Anel da invisibilidade
Por Célio Juvenal Costa, professor da UEM
O filósofo grego Platão narra, nas partes iniciais do seu livro A República, a alegoria do Anel de Giges, ou do Anel da Invisibilidade. Em resumo, é a história mítica de um camponês chamado Giges que certa vez, após um pequeno terremoto em sua aldeia, encontrou em uma fenda um esqueleto de uma pessoa o qual tinha em um de seus dedos um anel de ouro muito bonito; Giges pegou o anel e logo percebeu que se colocasse o engaste para o lado de dentro da mão ele ficava invisível; depois do susto inicial, ele usou seu poder para cometer inúmeros delitos e crimes, incluindo o assassinato do seu rei, tornando-se o soberano do reino ao se casar com a rainha. A alegoria é usada no livro pelo personagem Sócrates para ilustrar a discussão em torno da justiça na sociedade, partindo do princípio que as pessoas, se pudessem, cometeriam injustiças sem o medo de serem punidas. A discussão não é sobre o que pode o indivíduo sozinho, mas sobre como ele se comporta na sociedade. Mais do que julgar Giges, o que o livro se propõe é discutir o tipo de sociedade que permite que o indivíduo pense primeiro em si mesmo, nos seus desejos e prazeres, em detrimento do bem geral.

A alegoria, que foi registrada por Platão em 380 a.C., continua com uma atualidade que chega a impressionar. De imediato, a pergunta que nos fazemos é: se pudéssemos cometer delitos, crimes, contravenções sem a possibilidade de sermos presos, o que faríamos? Qual a verdadeira importância que damos aos laços sociais que nos unem, os quais regulam a vida em sociedade? Entendemos que os interesses pessoais estão acima dos interesses coletivos? O espaço público, por exemplo, deve ser usado em benefício do indivíduo ou do coletivo? O que, de fato, pensamos sobre os limites entre a liberdade individual e a coletiva?
No contexto em que a alegoria do Anel foi apresentada, a discussão girava em torno do que os cidadãos atenienses, contemporâneos de Platão, praticavam, se a justiça ou a injustiça. Ou, para ser mais preciso, o que fazia com que as pessoas vivessem em sociedade cumprindo o que prescreviam as leis, se o apego pela justiça em si, ou o medo de serem castigadas caso cometessem alguma injustiça? A resposta a esta pergunta é dada pelo exemplo de Giges, o qual passou a cometer injustiças pela certeza de sua impunidade. E é nesse sentido que a alegoria dialoga conosco hoje em dia: quão fortes são os laços que unem as pessoas em sociedade, no sentido de que, novamente, o interesse coletivo seja mais importante que o pessoal?
No texto de Platão a discussão inicial gira em torno do que define a justiça na cidade, se o interesse dos mais fracos ou o interesse dos mais fortes. Por meio do personagem Sócrates, defende-se a concepção de o justo ser o interesse dos que menos podem e, portanto, a sociedade cria leis que regulam a vida coletiva pensando na proteção dos que precisam dos outros. Vou dar um exemplo atual simples do que seria esta concepção: no trânsito há uma regra básica em que o maior deve sempre zelar e dar preferência para o menor, ou seja, o pedestre é o sujeito que sempre deve ser protegido, depois os ciclistas e assim por diante; as faixas de pedestres em nossas ruas e avenidas deveriam ser a sinalização que a preferência da passagem é deles, dos ciclistas etc. O bem coletivo principia pelo interesse dos mais fracos e, portanto, nesta concepção, os motoristas que não param nas faixas, que não respeitam os menos protegidos no trânsito, praticam a concepção oposta, de que a justiça é o interesse dos mais fortes, ou seja, os interesses individuais prevalecem sobre os coletivos.
Quem tivesse a sorte (ou maldição) de encontrar um anel da invisibilidade se transformaria na pessoa mais forte entre os fortes, pois poderia praticar delitos e crimes os mais variados sem o risco de ser punido. Ao fazer isso, o que a moveria seriam os seus interesses pessoais de riqueza, de privilégios, de poder. Talvez por isso que acredito que um bom número de pessoas, talvez uma maioria, se pudesse usaria um anel como esse. E a resposta à pergunta sobre quem usaria diz mais sobre a sociedade com um todo do que aos impulsos do indivíduo. Em A República, a conclusão é de que as pessoas queriam ter o poder de Giges e, por isso, Platão apresenta, na maior parte do livro, um projeto de reforma de sua cidade, visando a construção de um Estado que privilegiasse o interesse coletivo em detrimento do individual.
E você caro leitor, se encontrasse um anel como o que Giges achou, o que faria? Confesso que a resposta a esta pergunta não é fácil, pois a tentação de conseguir coisas sem o receio de ser descoberto é muito grande. Mas, são respostas a perguntas assim que ajudam a, se for o caso, descobrirmos quem somos e quais nossos valores.
Ah, não sei nas cidades dos meus leitores, mas onde eu moro, em Maringá-PR, em uma estatística otimista, de cada 10 motoristas 01 para em faixas de pedestres para dar passagem.
Meu Instagram: @costajuvenalcelio

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