Diagnósticos
- Célio Juvenal Costa

- 31 de jul.
- 3 min de leitura
Por Célio Juvenal Costa, professor da UEM
Sempre que temos algum problema físico que afeta nossa condição acabamos procurando ajuda médica para saber o que está causando. O diagnóstico correto permite, então, que iniciemos o tratamento para aquele mal, o qual esperamos que seja sanado e voltemos à vida normal. Claro que certos diagnósticos, inesperados, graves, nos abatem porque revelam que nosso mal é maior do que imaginávamos e o tratamento será longo e doloroso. O certo, no entanto, é que o diagnóstico revela o nosso problema, o qual passamos a enfrentá-lo. Mas, os diagnósticos não servem apenas para nossos problemas físicos, mas também para nossa condição mental. É sobre eles que quero refletir hoje.

Dentre os problemas mentais que podem ser diagnosticados e, assim, possibilitar tratamento, estão os transtornos mentais, como, por exemplo, esquizofrenia, bipolaridade, ansiedade, depressão, síndrome do pânico. Há, também, os chamados transtornos do neurodesenvolvimento, como Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), dislexia, disgrafia, discalculia, dentre outros, que, se diagnosticados o mais precocemente possível, há possibilidade de tratamento, mas não de cura, pois não são considerados doenças.
Com o desenvolvimento dos estudos acerca das chamadas neurodivergências e a corresponde especialização desta ciência, proliferou a criação de clínicas próprias com muitos profissionais qualificados aptos a fornecerem diagnósticos. O autismo, por exemplo, foi considerado uma condição neurológica apenas na década de 1940 e somente em 2012 é que uma lei específica oficializou o termo TEA, reconhecendo graus diferentes no autismo. Assim, de forma geral, nos últimos anos assistimos uma proliferação de diagnósticos, me parece que especialmente de TEA e TDAH.
Os diagnósticos, de uma forma especial, para os neurodivergentes, é fundamental para que a pessoa receba a atenção e os tratamentos devidos, que passe a ser respeitada na sua condição, e que a sociedade reconheça os seus limites e as suas necessidades. É de chamar a atenção a criação, por exemplo, de espaços fechados com vidros, à prova de barulho, em estádios, para que torcedores autistas possam assistir jogos de seus times preferidos. A sociedade vem dando passos importantes no reconhecimento da necessidade de atenção diferenciada para essas pessoas, e isso é repercussão, primeiro do reconhecimento científico das neurodivergências e, segundo, do crescimento dos diagnósticos sérios e profissionais.
No entanto, assistimos hoje em dia a uma procura muito grande de pessoas por diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento, especialmente TDAH. E muitas delas respondem questionários em perfis e sites que se dizem especializados e que prometem fornecer o diagnóstico a partir de testes sem a supervisão ou intervenção de um especialista de fato. Ou seja, pessoas estão se autodiagnosticando, assim como se automedicam. E me pergunto as razões dessa verdadeira corrida em direção aos diagnósticos. Corremos o risco de uma certa banalização das neurodivergências? Aquilo que foi uma conquista da ciência e da sociedade pode se transformar em mais uma moda, assim como o consumo indiscriminado de psicotrópicos?
Infelizmente a resposta às essas perguntas é sim. Há o perigo da banalização e do modismo. No início deste texto eu parti do princípio que o diagnóstico de certa forma acalma a ansiedade de se ter um problema e não saber o que é. Resolvido o que se tem, parte-se para o tratamento com vistas à cura. Penso que o mesmo mecanismo atua nas pessoas que sofrem com as ansiedades da sociedade de consumo, e cada vez mais aumenta o número dessas pessoas, pois cada vez mais a sociedade de consumo dita as regras de como se deve viver, o que se deve fazer, do que se deve gostar etc. A dificuldade em se encaixar nas expectativas que essa sociedade cria, gera, por sua vez, um sentimento de deslocamento e de frustração. Assim, cresce uma alternativa de encontrar uma espécie de lugar seguro que justifique não se enquadrar no perfil traçado. O diagnóstico, no caso, o autodiagnóstico, pode agir como uma espécie de anestesia perante as exigências do mundo, mesmo aquelas próprias da vida adulta. O diagnóstico não imobiliza, ele na verdade protege e justifica ações. É comum as pessoas criarem para si, perante as frustrações do mundo, uma espécie de sistema de autodefesa, para evitarem sofrer, e um diagnóstico, mesmo que pela internet, de alguma neurodivergência pode ser uma arma eficiente.
O problema de pessoas procurarem se autodiagnosticar com algum transtorno neurodivergente é que existe a possibilidade de isto ser na verdade uma fuga da realidade, uma forma de não encarar os verdadeiros problemas, sejam quais forem. E, o desserviço que isto ocasiona é a banalização dos diagnósticos sérios e profissionais e, por consequência, a possibilidade de tirar a seriedade dos transtornos e das políticas públicas a eles relacionados.
Meu Instagram: @costajuvenalcelio














Ótima reflexão! É preferível diagnósticos à assumir responsabilidades de fato.