Cicatrizes
- Célio Juvenal Costa

- há 3 horas
- 2 min de leitura
Todos temos nossas cicatrizes, as que ficam visíveis, menos ou mais discretas, em nosso corpo, e aquelas que só nós sabemos pois elas marcam nossa alma. Cicatrizes são, portanto, marcas que a vida imprimiu em nós: resultados de tombos, quedas, acidentes, cirurgias etc., assinalam o nosso corpo e nos dão distinção; resultados de desapontamentos, desilusões, lutos, depressões etc., assinalam nossa alma e as carregamos para sempre. Um filme já antigo, O Homem Bicentenário, de 1999, apresenta um diálogo muito interessante, no qual o cientista conversa com o protagonista do filme, o robô Andrew, que vai se tornando humano, quando ele está colocando o rosto definitivo que Andrew terá: o cientista pergunta se o robô quer que coloque alguma marca no seu futuro rosto e, diante do ar de interrogação, responde que as marcas são as nossas imperfeições, e as nossas imperfeições são o que nos tornam singulares.

Vivemos, no entanto, uma época em que queremos remover nossas imperfeições por meio de procedimentos estéticos. Arrumamos nosso nariz, aplicamos botox, fazemos preenchimento com ácido hialurônico, fazemos peeling, microagulhamento, e outros vários procedimentos com a finalidade de eliminarmos o que consideramos imperfeições no rosto, afinal, podemos esconder outras partes do corpo, mas o rosto sempre fica visível. Também buscamos eliminar cicatrizes que obtivemos em nossa vida, cicatrizes que, com o passar do tempo, passaram a incomodar e nos tornar, de alguma forma, mais imperfeitos, mais feios. Assim, vivemos uma época avançada em termos de tecnologia em que se torna possível, e mais barato do que anos atrás, a busca para nos tornarmos mais belos, eliminando o que acreditamos ser as nossas imperfeições.
Mas, há um tipo de cicatriz que não é removida por nenhum procedimento estético. Cicatrizes desse tipo nós as carregamos sempre, mas com a diferença de que as outras pessoas não conseguem ver. Algumas dessas cicatrizes se tornam, com o tempo, apenas marcas de situações que vivemos e de acidentes metafóricos que sofremos; outras, porém, têm a capacidade de, volta e meia, arderem como se ainda não fossem cicatrizes, mas cortes. Nossa vida é cheia das cicatrizes que carregamos na nossa alma. Assim como as lembranças boas, que também se tornam marcas, as más lembranças deixam marcas mais profundas que cicatrizam, mas não desparecem. Tais cicatrizes por vezes nos servem de armas para lidarmos com o mundo dos viventes, servem como alertas de situações que não queremos repetir. Por vezes essas armas são suficientes, mas por outras, novos cortes, novas dores, vem se juntar às velhas cicatrizes.
Diferente do corpo, em que podemos remover cicatrizes, na alma elas podem, no máximo, ser esquecidas. Mas, elas continuarão lá, e se algo ocorre que lembre de alguma delas, ela provavelmente irá se manifestar e sair do esquecimento. Creio que algumas cicatrizes sempre devem ser lembradas, não para cultuar um tipo de dor, mas, simplesmente, para servir de alerta para evitarmos repetir o tombo que levamos e que deixou aquela (maldita) cicatriz.
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