A Filosofia, Santo Agostinho e o Professor
- Célio Juvenal Costa

- 6 de ago.
- 3 min de leitura
Por: Celio Juvenal Costa, professor da UEM.
Há alguns anos atrás, preparando aula sobre o livro Cidade de Deus de Santo Agostinho para meus alunos do curso de Pedagogia na disciplina Filosofia da Educação Medieval, estabeleci uma relação que, penso, talvez seja original; mas, mesmo não sendo, creio que é bem instigante. Trata-se da relação que fiz entre o papel do professor e, por sua vez, a relação que Agostinho faz da Trindade cristã com as partes da Filosofia em Platão. Explicando...

Segundo Agostinho, Platão estabelece que a filosofia tem três partes: física, lógica e ética. A primeira parte diz respeito ao conhecimento do bem, ou seja, à investigação do mundo verdadeiro, que, para ele, é o mundo inteligível, no plano das ideias, e não o mundo sensível, da concretude cotidiana; física, porque se trata do conhecimento das causas últimas. A segunda parte deriva da primeira, ou seja, o filósofo, depois de conhecer o bem, deve transmitir, ensinar sobre ele para os seres humanos comuns que não têm condições de conhecê-lo por si mesmos; a transmissão do conhecimento tem que ser feita de forma lógica, racional. A terceira parte é a vivência coletiva de acordo com o bem, é a estruturação de uma sociedade justa para todos, pois a justiça é atributo do bem; a ética é a arte do convívio justo em sociedade e, por isso que, para Platão, os governantes deveriam ser filósofos. As três partes compõem um todo, ou seja, para Platão, filosofar requer conhecer, transmitir/ensinar e viver.
Santo Agostinho, quando apresenta o pensamento do filósofo grego, num esforço de estabelecer afinidades entre a filosofia platônica e o cristianismo, estabelece uma relação entre as partes da filosofia com a trindade cristã. A física, que para ele seria a teologia natural, se relaciona com a primeira pessoa da trindade, Deus, à medida em que o conhecimento de todas as coisas provém dele e, portanto, conhecer o bem é conhecer o divino. Cristo se relaciona com a parte lógica da filosofia, no sentido de que Deus enviou seu filho ao nosso mundo para renovar a aliança e transmitir para os homens as coisas acerca do criador (como está no evangelho de João: "E o Verbo se fez carne"). O Espírito Santo se relaciona com a ética à medida que é ele que inspira os homens a viver de acordo com os desígnios divinos, pois depois que Cristo subiu aos céus, o Espírito Santo ficou entre os seres humanos para lhes inspirar a caridade. A trindade, assim como a filosofia, deve ser entendida como três feições de um mesmo rosto, como três momentos de um mesmo ser, um ser que é o bem, que ensina sobre esse bem e que inspira a se viver de acordo com esse mesmo bem.
A relação que eu faço disso tudo com o papel do professor não tem a ver com uma visão religiosa acerca do seu afazer, mas com as características que o professor deve ter para exercer bem sua profissão. Mais do que a mensagem francamente religiosa em Agostinho, o que me despertou a reflexão foi a ideia de algo que deve ser compreendido em três partes, mas que só tem sentido em um todo único.
Em primeiro lugar, penso que o professor deve conhecer o assunto que ele vai trabalhar em sala de aula, pois não se consegue ensinar o que não se sabe; cabe ao professor, dentro do possível, se preparar bem para o que vai ser ensinado, procurar estabelecer conexões do conteúdo a ser transmitido com a realidade dos alunos, por exemplo. Em segundo lugar, o professor deve saber transmitir, comunicar o conhecimento de forma clara para o aluno, ou seja, ele deve ter didática e, especialmente, paciência para ensinar; tem conteúdos que são mais difíceis que os outros e, portanto, o professor deve se preparar, para, por exemplo, passar mais de uma vez o conteúdo, levar em consideração que os alunos podem ter dificuldade em acompanhar a aula. Enfim, o professor deve, no que depende dele, criar um clima favorável para que o processo de ensino-aprendizagem se realize da melhor maneira possível; o professor que é arrogante, autoritário, populista, mais prejudica do que contribui com a formação de seu aluno, pois um ambiente em que não há espaço para perguntas, para debates, para críticas, não é um ambiente formador e sim apenas de repasse de um determinado conteúdo, tal como o conceito de Educação Bancária desenvolvido por Paulo Freire.
Penso que estas três qualidades juntas (conhecer, comunicar e respeitar) é que forjam um bom professor; se faltar uma delas o trabalho dificilmente será bem feito. Tive a oportunidade e a sorte de ter tido vários professores assim, e a eles sempre rendo meus silenciosos, mas genuínos, agradecimentos. Eles serão, sempre, minha inspiração!!!
Meu Instagram: @costajuvenalcelio
Obs: Esta é uma versão revisada e atualizada de um texto originalmente publicado no blog: devaneioseoutrasreflexões.blogspot.com.














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