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Europa, América Latina e a nova geopolítica da energia: por que Itália e Brasil podem liderar essa transformação

Por Renata Bueno, ex-parlamentar italiana, advogada internacional e empreendedora


Em um mundo cada vez mais instável, onde crises geopolíticas redesenham alianças e expõem fragilidades históricas, Europa e América Latina começam a se reencontrar, não apenas como parceiros tradicionais, mas como protagonistas de uma nova ordem global.



Esse movimento não é casual. Líderes europeus têm intensificado o diálogo com países latino-americanos em busca de segurança energética, estabilidade econômica e novas oportunidades estratégicas. E, nesse cenário, a conexão entre Itália e Brasil se destaca como uma das mais promissoras.


A guerra na Ucrânia deixou uma lição clara: a dependência energética custa caro, política e economicamente. Ao mesmo tempo, as metas climáticas europeias exigem mudanças rápidas, profundas e viáveis. Não há mais espaço para soluções teóricas. O momento exige ação.


É justamente aí que o Brasil entra como peça-chave.


Com uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, o país combina escala, eficiência e sustentabilidade de forma rara no cenário global. A maior parte da eletricidade brasileira já vem de fontes renováveis, enquanto o país lidera a produção de biocombustíveis com alta competitividade ambiental. O etanol de cana-de-açúcar, por exemplo, não é apenas uma alternativa — é uma solução concreta, com impacto direto na redução de emissões.


Além disso, o Brasil desponta como um dos principais candidatos a liderar a produção de hidrogênio verde, impulsionado por abundância de recursos naturais e avanços regulatórios. Em um mundo que busca energia limpa e acessível, poucos países estão tão preparados.


Mas nenhuma transição energética acontece isoladamente.


A Itália, por sua vez, traz exatamente o que falta para transformar potencial em escala global: tecnologia, conhecimento industrial e capacidade de articulação dentro da União Europeia. Ao longo da minha trajetória no Parlamento italiano, atuei diretamente para inserir o etanol brasileiro na agenda energética europeia, contribuindo para avanços que hoje se refletem em novas diretrizes e oportunidades concretas de cooperação.


Atualmente, com regulamentações mais abertas à inovação, a Europa passa a reconhecer o valor estratégico dos biocombustíveis e de soluções sustentáveis já consolidadas fora do continente. Isso abre uma janela histórica para parcerias mais ambiciosas.


Empresas como a Eni já sinalizam esse caminho, ampliando seu interesse em investimentos no Brasil em áreas como biocombustíveis avançados, combustível sustentável de aviação e hidrogênio verde. Trata-se de uma convergência clara entre necessidade europeia e capacidade brasileira.


E aqui é importante deixar algo claro: essa agenda não é ideológica, é econômica.


A diversificação da matriz energética europeia pode reduzir custos, aumentar a segurança energética e acelerar a descarbonização. Ao mesmo tempo, fortalece cadeias produtivas no Brasil, gera empregos e impulsiona inovação. É uma relação de ganhos mútuos, construída sobre bases concretas.


Além da energia, essa reaproximação entre Europa e América Latina também reflete interesses comuns mais amplos: defesa da democracia, desenvolvimento sustentável, inovação e estabilidade institucional. Em um mundo fragmentado, alianças baseadas em valores e interesses convergentes tornam-se ainda mais relevantes.


A realização da COP30 na Amazônia consolidou esse momento. O Brasil mostrou ao mundo sua capacidade de liderar uma agenda ambiental com base em resultados. A Itália, por sua vez, reafirmou seu papel como ponte estratégica entre continentes, conectando Europa e América Latina em torno de soluções reais.


Agora, o desafio é transformar essa convergência em ação.


Isso passa por acordos bilaterais mais robustos, investimentos conjuntos, certificação internacional de biocombustíveis, desenvolvimento de novas tecnologias e programas de capacitação que integrem o melhor dos dois países. Mais do que intenções, o momento exige execução.


A verdade é simples: o futuro da energia não será definido por quem tem mais petróleo, mas por quem consegue produzir energia limpa, acessível e sustentável em larga escala.


Itália e Brasil têm todas as condições para liderar esse processo.


Não se trata apenas de uma oportunidade, trata-se de uma necessidade estratégica.


E, talvez mais importante, trata-se de uma chance concreta de mostrar ao mundo que desenvolvimento econômico, responsabilidade ambiental e justiça social não são caminhos opostos, mas partes de uma mesma solução.

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