transformar o país através das urnas, escolhendo o amarelo ou o vermelho como a senha do céu e do inferno, sem perceber que apenas receberão a chave do purgatório imposto pelo parlamento por longos quatro anos. E ainda seguirão atirando pedras nos isentões ...
Ingênuo acreditar que os atalhos serão percorridos. Novas regras para acesso e permanência no STF, fim das reeleições para o executivo e voto distrital para eleições parlamentares, como caminhos serenos e inquestionáveis de avanço para a nossa democracia continuarão ignorados porque a massa crítica eleitoral é cada vez menor e as hordas eleitorais anseiam apenas pelo sangue inimigo e são facilmente conduzidos como marionetes uniformizadas na arquibancada do campeonato eleitoral que não decide nada.
Em que momento, os holofotes serão posicionados para iluminar o que realmente importa?













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