"FALTOU GESTÃO": VEREADORES DESMONTAM DISCURSO DA PREFEITURA E REVELAM QUE CRISE DOS ÔNIBUS ESCOLARES É FRUTO DE ANOS DE FALTA DE PLANEJAMENTO
- Marcio Nolasco

- há 4 dias
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Durante votação de empréstimo milionário, parlamentares reconhecem que crianças ficaram sem transporte, frota foi sucateada e administração deixou o problema chegar ao limite
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
A sessão da Câmara Municipal de Cianorte que aprovou o empréstimo de aproximadamente R$ 20 milhões, dos quais R$ 12,5 milhões serão destinados à compra de 20 ônibus escolares, acabou produzindo um verdadeiro raio-X da gestão do transporte escolar no município. Mais do que aprovar um financiamento, os próprios vereadores fizeram um diagnóstico duro da administração municipal.
O que se ouviu no plenário não partiu da oposição, nem de denúncias externas. Foram declarações de vereadores da própria base de apoio e de parlamentares favoráveis ao projeto, que reconheceram publicamente que a frota chegou ao colapso por falta de planejamento e manutenção.

"As crianças são prioridade. Isso é falta de gestão."
A fala mais contundente foi do vereador Beto Nabhan, que desmontou o argumento de que a compra dos novos veículos resolverá imediatamente o problema.
Segundo ele, os ônibus novos ainda levarão meses para serem entregues, enquanto a frota atual continua deteriorada.
Mais do que isso, responsabilizou diretamente a administração pela situação.
"Não dá pra deixar sem manutenção os ônibus. Isso é uma coisa básica."
Em seguida, foi ainda mais incisivo:
"São seis, sete anos de mandato. Nós não podemos deixar chegar ao ponto que chegou, de ter ônibus sucateados... Acho que faltou gestão."
Beto também questionou por que Cianorte não conseguiu buscar mais ônibus junto ao Governo do Paraná, lembrando que centenas de veículos foram distribuídos para municípios paranaenses.
Para ele, faltou capacidade administrativa e planejamento para evitar a crise.
"Crianças estão ficando dias sem ir para a escola"
Outro momento que chamou atenção ocorreu quando a vereadora Professora Kelly admitiu que a deficiência no transporte escolar já compromete o direito à educação.
Sua declaração é talvez a confirmação oficial mais grave feita até agora sobre a situação.
"A falta destes ônibus é um transtorno pra uma criança a ponto de chegar a ficar dias sem ir pra escola."
A frase evidencia que o problema deixou de ser administrativo e passou a atingir diretamente milhares de famílias e estudantes da rede municipal.
"Fico envergonhado se eu fosse o administrador"
O vereador Wanderley da Avenorte foi ainda mais duro ao analisar a necessidade de recorrer a um empréstimo milionário para resolver um problema que, segundo ele, poderia ter sido evitado.
Durante sua fala, afirmou que o município não deveria chegar ao ponto de endividar a população para substituir uma frota que deveria ter recebido manutenção e renovação gradativa.
Sua conclusão foi contundente.
"Nós não podemos ter uma frota deteriorada ao ponto de ficar crianças sem transporte e vir com a solução de última hora de um empréstimo."
E completou:
"Pra mim, eu fico envergonhado se eu fosse o administrador."
A crítica atinge diretamente a capacidade de planejamento do Executivo Municipal.
Video desta sessão:
A própria base reconhece o problema
Embora os vereadores tenham aprovado o financiamento, praticamente todos admitiram que o transporte escolar vive uma situação crítica.
O presidente da Câmara, Victor Hugo Davanço, explicou que a emenda foi construída justamente para deixar claro que R$ 12,5 milhões serão destinados à compra dos ônibus escolares, evitando que os recursos tenham outro destino.
O próprio vereador Beto Nabhan afirmou que a Câmara terá de fiscalizar para garantir que os veículos realmente sejam adquiridos.
Isso demonstra que até os parlamentares favoráveis ao projeto demonstraram preocupação quanto à execução da promessa.
A admissão que chamou atenção: "Naquele momento não pensamos nos ônibus"
Se as declarações de Beto Nabhan e Wanderley da Avenorte foram duras, uma fala da vereadora Professora Kelly acabou reforçando, de forma involuntária, o principal argumento apresentado pelos críticos da administração: a manutenção e a renovação da frota de ônibus escolares simplesmente não foram tratadas como prioridade ao longo da gestão.
Ao responder aos questionamentos sobre o sucateamento dos veículos, Kelly, que foi secretária municipal em 2021, reconheceu:
"Talvez foi um fato, sim, não pensarmos no ônibus, mas naquele momento nós tínhamos outras demandas e prioridades."
A declaração é significativa porque parte de quem participou da administração municipal e confirma que o transporte escolar ficou em segundo plano diante de outras escolhas do governo.
Na sequência, a vereadora tentou justificar a decisão afirmando que "agora a prioridade é o transporte", acrescentando que "o município não vai dar conta de resolver todos os problemas de uma única vez".
Entretanto, essa justificativa acabou sendo imediatamente contestada pelo vereador Beto Nabhan, que rebateu afirmando que o problema não era a compra de novos ônibus, mas sim a ausência de manutenção preventiva durante anos.
"As nossas crianças são prioridade! Nós não podemos deixar as crianças sem ir pra escola."
Em seguida, ele foi ainda mais enfático:
"São seis, sete anos de mandato... Nós não podemos deixar chegar ao ponto que chegou, de ter ônibus sucateados... Acho que faltou gestão."
As duas declarações, colocadas lado a lado, revelam um dos momentos mais emblemáticos da sessão.
De um lado, uma ex-secretária municipal admite que os ônibus não foram prioridade quando outras demandas receberam preferência.
Do outro, um vereador afirma que justamente essa falta de prioridade e de manutenção levou ao sucateamento da frota, obrigando agora o município a recorrer a um empréstimo milionário (deixando dívida milionária) para resolver um problema que poderia ter sido evitado.
O resultado dessa escolha administrativa foi reconhecido pelos próprios parlamentares durante a sessão: crianças ficaram sem transporte escolar, ônibus chegaram ao limite de sua vida útil e Cianorte precisará contrair uma dívida milionária para reconstruir uma frota que deveria ter sido preservada ao longo dos últimos anos.
Um empréstimo para corrigir anos de omissão?
As declarações feitas durante a sessão levantam uma pergunta inevitável.
Se havia orçamento para manutenção da frota, como afirmou Beto Nabhan, por que os ônibus chegaram ao estado de sucateamento?
Se o problema era conhecido, por que a administração esperou que crianças ficassem sem transporte para buscar uma solução?
E, principalmente, por que recorrer agora ao endividamento do município para resolver uma situação que, segundo os próprios vereadores, poderia ter sido evitada com gestão, manutenção preventiva e planejamento?
As palavras que resumem a sessão
Ao final da discussão, algumas frases ficaram marcadas e ajudam a resumir o diagnóstico feito pelos próprios parlamentares:
"As crianças estão ficando dias sem ir para a escola."
"Não dá pra deixar sem manutenção os ônibus."
"São seis, sete anos de mandato."
"Acho que faltou gestão."
"Fico envergonhado se eu fosse o administrador."
Mais do que críticas políticas, essas declarações representam o reconhecimento público, dentro da própria Câmara Municipal, de que a crise do transporte escolar não surgiu de repente. Ela foi construída ao longo dos últimos anos e agora custará milhões de reais aos cofres públicos.
A população, que pagará essa conta por meio do financiamento aprovado, espera que os novos ônibus realmente sejam entregues. Mas permanece a pergunta que ecoou durante toda a sessão: Se houve planejamento adequado, por que foi necessário chegar a esse ponto? Resposta: Não houve planejamento...



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