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Voto afetivo e incondicional

há 2 horas
3 min de leitura

Em uma eleição, seja qual for, a decisão sobre em quem se votar se dá de diversas maneiras: ideologia, amizade, interesse, competência, identificação, revolta, indicação, admiração, dentre outras motivações. Nas duas últimas eleições gerais para presidente, senador e deputado federal e estadual, e especialmente nesta que estamos vivendo agora, há um tipo de voto que pode, inclusive, decidir a eleição, que eu chamo de voto afetivo e incondicional.

 

 

Por voto afetivo, eu defino a opção do eleitor motivada muito mais por sentimentos do que por aspectos de ponderação racional. Os sentimentos são de confiança inabalável e emocional em um determinado tipo de retórica ou narrativa. Este tipo de voto, motivado por um afeto, se torna incondicional, tal qual, como dizem, é o amor de uma mãe por seus filhos. O candidato escolhido pelo afeto tem direito a falar o que quiser, a fazer o que quiser, se aliar com quem precisar, defender quem bem entender, que o eleitor vai procurar uma justificativa plausível e vai, se for o caso e tal como uma mãe para com seus filhos, perdoá-lo, e entender que o que falou, o que fez, com quem se aliou, quem defendeu, foi por um bem maior.

 

O voto afetivo, que gera um apoio incondicional, não está baseado na apuração de fatos, na avaliação de competências, na análise dos candidatos para além dos rótulos que os partidos já os definem. Para o voto afetivo incondicional não importa se o candidato está aliado com facções criminosas, se ele pediu dinheiro para banqueiros desonestos, se ele não consegue explicar sua riqueza, pois qualquer coisa que esse candidato diga, que minimamente cumpra a função de mostrar que ele é confiável e honesto, vai ser suficiente para que a opção feita não sofra abalos.

 

É possível mapear votos afetivos de apoio incondicional tanto na direita como na esquerda, mas nas últimas eleições, incluindo esta de 2026, o percentual desse tipo de voto na direita assumiu um caráter massivo. Parece que se está atualizando uma máxima atribuída a Maquiavel, de que os fins justificariam os meios, mesmo que esses meios, os candidatos, de fato não sejam confiáveis, mas eles são tidos como instrumentos adequados para cumprir as finalidades da eleição, que seria eleger pessoas comprometidas com o conservadorismo moral, social e político, por meio de uma retórica que une o ardor na defesa de interesses conservadores e fundamentalistas religiosos com um ódio àqueles que representam o contrário. É a crença obstinada em uma redenção messiânica que imputa, em seus contrários, a pecha de comunistas, de ateus. É uma luta maniqueísta do bem contra o mal.

 

O governo, que uma boa parcela das pessoas que votarão na direita nas eleições que se aproximam quer, deve se preocupar maximamente com a defesa dos valores tradicionais da família e da religião, e minimamente com a melhoria da saúde pública, da educação pública, com investimentos em ciência e pesquisa, com as questões climáticas, com políticas de enfrentamento da miséria e da pobreza e com a inclusão das pessoas que são discriminadas e, especialmente com a defesa da soberania nacional. Até porque, os candidatos de direita têm muito em comum o discurso de que se deve cortar impostos para que sobre mais dinheiro para as pessoas investirem onde quiserem; cortar impostos é tirar dinheiro que pode ser investido justamente para estabelecer políticas direcionadas às pessoas que mais necessitam delas para sua vida diária.

 

Se formos analisar o discurso que sustenta o apoio afetivo e incondicional, ele é estruturalmente simples, de fácil compreensão, numa lógica binária maniqueísta que se direciona muito mais à emoção do que à razão. Claro que nem todos os votos para candidatos da direita são desse tipo, pois há pessoas com outras e, quem sabe, nobres motivações, para seu voto. No entanto, decidir o voto por propostas exequíveis, por prioridades sociais bem definidas, pela complexidade da vida política, pela capacidade de articulação e de representatividade nacional e internacional, exige ponderações e avaliações mais racionais do que emocionais. O apoio afetivo e incondicional, por carecer de reflexões mais profundas, se torna à prova de revisões e, infelizmente, pode decidir uma eleição tão importante como para a Presidência da República.

  

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

1 comentário

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Prof Guerra
há 17 minutos
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Uma visão muito crítica e inteligente do momento político atual. Parabéns.

P

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