A roleta da direita.
- Walber Guimarães Junior

- 17 de out.
- 4 min de leitura
Por Walber Guimarães Junior, engenheiro e comunicador.
Lógico que a política tem alguns critérios diferentes, com os donos de legenda garantindo algo como uma reserva de mercado, eleitoral, fora disto as regras seguem o padrão de outras atividades, o histórico vai gerando uma hierarquia que se deve obedecer. Desta forma, em cada eleição as conquistas eleitorais geram bônus que se refletem no número da senha para cada disputa.

Uma análise detalhada informa que a direita já estabeleceu sua hierarquia para a sucessão nacional, entregando a senha número um para o governador paulista Tarcísio de Freitas e a seguinte para o paranaense Ratinho Junior. As demais serão jogadas ao ar e quem tiver coragem que as pegue, embora o momento aponte apenas para Romeu Zema e Ronaldo Caiado com disposição para as raias externas da corrida eleitoral.
Tarcísio não é mais um político amador, mas experiente o suficiente para entender as nuances e Brasília. Sabe perfeitamente que o presidente do PL gosta acima de tudo do poder, sem nenhuma fidelidade aos companheiros, conhece o humor de Jair Bolsonaro e sua ânsia por reeleição, além da instabilidade e trapalhadas dos seus filhos, por isso hesita em trocar uma reeleição confortável em São Paulo por uma disputa em aberto por Brasília e só o fará se conseguir criar uma convergência da direita que praticamente o escale como candidato oficial da oposição.
Ainda assim, pela expectativa eleitoral, pelo bom desempenho no governo o estado mais forte da federação, tem em mãos a senha 1 e, se tiver disposição, certamente será o principal adversário de Lula, ainda que, na minha opinião, não tenha a mesma habilidade política de Ratinho Junior que se protege muito bem das trombadas política, tem um diálogo muito mais amplo com lideranças e siglas do centro político.
Ratinho Junior também tem uma excelente largada no seu estado, percentualmente maior que Tarcísio, mas aplicada a um universo muito menor, tem uma narrativa mais sólida, reflexo de quase sete anos de mandado bem avaliado, com muitas conquistas, sempre acima das médias nacionais, tem idade para conferir credibilidade ao discurso de virada geracional e tem o pai como ótimo cabo eleitoral, ainda assim estes requisitos não o tornam mais viável que o governador paulista e, ambos, ainda tem desafios internos que certamente serão muito maiores se optarem pela cena nacional.
Tarcísio tem duas opções que lhe agradam, seu vice e o prefeito paulistano, mas a construção do quadro nacional lhe obrigará a acomodar interesses do PL e do PSD, por exemplo, assim como Ratinho, para ter o importante apoio da federação União Progressista, poderá apenas assistir, sem interferir, na disputa do líder das pesquisas, Senador Sergio Moro do União, neste caso com o PSD lançando o candidato mais competitivo, Deputado Alexandre Curi em dobradinha com Rafael Greca, em detrimento ao seu preferido Secretário Guto Silva.
Estas necessárias concessões em casa, serão imprescindíveis para a montagem do quadro nacional, diante do desafio de um Lula reforçado pelos episódios do tarifaço de Donald Trump, potencializados pelas trapalhadas de Eduardo Bolsonaro que certamente prestou um serviço muito mais efetivo para as esquerdas do que qualquer de suas lideranças. Ainda assim, nada indica que qualquer dos candidatos tenha potencial para fechar a conta no primeiro turno e na falta, até agora, de outsiders competitivos, o segundo turno deve, mais uma vez promover o duelo direita x esquerda, com a provável presença de Tarcísio de Freitas ou Ratinho Junior no primeiro polo, impressão reforçada pelos sinais emitidos por ambos os postulantes.
Tarcísio de Freitas já admitiu desistir da candidatura e sinalizou Ratinho como substituto mais qualificado e Ratinho Junior, em ato de muita cortesia, também admitiu que Tarcísio segue mais próximo de construir a unidade da direita. Parece um caminho tranquilo a ser percorrido.
Engano. Tem muito quebra mola no caminho e a maior parte deles tem origem no bolsonarismo raiz que pode até ser engolida pela onda de unidade da direita, mas rejeita Tarcísio porque enxerga nele o fim de um ciclo. Para além das condenações, o governador paulista tem potencial para arquivar em definitivo qualquer voo maior de qualquer membro da família Bolsonaro.
Por conta desta leitura, Eduardo, se desfizer o nó das intrigas internacionais e se livrar das questões jurídicas, ou Flavio podem marcar presença na disputa como forma de carimbar o patrimônio eleitoral e garantir um espaço maior no futuro governo, além de manter na mesa a exigência de anistia ao ex-presidente em caso de vitória da direita.
A verdade é que a direita tinha um amplo favoritismo na fotografia do primeiro semestre, mas a opção por pautas impopulares, a insistência com a anistia irrestrita ao ex-presidente e principalmente a atuação desastrada no episódio do tarifaço americano, fizeram o pêndulo se movimentar, com Lula subindo na mesma proporção que a direita recuou. Talvez ainda seja favorita no segundo turno, mas precisa organizar logo a fila da sucessão, definindo nome preferencial sob pena de entrar em campo muito dividida, em cenário dos sonhos da esquerda.
Falta ainda muito tempo, mas não tem mais espaços para gols contra, como de Eduardo Bolsonaro, além de organizar com urgência a escolha entre os dois governadores e lhes conceder tempo para organizar a casa, assumir compromissos e preparar o discurso para enfrentar e fênix petista que, com oitenta anos, se acha rejuvenescido pelos erros da oposição.














Ótima análise do tabuleiro eleitoral.