A Cidade que Nunca Chega
- Marcio Nolasco

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Promessas de longo prazo e a verità effettuale no capítulo XV de O Príncipe
Por Marcio Nolasco - Analista de Politicas Públicas
Texto baseado na leitura do estudo de um amigo...
É comum ouvir, em discursos de prefeitos e candidatos a prefeituras, uma promessa de tipo peculiar: a de que sua gestão está “preparando a cidade” para um desenvolvimento social que só será plenamente sentido daqui a vinte, vinte e cinco ou trinta anos. Trata-se de uma retórica sedutora — projeta visão, planejamento e responsabilidade geracional — mas que também levanta uma questão incômoda: até que ponto essa promessa é uma estratégia política deliberada, mais preocupada em evitar a cobrança imediata do que em produzir resultado efetivo? Este artigo propõe examinar esse fenômeno à luz de um dos textos fundadores do pensamento político moderno: o capítulo XV de O Príncipe, de Nicolau Maquiavel.

O capítulo XV e a “verità effettuale”
No capítulo XV de O Príncipe, Maquiavel anuncia o método que guia toda a obra. Ele declara que seu propósito é tratar da realidade efetiva das coisas, e não de repúblicas ou principados imaginados — governos ideais que jamais existiram nem existirão na prática. A crítica é dirigida aos filósofos e moralistas de sua época (e da tradição clássica), que descreviam modelos ideais de governante e de cidade sem levar em conta como os homens realmente vivem e agem — em contraste com como deveriam viver, segundo um ideal moral abstrato.
Para Maquiavel, essa distância entre o ideal imaginado e a realidade efetiva é perigosa: um governante que orienta sua ação por modelos idealizados, ignorando a realidade concreta dos interesses, das paixões e das circunstâncias, tende à ruína — porque, entre tantos que não são bons, aquele que quer seguir apenas o bem se arruína. Governar bem, para Maquiavel, é antes de tudo saber lidar com o que é, e não com o que deveria ser.
A promessa de “30 anos”: entre planejamento legítimo e “principado imaginado”
Aplicado ao debate contemporâneo, o critério da verdade efetiva oferece uma lente interessante — e desconfortável — para examinar discursos de longo prazo na política municipal.
O argumento a favor dessas promessas é razoável e não deve ser descartado: cidades enfrentam problemas estruturais — mobilidade urbana, saneamento, educação, planejamento territorial — cujos efeitos plenos realmente só aparecem em décadas. Reformas educacionais, investimentos em infraestrutura ou políticas de longo prazo em saúde pública têm, de fato, maturação lenta. Exigir apenas resultados imediatos de um prefeito pode incentivar populismo de curto prazo, obras cosméticas e desincentivo a investimentos estruturais necessários. Nesse sentido, falar em “preparar a cidade para daqui 30 anos” pode ser um compromisso legítimo com o planejamento urbano sério.
O problema, sob a ótica maquiaveliana, surge quando essa promessa deixa de ser um horizonte de planejamento verificável e passa a funcionar como um “principado imaginado”: uma projeção de resultados tão distante no tempo que se torna, na prática, impossível de testar, verificar ou cobrar. Um mandato tem, em regra, quatro anos. Um prefeito que desloca sistematicamente o critério de avaliação de sua gestão para um horizonte de trinta anos — fora de seu mandato, fora até da vida política ativa de boa parte de seus eleitores mais velhos — está, na linguagem do capítulo XV, abandonando a verdade efetiva das coisas em favor de uma imagem retórica que não pode ser refutada nem confirmada durante o período em que ele de fato exerce poder e presta contas.
Virtù, fortuna e o deslocamento da responsabilidade
Essa análise se conecta diretamente a outro par conceitual central da obra: virtù e fortuna. Para Maquiavel, a virtù do governante mede-se por sua capacidade de agir com eficácia sobre o presente — antecipar problemas, tomar decisões, construir “diques” contra o imprevisível. A fortuna, por sua vez, é o território do incontrolável: aquilo que escapa à ação humana e que nenhuma virtù consegue dominar por completo.
Uma promessa de resultados “daqui a 30 anos” desloca, de forma sutil, a responsabilidade da esfera da virtù (o que o governante efetivamente controla e executa agora) para a esfera da fortuna (o que dependerá de fatores futuros incontroláveis — outros governantes, crises econômicas, mudanças políticas, fatores externos). Em outras palavras: ao projetar o julgamento de sua gestão para um futuro tão distante, o político transfere para a fortuna o ônus de validar (ou não) sua própria virtù presente — um movimento retórico conveniente, já que, quando o prazo chegar, dificilmente haverá como isolar sua contribuição específica dos efeitos de décadas de outras administrações, políticas nacionais e circunstâncias imprevisíveis.
Uma leitura de duplo sentido
É importante notar que a própria obra de Maquiavel oferece elementos para duas leituras opostas desse comportamento político:
1. Leitura crítica: promessas de resultados apenas no longuíssimo prazo podem ser lidas como estratégia de blindagem contra a cobrança da “verdade efetiva” imediata — um uso instrumental da retórica de planejamento para adiar indefinidamente a prestação de contas, escondendo eventual falta de ação concreta durante o mandato.
2. Leitura mais favorável: nos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Maquiavel valoriza instituições e políticas duradouras, capazes de sobreviver à passagem de diferentes governantes — o que sugere que nem toda visão de longo prazo é ilegítima. A questão, mais precisamente maquiaveliana, não é se existe horizonte de longo prazo, mas se ele vem acompanhado de ações efetivas e verificáveis no presente — obras iniciadas, indicadores de curto e médio prazo, metas intermediárias auditáveis — ou se serve apenas como cortina retórica para a ausência de resultado imediato.
Conclusão: o teste da verdade efetiva
O critério que Maquiavel propõe no capítulo XV de O Príncipe pode funcionar, quinhentos anos depois, como um teste bastante prático para avaliar discursos políticos contemporâneos sobre desenvolvimento urbano de longuíssimo prazo: uma promessa de futuro só é politicamente séria na medida em que se traduz em compromissos presentes, mensuráveis e passíveis de verificação dentro do próprio mandato. Quando o horizonte prometido é tão distante que nenhuma cobrança é possível enquanto o governante ainda está no cargo, a promessa deixa de pertencer ao campo da virtù política — a capacidade real de agir e produzir resultado — e passa a pertencer ao campo do “principado imaginado”: uma imagem de cidade que, como os governos ideais que Maquiavel criticava, “nunca se viu nem se soube que existisse de fato”.
Este artigo apresenta uma análise interpretativa que aplica conceitos da obra de Maquiavel a um fenômeno do debate político contemporâneo; não se refere a nenhum prefeito, gestão ou cidade específicos.



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