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Brasil ratifica acordo Mercosul-UE e se reposiciona no tabuleiro econômico global

Tratado histórico cria a maior zona de livre comércio do mundo e projeta novos fluxos de investimentos, exportações e cooperação entre Europa e América do Sul


Por Renata Bueno, ex-parlamentar italiana, advogada internacional, doutora em Direito Internacional, empresária e presidente do Instituto Cidadania Italiana



O Brasil deu um passo decisivo para redefinir sua inserção na economia internacional. Em sessão solene realizada em 17 de março de 2026, o Congresso Nacional promulgou o decreto legislativo que ratifica o Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia, resultado de mais de duas décadas de negociações e considerado um dos tratados mais relevantes da atualidade.


A medida insere o país em um novo eixo estratégico global, conectando mercados que somam cerca de 718 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto conjunto de US$ 22,4 trilhões. Trata-se da maior área de livre comércio já estabelecida, com potencial para redefinir fluxos comerciais e cadeias produtivas em escala transatlântica.


Mais do que um gesto diplomático, a ratificação sinaliza uma mudança de posicionamento: o Brasil busca ampliar sua presença global, diversificar parcerias e fortalecer sua competitividade em um cenário marcado por instabilidade geopolítica e reorganização econômica.


A aprovação do acordo representa, nesse contexto, um avanço estratégico, ao ampliar oportunidades comerciais, atrair investimentos e consolidar relações internacionais de longo prazo.


Como advogada internacional e ex-parlamentar italiana eleita pela América do Sul, acompanho esse processo com entusiasmo, temperado pela responsabilidade de quem conhece suas complexidades. A participação de lideranças como Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Geraldo Alckmin, Mauro Vieira, Marcos Pereira e Tereza Cristina evidencia a dimensão política e institucional do momento.


A condução célere e consensual da tramitação legislativa também revela maturidade institucional e clareza estratégica por parte do Brasil.


Impacto econômico

As projeções indicam impactos relevantes sobre a economia brasileira. Estimativas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) apontam crescimento de 0,34% no PIB, equivalente a R$ 37 bilhões, além de aumento de 0,76% nos investimentos.


Ao mesmo tempo, a tendência de redução de preços ao consumidor (0,56%) e elevação dos salários reais (0,42%) sugere efeitos positivos tanto no ambiente produtivo quanto no poder de compra da população.


No comércio exterior, a expectativa é de expansão de 2,65% nas exportações brasileiras, fortalecendo a presença do país em mercados europeus e ampliando a competitividade de setores estratégicos.


Em um cenário global marcado por tensões e protecionismo, o acordo contribui para diversificar riscos e reduzir dependências comerciais.


Integração além do comércio

O alcance do tratado ultrapassa as dimensões econômicas. Ele também reforça conexões culturais, institucionais e sociais entre os dois blocos.


Para comunidades com vínculos históricos entre Brasil e Europa, especialmente os ítalo-brasileiros, abrem-se novas possibilidades de mobilidade, reconhecimento profissional e cooperação em áreas como inovação, sustentabilidade e bioeconomia.


Essa convergência dialoga diretamente com agendas contemporâneas, incluindo a transição energética e o desenvolvimento sustentável.


Resistências europeias e resposta brasileira

Apesar do avanço, o acordo ainda percorre um terreno sensível na Europa.


Durante minha atuação na Itália, acompanhei de perto as resistências de países como França, Irlanda e Polônia, sobretudo em relação ao setor agrícola, um dos pontos mais delicados das negociações.


Nesse contexto, a resposta brasileira foi rápida e estratégica. A publicação do Decreto 12.866/2026, que regulamenta salvaguardas comerciais bilaterais, estabelece mecanismos de proteção contra desequilíbrios e reforça a segurança jurídica, em conformidade com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).


Próximos passos e cenário internacional

A entrada em vigor do acordo ainda depende de etapas formais, como a ratificação presidencial no Brasil, a notificação à Comissão Europeia e a aprovação pelos parlamentos nacionais europeus.


A expectativa é de aplicação provisória nos próximos meses, o que já poderá gerar efeitos concretos no curto prazo.


Em um contexto global marcado por disputas comerciais e questionamentos ao multilateralismo, o acordo Mercosul-UE surge como um contraponto relevante, reafirmando o compromisso com a cooperação internacional, a previsibilidade regulatória e o desenvolvimento sustentável.


De promessa a realidade

Se a assinatura, em janeiro, simbolizou o fim de um ciclo de negociações, e a ratificação brasileira, em março, consolidou um avanço político, o momento agora é de execução.


O desafio será transformar o potencial do acordo em resultados concretos, com foco em pequenas e médias empresas, proteção ambiental e inclusão produtiva.


Mais do que um tratado comercial, o acordo Mercosul-União Europeia representa uma escolha estratégica: a de construir pontes em um mundo cada vez mais fragmentado.

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