A vaquinha
- Célio Juvenal Costa

- há 3 dias
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Há um conto, talvez razoavelmente conhecido, que narra a história de um mestre e seu discípulo, uma casa pobre e uma vaca leiteira. Não se sabe ao certo a qual povo pertence a autoria da história e, por isso, ela alcançou o status de uma narrativa popular mundial.

Em síntese, um mestre e seu discípulo estão em uma viagem, a pé, pelo interior de seu país, quando se deparam com uma casinha, de aparência pobre, com alguns moradores. O mestre pede para o discípulo ir até a casa e depois fazer um relato sobre a situação que encontrará. O relato é, basicamente: uma família pobre, em uma casa igualmente pobre, sem quase nenhum conforto, sem fogão, sem geladeira, o piso é de terra batida, sem plantação, e com apenas um animal, uma vaca, que fornecia o leite para os quatro moradores, dois adultos e duas crianças. O mestre pergunta se o discípulo gostaria que aquela família mudasse de vida para melhor; “claro que sim”, foi a resposta; então, ele ordenou: “volte lá e suma com a vaca”. Depois de pedir para o mestre confirmar, um tanto incrédulo, se era isso mesmo, o discípulo voltou, roubou a vaca daqueles pobres moradores e a empurrou em um precipício perto dali. Depois de um ano, novamente os dois estavam passando pelo lugar e viram que havia uma outra casa, maior, mais bonita, com algumas galinhas e porcos no quintal. O mestre pediu para o discípulo para, novamente, ir investigar o que teria acontecido. O relato foi, basicamente: depois que a vaquinha foi levada, eles resolveram plantar algumas coisas no quintal, depois resolveram criar outros animais, conseguiram vender um pouco do que plantavam e criavam e, assim, puderam melhorar a casinha deles, comprando fogão, geladeira, colocando um piso no chão, inclusive construíram mais dois cômodos. Intrigado, o discípulo quis saber do mestre como ele sabia que depois que roubassem a vaquinha eles iriam melhorar de vida. O mestre respondeu: “eu não sabia ao certo, mas às vezes é necessário que nos tirem nosso único porto seguro para que nós nos movimentemos e façamos algo diferente e, assim, possamos melhorar de vida. Ao tirarmos a vaquinha, eles tiveram que buscar novas opções para sobreviver...”.
Esta narrativa, esta fábula popular, quer nos mostrar que todos podemos ter, em algum momento de nossa vida, uma vaquinha em que nos apegamos para tocarmos nossa vida. Algumas vaquinhas podem ser passageiras e outras podem durar uma vida inteira. É difícil, na verdade, identificar se a nossa vaquinha pode estar mais nos prejudicando do que nos ajudando, até porque, como mostra a história, a vaquinha fornecia o leite que alimentava aquela família. A imobilidade pela qual aquela família passava não era percebida como tal, pelo contrário, mesmo na pobreza, sem conforto, a vida continuava para eles. A nossa vida também pode ter momentos como esse, em que nos contentamos, meio que naturalizamos, em uma situação que nos acomoda e que não nos exige movimento e atitudes.
Aliás, talvez o que queiramos para nossa vida seja exatamente isso, um estado em que não precisemos de atitudes porque não necessitamos nos movimentar. Determinadas situações podem nos acomodar de tal forma que relativizamos até a nossa autoestima, ao nos acostumar a não sermos exigentes; por vezes, para nós as sobras da vida são suficientes. Quando isso acontecer, se conseguirmos ter a consciência da situação, se conseguirmos nos enxergar num quadro mais amplo, temos por obrigação deixar de olhar a nossa vaquinha como salvação da nossa vida e, sem a necessidade de sacrificá-la, começar a nossa plantação e a criação de outros animais. Caso não tenhamos a autoconsciência, tomara que tenhamos a sorte de que alguém venha, na calada da noite, sem que nos apercebamos, e leve nossa vaquinha para um precipício qualquer. Sem ela, sem nossa estimada amiga leiteira, só teremos uma saída: procurar outras coisas para garantir nosso sustento e, assim, pelo nosso esforço, podermos ver que temos condições de zarpar de certos portos seguros.
Meu Instagram: @costajuvenalcelio













Excelente reflexão.